Como a surdez deixou de ser sinónimo de exclusão em São Tomé

Presidente da República chega hoje a São Tomé para uma visita de três dias. O DN foi ver os projetos que Marcelo irá visitar. Espreitamos uma "escola" para surdos no bairro do Bom-Bom e o hospital central.

A sala de aula recebe-nos de pé - uns 30 e poucos alunos, sobretudo adolescentes -, com os braços no ar e as mãos a abanar de um lado para o outro. É como se diz "olá" em língua gestual de São Tomé e Príncipe. O gesto é bem mais efusivo do que o português, em que só usa uma mão ao nível do peito, mas talvez todo aquele entusiasmo não seja pormenor de dicionário ou de tradução, mas antes a felicidade de boa parte dos alunos mais velhos em reverem uma antiga professora.

Ana Mineiro andou por aqui entre 2013 e 2014, a coordenar a produção do primeiro dicionário da língua gestual de São Tomé e Príncipe. "Já nem os conhecia, cresceram tanto!", dizia enquanto se ia despedindo dos alunos mais velhos, sentados nas filas de trás. Se esta curta visita serviu para alguma coisa foi para sinalizar a necessidade de uma segunda edição do dicionário. "Já falam correntemente. Nem eu reconheço alguns dos gestos que estão a utilizar. Em dois anos e tal a língua evoluiu e temos de começar a pensar numa segunda edição."

Estamos num primeiro andar de um edifício meio destruído e meio em obras. Não há energia elétrica - os geradores são caros - e respira-se o ar quente e denso de um início de tarde nos arredores da cidade de São Tomé. Esta sala de aula quase improvisada, no bairro Bom-Bom na zona da Trindade, é uma das faces visíveis de um projeto absolutamente inovador em África, quer no diagnóstico de taxas de surdez, muito mais elevadas do que no resto do mundo, quer no ensino e na integração de jovens e crianças surdas.

Avelino do Espírito Santo, responsável da Fundação para o Desenvolvimento, a instituição que gere esta "escola", conta que tem cerca de 70 alunos inscritos, jovens que vão conseguir escapar a um destino quase certo. Não há muitos anos, antes deste projeto, não havia grande futuro para uma criança que nascesse surda. "Normalmente eram relegados aos quatro cantos da casa, ou ficavam no quintal a fazer serviços de casa. A grande maioria era considerada como pessoas que não tinham capacidade." Toda uma diferença em relação ao grupo que nos vai acompanhando com olhos atentos, que já "falam" língua gestual são-tomense e que, aqui, nesta sala sem luz, vão aprendendo teatro e outras armas para, um dia, tentarem a entrada no ensino técnico-profissional.

Saímos do bairro Bom-Bom - uma zona pobre, com as tradicionais casas sobre estacas, construídas com tábuas de madeira sem pinga de tinta e folgas por onde passa qualquer bicho - deixando para trás uma turma inteira pendurada sobre um computador portátil. Curiosidade imensa. É uma ferramenta de aprendizagem que seria útil, mas que nunca ali entrou por uma simples razão: não têm eletricidade, nem rede, nem gerador.

Chegamos passados uns minutos de viagem ao Hospital Ayres de Menezes, o hospital central de São Tomé, numa colina sobre a baía Ana Chaves e a cidade. Somos guiados pelo diretor-geral da unidade e pelo presidente do Instituto Marquês de Valle Flôr. Percorremos os serviços de imagiologia, otorrino e oftalmologia - todos com capacidade de telemedicina, que permite consultas e exames em tempo real com pacientes em São Tomé e médicos em Lisboa - e ainda os blocos de cirurgia. Este é, por estes dias, o rosto mais concreto do projeto Saúde para Todos, que junta desde 1988 o IMVF, a Fundação Gulbenkian, a DGS de Portugal e a UE. O programa começou numa altura em que não existiam sequer médicos especialistas em São Tomé e conseguiu, no essencial, moldar todo o sistema de saúde do país. O último episódio deste projeto, contado em pleno bloco operatório à espera de inauguração, é curioso. São Tomé trocou a cooperação taiwanesa pela colaboração com a China na passagem de 2016 para 2017. De 31 de dezembro para 1 de janeiro, os técnicos de Taiwan saíram do país, deixaram para trás uma série de equipamentos altamente evoluídos e um grande problema: todos os sistemas "falavam" mandarim. A adaptação foi feita por técnicos portugueses, tudo está já operacional e em português e só falta inaugurar o bloco. É "a grande vantagem da cooperação com Portugal, a língua", confessou Celsio Junqueira, o diretor do hospital.

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