Medo e adrenalina dominam "mundo" da "família" dos forcados

Temporada tauromáquica em Portugal arranca no dia 1 de fevereiro. Em 2017, ficou marcada pelas mortes dos forcados Pedro Miguel Primo, de 25 anos, dos amadores de Cuba, e Fernando Quintela, de 26, dos amadores de Alcochete

O desafio de vencer o medo e "viver" uma "boa dose" de adrenalina é um dos fatores que leva um jovem a ingressar num grupo de forcados, formação que desenvolve uma atividade que extravasa os dias de corrida.

Este é também o espírito que guia o Grupo de Forcados Amadores de Arronches (Portalegre), um dos mais de 40 grupos de forcados existentes em Portugal, dias antes da abertura da temporada tauromáquica, a 1 de fevereiro, em Mourão (Évora).

"Ser cabo (homem que dirige o grupo de forcados) é desempenhar a função 24 horas por dia, durante o ano todo. Nós temos de ser cabos dentro e fora de praça, pois há miúdos que têm problemas em casa e nós temos de os acompanhar em tudo", explica à agência Lusa o cabo dos amadores de Arronches, Manuel Cardoso.

No período de defeso, época em que não há corridas de touros (entre 01 de novembro e 31 de janeiro), os grupos de forcados promovem convívios, mas também treinos com gado bravo, pelo menos até ao mês de abril, para aperfeiçoar a técnica, corrigir erros e acolher novos elementos.

"Um treino serve essencialmente para os mais velhos aperfeiçoarem as suas técnicas e, aos mais novos, para adquirirem novas técnicas. E também serve para a rapaziada nova querer integrar um grupo de forcados que tem um ambiente de família", explica.

Num treino a que a Lusa assistiu, em Portalegre, o cabo dos amadores de Arronches falou aos seus "pupilos" das primeiras corridas de toiros em que vão participar e, olhando para o gado bravo que enfrentavam, deu indicações de como se recua na cara de um animal e como deve ocorrer a reunião (momento do contacto), entre outros pormenores que compõem uma pega de caras, que conta com oito elementos em praça.

Mais antigo na função, Ricardo Porto Nunes recorda que foi forcado do grupo de Arronches desde a sua fundação, em 1999, e desempenhou o papel de cabo entre 2006 e 2015, ano em que Manuel Cardoso "agarrou" o grupo, tendo ficado para si a "lição" de que o "mundo dos forcados" é "uma escola de vida" e uma "segunda família".

"É tudo uma adrenalina, é toda uma experiência, pormo-nos à prova. Acima de tudo gostamos muito de nos pôr à prova como homens que somos e tentarmos testar os nossos limites. E é com medo que nos pomos lá diante. Isto é tão bonito, tão bonito, que até quando corre bem magoa", ironiza.

Entre os mais jovens, a opinião é partilhada por Gabriel Pimenta, de 17 anos, que optou por entrar para os forcados de Arronches, em 2017, pela "ambição" de pegar touros e pela "alegria" de enfrentar o medo com os amigos, que, após as corridas, recebem um "cachet" que serve apenas para pagar os jantares da "rapaziada".

Mas, os dias nem sempre são de festa e a temporada tauromáquica de 2017 ficou marcada pelas mortes, ocorridas em setembro, dos forcados Pedro Miguel Primo, de 25 anos, dos amadores de Cuba, e Fernando Quintela, de 26, dos amadores de Alcochete, na sequência de colhidas em corridas de toiros realizadas, respetivamente, em Cuba (Beja) e Moita do Ribatejo (Setúbal).

O grupo de Arronches também 'sofreu na pele' com a grave colhida de um forcado, no ano passado, numa corrida de touros em França, tendo o jovem passado por diversos hospitais e sido, posteriormente, detetada uma grave lesão no fígado.

"O Vasco Mouzinho esteve quase a falecer, mas graças a Deus está cá connosco e o espírito de grupo não foi abaixo. No caso do Fernando e do Pedro, claro que todos os grupos sentem. Eu, como cabo, também senti", lamenta Manuel Cardoso.

Já Gabriel Pimenta, de uma forma mais pragmática, observa que estas situações "acontecem a todos", reconhecendo que os forcados sabem "com o que estão a lidar".

A temporada tauromáquica em Portugal arranca no dia 1 de fevereiro, em Mourão, no distrito de Évora, com a realização de um festejo taurino que reúne jovens figuras do toureio de Portugal, Espanha e França.

Inserida nas tradicionais festas em honra de Nossa Senhora das Candeias, a iniciativa vai reunir em praça, a partir das 15:00, os cavaleiros Francisco Palha e David Gomes, cabendo as pegas aos forcados amadores de Santarém.

Na parte apeada, vão estar em praça o matador francês Juan Leal, o novilheiro português João D'Alva, o recente triunfador da oportunidade aos jovens na praça de touros de Vistalegre em Madrid (Espanha), Manuel Perera, e o jovem Luís Silva, sendo lidados exemplares da divisa de Calejo Pires.

De acordo com dados divulgados pela Inspeção Geral das Atividades Culturais (IGAC), no seu sítio da Internet, foram realizados 181 espetáculos tauromáquicos, no ano passado, em Portugal e registado, entre 2016 e 2017, um aumento de 15.895 espetadores, o que representa um acréscimo de 4,39%, situação que não ocorria desde 2010.

A temporada tauromáquica abre todos os anos no dia 1 de fevereiro em Mourão e, na maioria das ocasiões, encerra a 1 de novembro com um espetáculo no Cartaxo, no distrito de Santarém.

Ler mais

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.