"Há polícias racistas e xenófobos e as organizações nada fazem"

O julgamento de 17 agentes da PSP de Alfragide, acusados de tortura e racismo na Cova da Moura, arranca esta terça-feira. O DN entrevistou Manuel Morais, agente da PSP, que confirmou como os "preconceitos perturbam o olhar e a ação dos profissionais da Polícia", numa tese de mestrado sobre o policiamento nas zonas urbanas sensíveis

Manuel Morais é agente principal do Corpo de Intervenção da PSP, licenciado em Antropologia e ea terminar um mestrado sobre a ação policial nas zonas urbanas sensíveis. Corajosamente, revelou ao DN as mais preocupantes conclusões a que chegou na sua investigação académica. Nasceu a 25 de abril, de 1965, em Melgaço e foi pastor em criança. Fez patrulhas no Casal Ventoso onde "quase" perdeu "a alma". Criou, com o ex-ministro da Administração Interna, Rui Pereira, a associação "100 violência", para prevenir os maus-tratos a crianças.

Qual o objetivo desta sua tese?
O objetivo do meu trabalho, além da realização do meu mestrado, é tentar melhorar a organização a que pertenço e em consequência a sociedade. Pretendo uma polícia mais social, mais interativa e mais próxima do cidadão, que seja um catalisador para uma sociedade mais cívica e cada vez mais inclusiva e mais humanizada.

Em que bairros centrou a sua pesquisa?
Os meus entrevistados são principalmente residentes dos bairros dos Chícharos ("Jamaica"), Arrentela e Quinta da Princesa, considerados problemáticos ou sensíveis.

A que conclusões chegou?
Quando se faz um trabalho académico seria pretensioso tirar conclusões, estas devem ser resultado de vários trabalhos científicos. No máximo tirei algumas ilações sobre os preconceitos que perturbam a meu ver o olhar e as ações dos profissionais de polícia sobre os jovens dos bairros sensíveis ou periféricos.


Porque pensa que isso acontece?
Dois motivos: o facto de os polícias provirem duma sociedade preconceituosa e não encontrarem nos ensinamentos profissionais forma de desconstruir esses preconceitos.


O que deveria ser feito para alterar esta situação? No recrutamento? No tipo de formação dada?
Mudar mentalidades é com certeza um feito difícil e moroso, no entanto não devemos esmorecer e é uma obrigação fazer tudo o que está ao nosso alcance para talhar esta doença social. Tenho esperança de poder contribuir com o meu trabalho para que se alterem os programas das duas escolas de polícia, a Escola Prática de Polícia, onde são formados os agentes, e o Instituto Superior de Ciências Policiais e de Segurança Interna, onde se licenciam os oficiais, no sentido de desconstruir este tipo de preconceitos, (étnicos, religiosos, de género...)

Qual tem sido o papel da Inspeção--Geral da Administração Interna?
Sinceramente não me parece que a IGAI tenha qualquer papel neste particular. Mas sim, deveria ter. Este trabalho não passa por medidas disciplinares mas por ensinamentos por acréscimo de formação direcionada e ministrada por especialistas da área de competência comprovada e sobretudo ter um responsável ao mais alto nível só para esta área.


Mas como se poderia, na prática, prevenir estes comportamentos?
Os agentes de autoridade deveriam ser sempre alvos de uma seleção apertada no que concerne o respeito e as ideias que tem sobre o "outro". Qualquer indício de racismo ou xenofobia deveria ter efeito de exclusão imediata do candidato. É neste particular que a IGAI poderia fazer a diferença, na fiscalização do tipo de testes e no tipo de perfis adequados para agente da autoridade. Há elementos das várias forças de segurança que exteriorizam as suas ideias racistas e xenófobas, usam tatuagens e simbologias "neonazis", pertencem a grupos assumidamente racistas, isto é do conhecimento de todos e infelizmente as organizações nada fazem para expurgar estes "tumores do seio das forças de segurança. Pergunte-se à IGAI, à PSP, à GNR, à Guarda Prisional ou a qualquer outra força, o que fazem quando são detetadas estas situações? Nada, não fazem nada.

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