Guterres eleito sem cedências, garantem Portugal e Rússia

Ministro Santos Silva e embaixador russo na ONU foram taxativos sobre a independência no exercício de funções do nono secretário-geral

O trabalho diplomático que culminou na escolha do português António Guterres para liderar a ONU, formalizada ontem em Nova Iorque, não envolveu quaisquer cedências ou acordos de bastidores para assegurar o lugar, declararam ontem Portugal e Rússia.

Esta questão tem sido uma das mais colocadas por observadores e analistas para explicar a clara vitória do candidato português - em todas as seis votações, em que na primeira e na última não teve votos contra - para aquele cargo e que, em processos anteriores marcados pela opacidade, acabaram por existir.

"António Guterres foi independente, não está atado por nenhum compromisso" com qualquer dos membros permanentes das Nações Unidas, afirmou ao DN o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, no final da declaração feita à imprensa pelo futuro secretário-geral da ONU, na Sala dos Banquetes do Protocolo de Estado no Palácio das Necessidades.

Em Nova Iorque, o embaixador russo junto da ONU e presidente em exercício do Conselho de Segurança, Vitaly Churkin, também foi categórico em garantir que não existiram "acordos debaixo da mesa" para Guterres obter a luz verde de Moscovo - uma das cinco capitais com direito de veto e que preferia um candidato da Europa de Leste e de preferência mulher.

"Ao longo das discussões, expressámos o nosso interesse em estar melhor representados no secretariado [da ONU]. Não é segredo, já há bastante tempo que o pedimos. Mas não há acordos debaixo da mesa", declarou Vitaly Churkin aos jornalistas, após anunciar que o Conselho de Segurança tinha escolhido António Guterres por unanimidade e aclamação para suceder ao sul-coreano Ban Ki-moon.

"Cabe a [António] Guterres decidir quem vai nomear para as posições seniores" da organização, após a Assembleia Geral votar nos próximos dias a resolução que aprova o candidato português naquele cargo e por um período de cinco anos (que pode ser renovado), disse Vitaly Churkin, observando ainda que o antigo Alto Comissário para os Refugiados "é uma pessoa que fala com toda a gente e ouve toda a gente. Diz aquilo que pensa".

"Quem votou nele sabia" com o que contar em termos de independência e autonomia, sustentou Santos Silva, enquanto outra fonte adiantava ao DN, sob anonimato por não estar autorizada a falar, que Guterres "sai deste processo como entrou. Não houve cedências, foi uma candidatura sólida, forte e independente".

De alguma forma, assinalou esta última fonte, o facto de Guterres ter sabido da decisão "ao mesmo tempo" que o resto do mundo também atesta a ausência de promessas ou compromissos prévios que lhe tivessem garantido antecipadamente a vitória.

O embaixador Francisco Seixas da Costa admitiu outra possível explicação, além da abertura e transparência que marcaram esta eleição e que agora deixaram o Conselho de Segurança "de mãos atadas" face aos méritos do ex-primeiro-ministro português: "António Guterres nasce à escala mundial agora!"

"Agora é que [Guterres] vai falar para o mundo. Acho que houve quem acordasse [quarta-feira] para o seu nome à escala global", argumentou o ex-representante de Portugal junto da ONU. "Ele era completamente ignorado por muita imprensa internacional", prosseguiu Seixas da Costa, mas "agora começa o seu momento de afirmação à escala global, porque era conhecido de alguns meios políticos europeus, dos ligados aos refugiados e de parte da Administração democrata norte-americana por causa de Timor".

"Nós magnificámos a sua vitória porque somos portugueses, mas António Guterres não tem uma visibilidade muito grande ainda no quadro internacional", insistiu Seixas da Costa - o que ajuda a explicar que o vissem no início como figura de segundo plano e, mesmo depois das suas várias vitórias no Conselho de Segurança, continuasse a apontar-se a búlgara Kristalina Georgieva como principal candidata ao cargo, adiantou ao DN.

Por outro lado, continuou Seixas da Costa, "não parece que António Guterres faça uma leitura calculista do seu mandato" de forma a garantir a sua reeleição. "Não faz parte do seu perfil", reforçou o embaixador, atestando também por esta via a independência de Guterres.

António Guterres, na breve declaração feita perante dezenas de jornalistas em português e repetida em inglês, francês e espanhol, prometeu "servir os mais vulneráveis", sejam "as vítimas dos conflitos, do terrorismo, das violações dos direitos, da pobreza, das injustiças".

Guterres - aplaudido de pé no Parlamento, antes de aprovado um voto de congratulação, quando se soube da sua nomeação - enalteceu depois a forma "exemplar de transparência e abertura" que culminou na sua escolha para secretário-geral da ONU. "Faço sinceros votos" que a decisão do Conselho de Segurança "por consenso e unidade", disse, possa simbolizar "uma capacidade acrescida" das Nações Unidas para "tomar a tempo as decisões que o mundo conturbado em que vivemos exige".

Com Madrid a exprimir "grande satisfação" e Berlim a dizer que Guterres "pode contar plenamente" com o seu apoio, Santos Silva deixou outra garantia: Lisboa "não espera favores do secretário-geral das Nações Unidas" e considera que "a melhor maneira" de ele servir os interesses de Portugal "é servir os interesses" da organização multilateral sedeada em Nova Iorque.

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