D. Duarte: "Para muitos espanhóis não faz sentido a independência de Portugal"

D. Duarte desconfia do país vizinho e o filho, D. Afonso, na sua primeira entrevista, defende um referendo sobre o regime

Antes de dar início à entrevista, D. Duarte critica a atuação recorrente dos partidos: "Qualquer dona de casa sabe que se gastar o que não tem acaba mal e vemos que os constantes primeiros-ministros não percebem ou não querem entender isso. É uma síndrome republicana resolver os problemas até às próximas eleições e que a população esteja contente." Ao seu lado está o sucessor, o infante D. Afonso, que fez as primeiras declarações públicas nesse estatuto neste encontro (no final).

Entrevista a D. Duarte

Para muitos espanhóis não faz sentido a independência de Portugal

Estão a aumentar os simpatizantes dos valores monárquicos?

Esse é um número difícil de avaliar, mas os valores dizem que há 30% de pessoas que acham que um rei era melhor que um Presidente e 70% considera que o Estado português deve reconhecer a família real e dar-lhe um lugar oficial. Ou seja, são simpatizantes mesmo que não sejam monárquicos. Por outro lado, diria que não há assim tantos republicanos convictos e muitos dos que existem são por razões que não têm base política mas afetiva ou familiar. Outro número a ter em conta é que os inscritos nas reais associações tem aumentado.

Há quem defenda núcleos monárquicos nos partidos. Concorda?

Sim, lembro-me até que nos anos 1980 havia um núcleo monárquico no PS. É óbvio que há mais tendência para os monárquicos escolherem partidos conservadores do que os de esquerda, embora o grupo de Gonçalo Ribeiro Teles fosse considerado de esquerda.

O Partido Popular Monárquico foi um erro?

Não posso dizer que seja um erro, pois às pessoas que são monárquicas assiste o direito a terem um partido, mas benéfico não é porque muita gente identifica o movimento monárquico com o PPM e não se percebe da exata alternativa monárquica à republicana.

Os simpatizantes da monarquia votam no PPM?

A maior parte vota noutros partidos.

Que modelo de monarquia atual seria melhor para Portugal na sua opinião?

O modelo excelente tem sido o da Bélgica. Em crises governamentais o rei nomeia governos e tem funcionado bem.

A questão do referendo para a restauração da monarquia é uma luta dos monárquicos. Há condições?

Depende do espírito democrático dos deputados. Há os que consideram que não se deve fazer essa pergunta ao povo porque a resposta pode sair errada e não a irão aceitar. No entanto, já houve uma maioria de deputados favoráveis há uns anos que não conseguiram os dois terços necessários. A Constituição proíbe sair da forma republicana de governo, mesmo que o professor Jorge Miranda não concorde com isso.

O que diria a União Europeia se houvesse referendo sobre a monarquia?

Muitos países da UE são monarquias e até dos mais europeístas. Porquê? Os meus primos da Bélgica e do Luxemburgo não têm reticências à União - mesmo que eu tenha . Sentem que mesmo que o país perca parte da sua independência política como mantêm a sua monarquia não perderão identidade. Acho que a União não deve exagerar na centralização, pois pode criar reações negativas por parte das populações.

Por isso foi contra o euro?

Defendi que a entrada no euro foi má para a economia portuguesa. Sair? Não se deve dramatizar excessivamente, antes analisar as alternativas.

Quando se o ouve a dizer isso parece sintonizado com o Bloco de Esquerda!

Há muitos aspetos em que o PCP e o Bloco de Esquerda têm razão. Mais nas preocupações do que nas soluções que propõem, embora o PCP tenha mostrado muito boas soluções no que tem proposto. Só que há um espírito clubista que não permite aos grandes partidos aproveitar as boas propostas.

Se fosse rei aceitaria uma geringonça?

Os reis europeus nunca tomam uma posição pública que possa contrariar a dos políticos, só o fazem em particular para encontrar bons compromissos. Nem tenho memória de um rei derrubar um governo, como aconteceu em Portugal, ainda por cima maioritário.

Quanto à geringonça...

Tem aspetos muito positivos, como o de conseguir que partidos que nem sempre se deram bem sejam capazes de viabilizar um governo. O que é perigoso é não aproveitarem a situação para diminuir a dívida, por exemplo.

Já o disse ao primeiro-ministro?

Não, só nos temos encontrado em ocasiões públicas. Mas gostava de falar com ele sobre o assunto.

Os monárquicos estão em vários partidos. A que se deve essa integração?

Porque existem deputados socialistas que são monárquicos. No PCP, nunca ouvi nenhum abertamente monárquico mas há muitos simpatizantes. Basta ver como nos recebem bem.

Acompanha a crise na Catalunha?

Nós, portugueses, podemos fazer muito pouco. No entanto, devíamos preparar-nos para as várias possibilidades deste processo no futuro, mesmo que para os portugueses seja indiferente.

Quase todos os seus antecessores tiveram de se defender de Castela. Qual é a sua posição sobre a nossa integridade?

Prefiro não falar nisso para não ofender todos os meus amigos espanhóis, a começar pelos meus primos. Diria que Juan Carlos e Felipe têm conseguido manter a estabilidade e unidade.

Franco, no entanto, fez uma tese sobre a invasão de Portugal em 24 horas...

Saiu um artigo numa revista em França que relata esse projeto de invasão de Portugal e porque não foi para a frente. Salazar demonstrou a Franco que os EUA iriam entrar na II Guerra Mundial e o seu potencial levaria à derrota da Alemanha. Portanto, Espanha não deveria ficar do lado dos derrotados. Essa é uma razão, há outra: os espanhóis não sabiam qual a reação dos portugueses e como lhes tinham corrido mal as anexações de territórios em Marrocos... Para muitos espanhóis não faz sentido a independência de Portugal, mesmo que sejam muito amigos do nosso país e ótimas pessoas. Recordaria que um político português perguntou a Juan Carlos se não achava que era hora de pensar a União Ibérica e a resposta foi que estava mais preocupado com a união espanhola.

Está em perigo neste momento?

Sim, mas se tivesse havido consulta popular, o resultado seria maioritariamente a favor da união com a Espanha.

Juan Carlos faria o mesmo discurso que o rei Felipe sobre a questão catalã?

Provavelmente teria evitado tomar uma posição pública.

Como viu a passagem de testemunho?

Para o príncipe Felipe teria sido preferível ter tido mais um tempo de liberdade antes de assumir responsabilidades, mas o estado de saúde de Juan Carlos levaram Felipe a assumir o cargo.

Ficou chocado com a destruição do Pinhal de Leiria?

Foi uma dor de alma deixar arder uma floresta que tem 800 anos só porque não tem sido bem cuidada.

Dá atenção ao ambiente. Como viu Trump rasgar o Acordo de Paris?

Estou convencido que a sua base de apoio é muito empresarial e não gostam da política ambiental de Obama - melhor que a atual. É um problema tipicamente republicano, o de satisfazer quem apoiou a sua candidatura.

Foi visto em programas de TV mais leves ...

... Foi divertido. A maior parte dos monárquicos que consultei não queriam que fosse - estavam preocupados -, mas a minha experiência é de que me dou bem nos programas. Estou à vontade e os entrevistadores são amáveis.

Não acatou as opiniões mas também foi sempre rebelde, até fez uma greve de fome no Colégio Militar.

Foi uma iniciativa conjunta devido a uma injustiça feita a um aluno. Uma experiência interessante, porque ser adolescente é o máximo da aventura.

Já teve dessas "experiências interessantes" de rebeldia com os seus filhos?

Muitas vezes estão em desacordo comigo mas conversamos e chegamos a uma conclusão. Claro que é mais fácil com homens do que raparigas, elas são por norma mais emocionais. Mas as mulheres políticas são muito melhores que os homens, pois quase sempre têm uma visão menos setorial da realidade e são menos agressivas.

Algum dos seus filhos renega o ideal monárquico?

Não, os meus filhos são inteligentes.

Entrevista a D. Afonso

Os portugueses devem ter direito a escolher o regime

É partidário da realização do referendo para a restauração da monarquia?

Claro que sou, Portugal é uma democracia. O que não se percebe é ser uma democracia limitada como a nossa, quer na Constituição, nos direitos e na imposição das suas leis. Numa democracia não se deve ter medo da mudança e da opinião dos cidadãos. Os portugueses devem ter o direito de escolher o regime, quer seja monárquico ou republicano.

Da sua convivência com outros jovens, que futuro teria um regime monárquico em Portugal?

Conheço e tenho muitos amigos da minha idade, tanto monárquicos, como republicanos ou "neutrais". Não costumamos falar muito sobre o tema de monarquia vs. república, mas tenho reparado cada vez mais que a minha geração e futuras gerações criticam e se queixam da forma de liderar o país, afirmando que existem formas melhores para Portugal e que é necessário possuir valores mais sólidos. Muitos me perguntam, uns em tom de brincadeira, outros não: "Quando é que sobes ao poder para resolver isto tudo?", "Quando é que se impõe uma monarquia?", ao que respondo: "Quando for altura e o povo português achar correto."

Sente-se respeitado enquanto representante da instituição real ou essa sua qualidade não é tida em conta?

Não é algo com que me costume importar. Sempre fui bem recebido, tanto com os meus pais e família. É normal virem ter comigo e perguntarem-me coisas sobre mim ou sobre a família. Sinto que existe esse respeito, mesmo que por vezes ache em excesso. Um respeito mútuo é saudável e o meu papel influencia um pouco, mas isso não me sobe à cabeça.

Como está a preparar-se para suceder ao seu pai?

Atualmente pratico uma sólida formação académica, mas também adquiro alguma experiência e valores através dos meus pais. Acompanho a família em várias cerimónias em Portugal e no estrangeiro. Tenho consciência de que essas experiências servem para melhor me preparar para desenvolver o papel que me espera desde muito cedo.

Frequenta um curso de Ciência Política. É o mais ajustado?

Acho que sim. Acho que o curso me pode fornecer forte preparação para uma vida futura, tanto política como numa cultura geral muito abrangente

Tem votado nas eleições?

Acho que um rei não se deve meter na política e, atualmente, participo e voto sempre que posso. Faço uma exceção nas presidenciais, é mais coerente.

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