Criminalidade violenta baixa, mas extorsão na net dispara

Em 2016 a criminalidade geral e a violenta descem, com menos 6,5% e menos 10,5%, respetivamente, segundo o balanço do 3º trimestre do ano apresentado no Gabinete Coordenador de Segurança

Extorsões, a maioria através da net, e burlas informáticas são os crimes que registaram maiores aumentos este ano, com crescimentos da ordem dos 70 e 20 por cento, respetivamente. A criminalidade geral está em queda, com menos 6,5%, e a violenta ainda mais, com menos 10,5% de casos. Os dados estão registados no relatório de análise das criminalidade participada até ao terceiro trimestre de 2016 que foi discutido, no início do mês, pelos chefes máximos das polícias, no Gabinete Coordenador de Segurança (GCS).

Entre janeiro e setembro a criminalidade voltou a alinhar na curva descendente que vigorava desde 2008 e apenas tinha sido interrompida em 2015, com um aumento de 1,3% da criminalidade geral.
Os dados apresentados aos diretores e comandantes das forças e serviços de segurança pela secretária-geral do Sistema de Segurança Interna (SSI), Helena Fazenda, são ainda provisórios e estão ainda sujeitos a algumas retificações, explicou ao DN uma fonte que acompanhou o encontro, mas revelam já quais vão ser os números fortes do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), que deverá estar concluído em abril de 2017.

Boas notícias são a descida de alguns crimes que causam grande sentimento de insegurança na sociedade, como por exemplo os roubos com violência na via publica, com e sem esticão, de viaturas e a residências (em média todos menos 15%), mas também os roubos a farmácias (menos 60%) e os raptos e sequestros (menos 6%). A maior presença das polícias nas ruas, mais vezes com equipamento e armamento mais pesado, na sequência do reforço da segurança em alguns pontos mais críticos, com maior aglomeração de pessoas, terá sido uma das justificações avançadas no GCS, para esta redução, principalmente os assaltos na rua, que mesmo assim ainda ultrapassaram os oito mil casos (em média 30 por dia) só nestes primeiros nove meses de 2016.

Com as prisões sobrelotadas de criminosos mais violentos - os últimos números apontam para uma taxa de 110%, com algumas com o dobro da capacidade de reclusos - as polícias confrontam-se com novas tendências criminais que deixam de ter a rua, edifícios, bancos, lojas, como palco. Este ano a internet volta a assumir protagonismo como espaço privilegiado dos criminosos: na extorsão, principalmente a sexual (sextortion) e nos crimes informáticos, como os acessos ilegítimos, a sabotagem, a devassa, mas principalmente as burlas, que tiveram 6 800 participações neste período (mais 1 200 que em igual período de 2015). A chantagem, por seu lado, registou 360 participações (mais 150 que em 2015).

"A criminalidade através da internet exige muita especificidade de investigação, devido à sua transnacionalidade e a grande dificuldade de recolha de prova", sublinha o diretor da Unidade de Combate à Cibercriminalidade da PJ. Esta nova unidade (UNC3T), foi anunciada em 2012 para fazer face ao aumento deste tipo de crimes, que tinha dado os primeiros sinais com a pornografia de menores e a pedofilia, e atingiram uma subida de 41% em 2015. Mas só este ano foi formalizada em Diário da República, sem que ainda tenha sido publicado o seu regulamento e ainda com falta de recursos humanos especializados no cyberespaço.

O presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), António Nunes, lamenta que Portugal esteja "muito atrasado" em relação ao meios de combate a esta criminalidade que cada vez mais se vai impor nas sociedades modernas. "O cibercrime e todos os crimes que têm a web como palco, obrigam a que as nossas polícias, em especial a PJ, e os serviços de informações criem unidades altamente especializadas e exige um tipo de recrutamento de agentes, de "cyberpolícias", que sejam peritos nestas matérias. Tem que haver outros critérios na seleção de inspetores que valorizem estas especializações e não tanto as capacidade físicas", assinala António Nunes.

Na prevenção, o presidente do OSCOT, propõe "um maior envolvimento dos organismos de defesa do consumidor para ajudarem a criar uma cultura de segurança na net, que não existe como devia no nosso país".

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