Ministro da Educação quis travar nomeações do secretário de Estado

Segunda demissão no Governo em quatro dias. Agora, na Educação. Secretário de Estado cansou-se de supostas interferências

Para as 18.00 de hoje, depois do plenário, está agendada a audição do ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, na respetiva comissão parlamentar.

A reunião já estava marcada há algum tempo e o tema em agenda, a requerimento do PSD, são as provas de aferição decididas pelo ministro para todos os ciclos do ensino básico. Mas entretanto surgiu o caso da demissão do seu secretário de Estado da Juventude e Deporto, João Wengorovius Meneses, e o mais natural é que o ministro tenha de enfrentar perguntas também nesse domínio.

João Wengorovius Meneses demitiu-se devido supostamente a um crescendo de intervenção do ministro no seu gabinete, nomeadamente através da tentativa de exoneração de uma sua adjunta. Ao secretário de Estado demissionário foi ainda atribuído um chefe de gabinete, Nuno Félix, que o terá sujeito a situações de exposição pública que não estava à espera e que muito o contrariaram. Tanto que tentou demiti-lo - só que o ministro não o permitiu. Tiago Brandão Rodrigues também estaria a tentar interferir em nomeações do secretário de Estado para institutos na sua dependência, o IPDJ (Instituto Português do Desporto e da Juventude) e a Movijovem (que gere as pousadas de juventude).

A demissão foi anunciada na terça-feira à noite através de uma nota colocada no site da Presidência da República dando conta da tomada de posse, hoje, do seu sucessor - o deputado do PS de Viseu João Paulo Rebelo - conjuntamente com a nova equipa da Cultura.

Depois o próprio confirmou-a com uma nota no Facebook em que assumiu "o seu profundo desacordo com o sr. ministro da Educação no que diz respeito à política para a juventude e o desporto, e ao modo de estar no exercício de cargos públicos".

Na mesma rede social, uma sua adjunta, Joana Branco Lopes, desabafou: "É tempo de arrumar a trouxa, com o sentimento de que dei tudo à causa pública a que fui chamada, com a máxima lealdade, dedicação e competência, apesar do bullying político constante."

A Joana Branco Lopes o ministro terá dado ordens diretas proibindo-a de representar a secretaria de Estado em reuniões.

Ontem, Tiago Brandão Rodrigues comentou a situação, desejando "boa sorte ao Dr. Meneses". "Como sabem, o programa do governo na área das políticas da juventude e das políticas do desporto é muito completo, é também muito exigente e estou certo de que o Dr. João Paulo Rebelo, o novo secretário de Estado da Juventude e Desporto, trará uma boa dinâmica à secretaria de Estado e trará também à equipa do Ministério da Educação valências importantes para cumprir o programa do governo."

Em nome do governo, o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos, veio entretanto desvalorizar a situação. "Todas essas situações estão resolvidas. E se há coisa que caracteriza este governo é a rapidez com que resolve as situações. Precisamos de encarar com normalidade estas questões que são do dia-a-dia da governação", afirmou à Antena 1.

Para o PSD, tanto o ministro da Educação como o secretário de Estado demissionário têm de "vir a terreiro" explicar o que se passou.

"Cabe-nos a nós, em primeira linha, grupo parlamentar do PSD, exigir por parte do ministro e do ex--secretário de Estado que venham a terreiro, urgentemente, clarificar o que quis dizer com estas declarações e fazer perceber ao Parlamento e ao país qual a estratégia que querem seguir para a área da juventude e do desporto em Portugal", disse o deputado Simão Ribeiro, presidente da JSD.

Uma iniciativa nesse sentido teria de ser viabilizada pela maioria de esquerda. O PS não parece muito interessado em permitir que Wengorovius Meneses vá à Assembleia da República e o próprio pode, mesmo que convocado, recusar depor. Parece ser essa a sua disposição atual - a não ser que se sinta atacado pelo aparelho do Partido Socialista.

Wengorovius Meneses, 41 anos, licenciado em Gestão pela Católica, foi recrutado para o governo vindo da Câmara Municipal de Lisboa. Coordenou a Intervenção Prioritária na Mouraria e foi diretor executivo do Mouraria Creative Hub. Em 2014 apoiou a criação de uma sala de chuto no Martim Moniz. É sobrinho do advogado Vítor Wengorovius (1937-2005), fundador em 1974 do MES (Movimento de Esquerda Socialista), partido de onde saíram para o PS personalidades como Jorge Sampaio ou Eduardo Ferro Rodrigues.

O seu sucessor, o deputado do PS João Paulo Rebelo, eleito pelo círculo eleitoral de Viseu, já havia estado ligado à área da Juventude, nos tempos de José Sócrates, nomeadamente como gestor da Movijovem.

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