Editores dizem estar 10 anos à frente do Estado nos recursos educativos digitais

Aprovada alteração à lei que aponta para substituição de recursos em papel pelos formatos digitais. Ministério assume que é um objetivo "a médio prazo". Porto Editora defende ter uma década de avanço

Se o governo avançasse por conta própria no desenvolvimento de recursos educativos digitais, em alternativa aos manuais e outros materiais educativos em papel, "teríamos de esperar 10 anos" até que surgissem soluções "do género" das que as editoras já têm disponíveis. Quem o diz é Paulo Gonçalves, porta-voz da Porto Editora, a propósito de uma alteração legislativa que aponta para a "desmaterialização de manuais e outros manuais escolares".

A lei 72/2017, publicada ontem em Diário da República - que vem alterar o regime jurídico de adoção e certificação dos manuais -, tem como única novidade o "fomento, desenvolvimento e generalização da desmaterialização dos diversos recursos educativos". A medida resulta de uma proposta do Partido Ecologista Os Verdes (PEV), aprovada em abril e justificada com a preservação de recursos naturais, o preço dos manuais e o peso excessivo transportado pelos alunos nas mochilas escolares.

Apesar de estar em causa uma redução do recurso a materiais em papel, Paulo Gonçalves garante que o assunto o não assusta os editores, já que estes - "e em particular a Porto Editora" - estão preparados para esta evolução. "Se fosse dito que, de hoje para amanhã,só se utilizariam recursos digitais, nenhum professor, nenhum pai, nenhum aluno poderia ficar preocupado em dizer não há. De facto há", garante. Mas o esforço, defende, tem sido feito sobretudo pelos privados. "São recursos digitais desenvolvidos única e exclusivamente pelo investimento dos editores, com zero investimento público".

O Ministério da Educação também disponibiliza recursos multimédia online, mas o porta-voz da Porto Editora considera ser claro para que lado pendem as preferências de professores e alunos: "Aquilo que se usa nas escolas, em muitas situações, é oferecido pelos editores. Em termos de recursos digitais aquilo q ue se usa em contexto de sala de aula, na esmagadora maioria dos casos, só possível graças à oferta pelos editores".

Uma preferência que diz ser explicada pela experiência acumulada: "para todos os efeitos, é um trabalho editorial. Para chegarmos à qualidade que apresentamos, é preciso recordar, começámos a trabalhar na década de 1990". "São muitos anos de trabalho feito anualmente para termos os recursos humanos e as competências que fazem este trabalho".

Ainda assim, diz, a Porto Editora "não está preocupada" com eventuais parcerias com o governo. "A nossa preocupação é dar respostas aos alunos e professores".

Objetivo "a médio prazo"

Ao DN, o Ministério da Educação assume que "a desmaterialização dos manuais escolares é uma medida legislativa para levar a cabo a médio prazo. A desmaterialização obriga a tirar o melhor partido do que o digital tem pelo que será necessário avaliar capacidades de resposta e de condições físicas e materiais, como avaliar os equipamentos necessários e os custos envolvidos", explica o gabinete de Tiago Brandão Rodrigues.

No entanto, acrescenta já há projetos editoriais com boas práticas a ter em conta, como a utilização de códigos QR, que têm provado ser de grande sucesso". E, diz ainda, existem "várias iniciativas relacionadas com a literacia digital" em programas públicos, nomeadamente através do Plano Nacional de leitura e da Rede de Bibliotecas Escolares.

O Ministério refere ainda o seu apoio a projetos digitais "como como a Khan Academy ou os projetos da sala de aulas invertida, que assentam na lógica da desmaterialização". Quanto ao recurso a manuais digitais, refere "o projeto MANEELE, de utilização de formato digital de manuais em escolas de Cuba, no Alentejo, acompanhado pela Direção-Geral de Educação".

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