Mesmo quem não usa quer Uber a funcionar - e dentro da lei

Lisboetas e portuenses defendem espaço para plataformas de transportes. Diretor-geral da empresa espera "acordo alargado no Parlamento nas próximas semanas"

É um serviço distinto do que oferecem os táxis, tem um lugar no mercado, deve poder coexistir com a restante oferta e devia ser devidamente regulamentado. Os argumentos que defendem o funcionamento de plataformas tecnológicas para a mobilidade, como a Uber ou a Cabify, são retirados de um estudo levado a cabo pela Eurosondagem, cujos resultados são hoje apresentados, e que mostram como a maioria de lisboetas e portuenses gostava de ver aprovada a lei que chegou à Assembleia a 10 de janeiro de 2017 e está há um ano na gaveta.

"A maioria dos portugueses defende aplicações como a Uber e quer cada vez mais alternativas ao carro próprio", conclui Rui Bento, diretor-geral da empresa para Portugal e Espanha, ao DN. "Temos a expectativa de que nas próximas semanas seja possível chegar a um acordo alargado no Parlamento que coloque Portugal na linha da frente da mobilidade, como este estudo demonstra que é a vontade da esmagadora maioria dos portugueses", acrescenta.

O estudo, encomendado pela Uber, revela que mais de 80% dos moradores de Lisboa e Porto, independentemente de as utilizarem, defendem que a aprovação da lei que permita a plataformas tecnológicas para a mobilidade funcionarem, com mais de dois terços a acreditar que o serviço que estas oferecem é diferente do dos táxis e que devem poder coexistir no mercado. Quanto a quem costuma utilizar este tipo de plataformas, quase todos encontram nelas mais qualidade do que no serviço tradicional de táxi.

"Há uma ausência de regulação para este setor", afirmou já neste mês o secretário de Estado adjunto e do Ambiente, José Mendes, na comissão de Economia, para onde a lei foi remetida, lamentando o facto de estarmos "há quase um ano à espera do desfecho desta matéria". A proposta de lei que determinava o "regime jurídico do transporte em veículo a partir de plataforma eletrónica" foi aprovada em Conselho de Ministros a 22 de dezembro de 2016, tendo dado entrada na Assembleia logo a 10 de janeiro. E depois mais nada aconteceu. Exceto para as plataformas que aguardam a regulamentação, nomeadamente a Uber e a Cabify, que no final do ano passado já acumulavam mais de mil multas, somando um milhão de euros de prejuízo - o que justificou até uma greve durante a Web Summit.

Inovação reforçada

A resolução, porém, pode estar para breve, segundo indicou ainda na semana passada, durante a Mobi Summit, José Mendes. O quadro legislativo para enquadrar a Uber será votado no Parlamento "em fevereiro", adiantou o secretário de Estado, assegurando que haverá espaço para todo o tipo de operadores. E a Autoridade da Concorrência já avisou que a lei "não pode dar vantagem aos táxis".

Enquanto a legislação não sai - e continua a surgir no mercado mais concorrência, como a Chofer e a Taxify, já neste ano -, a Uber tem vindo a afirmar-se, crescendo não apenas em número de utilizadores (a app foi descarregada mais de um milhão de vezes, nestes três anos) ou motoristas ligados à plataforma (ultrapassam os cinco mil), mas também em expansão. Ao portefólio que estreou em Lisboa e Porto juntou uberX, uberGreen e uberXL, além do serviço de entrega de refeições uberEats, no final do ano passado. E depois de se alargar ao Algarve no verão, já neste mês de janeiro chegou a Braga - Cidade Europeia do Desporto em 2018.

"Nos últimos meses reforçámos o nosso compromisso com Portugal e lançámos novos serviços para os utilizadores. A expansão para a cidade de Braga reforça a operação da Uber em território nacional, trazendo consigo também mais oportunidades económicas para os mais de cinco mil motoristas que viajam com a aplicação nas cidades portuguesas", justifica ao DN Rui Bento. Assim, "a Uber já cobre mais de 50% da população portuguesa, trata-se da maior cobertura do serviço no Sul da Europa", conclui o diretor-geral da empresa para a Ibéria.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

Pode a clubite tramar um hacker?

O hacker português é provavelmente uma história à portuguesa. Rapaz esperto, licenciado em História e especialista em informática, provavelmente coca-bichinhos, tudo indica, toupeira da internet, fã de futebol, terá descoberto que todos os estes interesses davam uma mistura explosiva, quando combinados. Pôs-se a investigar sites, e-mails de fundos de jogadores, de jogadores, de clubes de jogadores, de agentes de jogadores e de muitas entidades ligadas a esse estranho e grande mundo do futebol.

Premium

Opinião

"Orrrderrr!", começou a campanha europeia

Através do YouTube, faz grande sucesso entre nós um florilégio de gritos de John Bercow - vocês sabem, o speaker do Parlamento britânico. O grito dele é só um, em crescendo, "order, orrderr, ORRRDERRR!", e essa palavra quer dizer o que parece. Aquele "ordem!" proclamada pelo presidente da Câmara dos Comuns demonstra a falta de autoridade de toda a gente vulgar que hoje se senta no Parlamento que iniciou a democracia na velha Europa. Ora, se o grito de Bercow diz muito mais do que parece, o nosso interesse por ele, através do YouTube, diz mais de nós do que de Bercow. E, acreditem, tudo isto tem que ver com a nossa vida, até com a vidinha, e com o mundo em que vivemos.

Premium

Marisa Matias

Mulheres

Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Ser ou não ser, eis a questão

De facto, desde o famoso "to be, or not to be" de Shakespeare que não se assistia a tão intenso dilema britânico. A confirmação do desacordo do Brexit e o chumbo da moção de censura a May agudizaram a imprevisibilidade do modo como o Reino Unido acordará desse mesmo desacordo. Uma das causas do Brexit terá sido certamente a corrente nacionalista, de base populista, com a qual a Europa em geral se debate. Mas não é a única causa. Como deverá a restante Europa reagir? Em primeiro lugar, com calma e serenidade. Em seguida, com muita atenção, pois invariavelmente o único ganho do erro resulta do que aprendemos com o mesmo. Imperativo é também que aprendamos a aprender em conjunto.