Aeroporto sem obras para o pico do verão

ANA tem um plano de contingência, mas a maior parte das ações só será realizada depois do verão. Entretanto aguarda a decisão do governo sobre nova taxiway e a oficialização do Montijo

Nesta semana o jornal espanhol El País propôs um novo nome para o aeroporto de Lisboa: "Caos." Foi apenas o culminar de várias notícias nos media, mas também de fotografias tiradas por viajantes enraivecidos e vídeos nas redes sociais a mostrar longas filas no aeroporto, sobretudo à chegada. Turistas à espera de bagagens, no controlo de passaportes e até, algo inédito, na passagem da alfândega. Os problemas avolumam-se também nas partidas: o Aeroporto Humberto Delgado é o 12.º pior entre 1193 no ranking de atrasos, com apenas 45,5% de pontualidade. Na zona dos embarques, a tensão é tão grande que já levou à violência contra funcionários da Groundforce, conforme o DN noticiou.

Com Portugal na moda, qualquer coisa que aconteça no aeroporto - por onde passaram, no ano passado, 27 milhões de passageiros, mais 18,8% do que no ano anterior - é notícia internacional. As queixas são muitas e os alvos vários. Companhias aéreas culpam o aeroporto, o aeroporto responsabiliza as companhias e o governo, num pingue-pongue que parece o ditado que diz que em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.

27 Milhões. O número de passageiros pelo aeroporto de Lisboa no ano passado. Neste ano, até maio, já se contam 11 milhões.

O novo aeroporto do Montijo está previsto para 2022, mas não há ainda data ou plano concreto para a saída da Força Aérea que ali tem uma base. E assim todas as atenções estão viradas para o que a ANA, gestora aeroportuária concessionada aos franceses da Vinci, irá fazer para melhorar o serviço até, pelo menos, 2022. Com 95% dos turistas a chegar a Portugal por avião, a gestora aeroportuária - que aumentou os lucros de 2016 para 2017 em 47,8% - é, no fundo, responsável pela primeira impressão que os estrangeiros têm do país.

O presidente da TAP, Antonoaldo Neves, já disse que "sem investimento no Aeroporto de Lisboa e no controlo de tráfego aéreo a operação em Lisboa não vai melhorar". Pedro Santana Lopes alertou para uma "verdadeira emergência nacional". Mas o governo mantém o silêncio. A ANA responde pela primeira vez, avisando à partida que "investimentos para aumento de capacidade aeroportuária não figuram nos investimentos obrigatórios do contrato de concessão". E antecipando "constrangimentos durante o verão e nos próximos anos", atira, ainda assim, para depois deste período crítico obras de maior impacto, nomeadamente por estar a aguardar a decisão do governo sobre o Montijo, cujo projeto inclui um plano também para ampliar o Humberto Delgado. Não revela porém qualquer detalhe sobre os projetos que diz ter para melhorar a qualidade do serviço "ao mesmo tempo que trabalha para ser alcançada uma solução de longo prazo".

A culpa é das companhias aéreas
Para já, está posta de parte a construção de um terceiro terminal, como chegou a ser noticiado em 2017 e que as companhias aéreas dizem ser a melhor solução para acabar com o congestionamento de passageiros. Únicas novidades: segundo a ANA "está em negociações" com a Força Aérea a utilização de uma placa de estacionamento na área militar AT1, conhecida por Figo Maduro. A falta de estacionamento e taxiway - o percurso que os aviões fazem fora da pista, antes de descolar ou depois de aterrar - é um dos problemas colocados ao tráfego aéreo, sobretudo nas horas de maior expediente, e foi também uma das sugestões da TAP. Antonoaldo Neves anunciou que a companhia está a fazer um estudo que inclui o "estacionamento [de aeronaves], saídas rápidas, área de terminal", no fundo, "a otimização do aeroporto" de Lisboa.

Nos últimos três anos, a ANA foi multada em 1,8 milhões de euros por incumprimento nas obrigações de qualidade de serviço previstas no contrato de concessão

É nesse sentido que irá, também, a obra que, segundo a ANA, não depende da aprovação do Montijo: a criação de postos de estacionamento para os aviões "em contacto direto ao terminal". Ou seja, os aviões encostam ao edifício e os passageiros podem embarcar e desembarcar diretamente, a pé, sem recurso a autocarros. Para isso, é preciso fechar a designada pista 17/35 (secundária) e o governo ainda não o autorizou. Questionado pelo DN, o gabinete do ministro do Planeamento e Infraestruturas, Pedro Marques, diz que esse projeto "é uma das componentes do projeto de expansão da capacidade aeroportuária de Lisboa. Trata-se de uma decisão técnica que será tomada quando estiverem reunidas todas as condições necessárias". Nas partidas, haverá obras para permitir a passagem direta da nova zona de check-in para os controlos de segurança das bagagens.

95% A quase totalidade dos turistas que visitam Portugal chegam de avião.


No plano de ação para o verão 2018 (ver caixa), a que o DN teve acesso, não está prevista qualquer intervenção na zona das chegadas, onde as filas no controlo dos passaportes se têm agravado. Na verdade, o contrato de concessão, assinado pelo anterior governo, exclui da responsabilidade da ANA a zona do SEF. Tal como o controlo de segurança nas partidas, que também não faz parte das "obrigações do nível de serviço". Aqui, segundo a empresa, as entidades públicas é que terão de responder.

Ainda assim, a área do SEF foi identificada pela empresa como "ponto crítico" no seu plano de ação. Assim como no espaço dos check-in, onde foram recentemente investidos 11 milhões para, na semana passada, inaugurar nova área nas partidas. Só que não chega. Do plano de ação da empresa, neste ano, a obra de maior peso - duplicação dos canais de embarque, para dez - está agendada para outubro, já fora do período crítico do verão.

Mais atrasos
O DN pediu à ANA que explicasse o que está a acontecer. A companhia considera que os investimentos que já fez permitiram "condições de ser acolhida mais atividade mantendo ou melhorando o nível de serviço" e que todos os subsistemas (espaço aéreo, check-in, controlo de segurança, controlo de fronteiras, recolha de bagagens) "foram e estão a ser melhorados". No entanto, sublinha a empresa, "por mais capacidade que seja alocada, se o planeamento dos slots não for cumprido devido a um excesso de irregularidades das operações das companhias aéreas, não se consegue assegurar a concentração dos fluxos e surgem constrangimentos".

É o contra-ataque às companhias aéreas, principalmente à TAP, que depende deste aeroporto para toda a sua operação. A ANA salienta que se "registaram recentemente inúmeros atrasos e cancelamentos que conduzem a constrangimentos nestes subsistemas porque deixam de ser usados de acordo com o planeamento e capacidade declarada, obrigando a reajustamentos e comprometendo as restantes operações".

Segundo dados revelados este ano pela AirHelp, empresa que regista as reclamações dos passageiros, no total de 97 373 voos com origem no aeroporto de Lisboa, no ano passado, 30% partiram atrasados. O valor é mais elevado que a média registada nos principais aeroportos da Europa analisados, onde a taxa de atrasos, nas partidas, vai dos 18% em Madrid até aos 27% em Frankfurt. São contabilizados como atrasados os voos que chegaram ao destino mais de 15 minutos depois do horário previsto.
A capacidade máxima do aeroporto de Lisboa era de 22 milhões de passageiros. No ano passado, esse fluxo ultrapassou os 26 milhões. No fim do mês de maio deste ano, já tinham passado por ali mais de 11 milhões, um aumento de 13,7% (1,3 milhões) relativamente aos primeiros cinco meses de 2017, de acordo com dados da ANA. Apesar de esgotado, continua a crescer - mas, ao que tudo indica, não se pode esperar um verão muito calmo.

Plano de obras da ANA

Já feitos:

- Linhas automáticas no controlo de segurança

Investimento: 1 milhão de euros

Data: janeiro 2018

- Reabilitação de taxiways (S2, S4, U2) - novo caminho de circulação para atravessamento rápido desde as placas centrais.

Investimento:3,8 milhões de euros

Data: Abril 2018

- Nova sinalética no Terminal 1 - para organizar melhor os percursos e facilitar a circulação dos passageiros.

Investimento: 450 mil euros

Data: maio de 2018

- Short-cut (atalho) para circulação de autocarros de transfer de passageiros que desembarcam longe.

Data: maio 2018

A completar:

- Instalação de escorregas nas mangas para a bagagem

Investimento:350 mil euros

Data: junho de 2018

- Duplicação dos canais de embarque - 10 portas de embarque

Investimento:560 mil euros

Data: (início) outubro 2018

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