Marcelo vence, mas aumenta hipótese de segunda volta

Antigo líder do PSD consegue 52%, um pouco mais do que precisa para ser Presidente já no próximo domingo.

Marcelo Rebelo de Sousa ainda venceria as eleições presidenciais à primeira volta se elas se realizassem neste momento, com 52% das intenções de voto, logo seguido de Sampaio da Nóvoa, com 22%. Este resultado faz aumentar a probabilidade de uma segunda volta, segundo a sondagem da Universidade Católica para o Diário de Notícias, Jornal de Notícias, Antena 1 e RTP.

O antigo líder do PSD deu assim uma queda de 10 pontos percentuais em relação ao resultado que tinha obtido no barómetro da Católica em dezembro ainda antes da campanha eleitoral. Ao invés, o ex-reitor sobe sete pontos percentuais.

Marcelo precisa de ficar acima de 50% dos votos para ser eleito à primeira volta e os dois pontos que tem a mais nesta sondagem estão na margem de erro, que é de 1,7%.

Quem dá um violento trambolhão é Maria de Belém, que passou de 14% das intenções de voto antes da campanha para os 8%. Esta queda não é ainda explicada pela polémica que se viu envolvida esta semana depois de se saber que foi uma das subscritoras do pedido de inconstitucionalidade do corte das subsvenções vitalícias. Os dados da sondagem foram recolhidos no passado fim de semana e portanto antes de se ter tornado público que a ex-presidente do PS é favorável a esse privilégio atribuídos aos deputados até 2005. O mau resultado só se poderá justificar pela própria dinâmica da sua campanha no terreno.

Marisa Matias é que tem tirado forte proveito da campanha eleitoral pelo país e até dos debates televisivos, que decorreram antes da recolha dos dados. A candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda chega aos 8% - a mesma percentagem de Maria de Belém -, o que representa mais cinco pontos percentuais em relação ao barómetro de dezembro. Edgar Silva, o candidato do PCP, é que não sofreu qualquer oscilação nas intenções de voto e manteve-se nos 3%.

Outro candidato que parece ter beneficiado dos debates televisivos e da campanha é Paulo Morais. O antigo vice-presidente da Câmara do Porto, que tem empunhado a a bandeira do combate à corrupção consegue atingir os 3%, mais dois do que na sondagem anterior, e passa à frente de Henrique Neto, que se mantém apenas com 1% das intenções de voto.

Henrique Neto é também ultrapassado por Vitorino Silva, vulgo Tino de Rans, que obtém 2% nas intenções de voto. Este candidato não tem ponto de comparação relativamente ao anterior barómetro, visto que quando em dezembro foi realizado ainda não tinha formalizado a sua candidatura a Belém.

Os outros dois candidatos que também entregaram as assinaturas mais tarde no Tribunal Constitucional, Jorge Sequeira e Cândido Ferreira, não conseguem atingir o 1% nas intenções de voto.

Os resultados da sondagem não permitem prever o valor da abstenção, que costuma ser bastante alto nas eleições presidenciais e pode contribuir para uma segunda volta.

Ficha técnica

Esta sondagem foi realizada pelo CESOP-Universidade Católica Portuguesa para a Antena 1, a RTP, o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias nos dias 16 e 17 de janeiro de 2016. O universo alvo é composto pelos indivíduos com 18 ou mais anos recenseados eleitoralmente e residentes em Portugal Continental. Foram selecionadas aleatoriamente quarenta e cinco freguesias do país, tendo em conta a distribuição dos eleitores por distritos. A selecção aleatória das freguesias foi sistematicamente repetida até os resultados eleitorais das eleições anteriores nesse conjunto de freguesias (ponderado o peso eleitoral dos seus distritos de pertença) estivessem a menos de 1% dos resultados nacionais das quatro candidaturas mais votados. Os domicílios em cada freguesia foram seleccionados por caminho aleatório e foi inquirido em cada domicílio o próximo aniversariante recenseado eleitoralmente. Foram obtidos 3340 inquéritos válidos, sendo 58% dos inquiridos mulheres, 24% da região Norte, 20% do Centro, 37% de Lisboa, 12% do Alentejo e 8% do Algarve. Todos os resultados obtidos foram depois ponderados de acordo com a distribuição de eleitores residentes no Continente por sexo e escalões etários e região na base dos dados do recenseamento eleitoral e das estimativas do INE. A taxa de resposta foi de 68%*. A margem de erro máximo associado a uma amostra aleatória de 3340 inquiridos é de 1,7%, com um nível de confiança de 95%.

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