Cinco comandantes exonerados, mas ministro não põe lugar à disposição

Azeredo Lopes assume "responsabilidade política". Chefe do Estado-Maior do Exército afasta comandantes das cinco unidades envolvidas

O ministro da Defesa afirmou ontem que assume a "responsabilidade política" pelo assalto de material de guerra aos paióis de Tancos, que especialistas receiam poder ir parar a mãos de terroristas. Mas, questionado pelo DN sobre se isso significava que Azeredo Lopes colocara o lugar à disposição do primeiro-ministro, a resposta do seu gabinete foi taxativa: "O ministro não está a pôr o lugar à disposição. Não foge às suas responsabilidades."

Certo é que o chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), Rovisco Duarte, anunciou ontem à noite na RTP ter exonerado os comandantes das cinco unidades envolvidas na segurança dos paióis de Tancos: os regimentos de Paraquedistas, de Engenharia e de Infantaria de Tomar, da unidade de apoio da Brigada de reação Imediata (BRI) e da Unidade de Apoio Geral do ramo.

A decisão assentou num "relatório-síntese" do seu gabinete e que o levou a ordenar uma inspeção à segurança dos paióis e três processos de averiguações no domínio da segurança ao local, do sistema de vigilância e à unidade de apoio.

O ministro, à margem da cerimónia dos 65 anos da Força Aérea, afirmou em Castelo Branco: "O simples facto de estar em funções implica uma responsabilidade quotidiana e não é agora que eu me vou escusar a ela. O que chamo a atenção é para a natureza distinta das circunstâncias que envolvem este caso. Pelas circunstâncias pelas quais diretamente eu respondo, procurei esclarecer e procurei explicar."
Sobre outras responsabilidades, Azeredo Lopes, citado pela Lusa, adiantou: "Sem presumir nada, terei de esperar pelas conclusões do inquérito interno."

Já o líder do PSD, antes do afastamento dos cinco comandantes, mostrara espanto por não haver demissões: "Fico espantado por até hoje, na própria hierarquia militar, não ter havido ninguém que tivesse sido exonerado ou colocado o lugar à disposição no caso do roubo de material de guerra, em Tancos, e temos um ministro da Defesa que assume a responsabilidade política, sem que ninguém saiba associar isso a qualquer ação", apontou Pedro Passos Coelho.

Com a casa roubada, as trancas foram postas nas portas, garantiu Azeredo Lopes. "Feliz ou infelizmente, é sempre depois da ocorrência dos factos que nós reforçamos as medidas de proteção e esse reforço (...) foi determinado imediatamente pelas chefias militares" das Forças Armadas. Ou, como sublinhou ao DN o seu gabinete, "a garantia de segurança do local é feita pelo Exército".

O ministro recordou que "foi tomada, desde logo, uma medida já efetivada, de autorização de realização de despesa, bem para cima de 300 mil euros, para reforço e consolidação das vedações que garantiam proteção exterior destes equipamentos. Em segundo lugar, foi inscrita, e isso é demonstrável na lei de programação militar, uma verba de 95 mil euros, para execução em 2017, de um novo sistema de videovigilância".

A esquerda acompanha PSD e CDS no pedido para ouvir o ministro, com todos os partidos a considerarem a situação como muito grave. O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, pediu consequências ao assalto de material militar: "O PCP não pode deixar de considerar o assalto a um paiol militar em Tancos como um caso de extrema gravidade e a necessitar de todo o apuramento, incluindo a retirada de consequências."

Para o BE, a prioridade é ouvir o ministro. "Vamos aguardar tranquilamente a vinda do senhor ministro e aí colocaremos todas as questões", defendeu João Vasconcelos, coordenador do BE na comissão parlamentar de Defesa. E antecipou que tem de ser esclarecido já "que medidas o governo irá tomar e para saber se o sistema de vigilância se encontrava efetivamente avariado".

Quem continua sem comentar o caso é o comandante supremo das Forças Armadas. Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou ontem, em Bruxelas, que "não é o momento ainda de falar", recordando que não comenta questões internas quando está fora do país. "Há momentos e momentos para o Presidente da República e quem escolhe os momentos é o Presidente da República", disse.

FALHAS DE SEGURANÇA NA EUROPA

Armas roubadas nos Comandos e na PSP
Em Portugal, neste ano, ficou a saber-se que tinham desaparecido 57 armas Glock da PSP. As autoridades só se aperceberam de que faltavam armas quando apreenderam uma pistola no Porto. Foi aberto um inquérito que apontava para falhas na "área da supervisão e controlo" e que levou à instauração de processos disciplinares "à cadeia hierárquica do Departamento de Apoio Geral da Direção Nacional da PSP". Em 2011, foram os Comandos a serem assaltados. Dez armas de guerra, entre metralhadoras e pistolas, desapareceram de uma arrecadação do Quartel da Carregueira. Oito soldados acabaram por ser indicados como suspeitos por estarem envolvidos. As armas nunca foram localizadas e as autoridades alertam sempre para o risco de estas entrarem no mercado negro e serem usadas por terroristas.

Base militar americana em Estugarda assaltada
Em 2016, desapareceram armas de um armazém da base militar dos EUA em Estugarda, na Alemanha. Não foram divulgadas a quantidade ou o tipo de armamento, apenas a indicação de que teriam desaparecido pistolas semiautomáticas, uma espingarda automática de pequeno calibre e uma caçadeira. Mas o comando de investigação criminal das forças norte-americanas prometia uma recompensa de dez mil dólares (8754 euros) a quem tivesse pistas sobre o paradeiro das armas ou sobre o roubo. A base militar assaltada é um posto de apoio para unidades de elite como os SEALS e a Força Especial do Exército (os boinas verdes). Em aberto a possibilidade de militares estarem envolvidos no assalto.

Mais de 200 detonadores e granadas desaparecem
Em França, em 2015, foram roubadas de uma base mais de 200 detonadores, granadas e explosivos plásticos. O roubo aconteceu durante a noite, quando França estava já no limite máximo de alerta terrorista. As autoridades acreditavam que um grupo criminoso tinha invadido as instalações de Mirasmas, em Marselha. A vedação foi cortada, segundo a investigação. Nesta base trabalhavam diariamente 160 civis e soldados. O local era vigiado por militares acompanhados de cães e tinha duas vedações.

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