Governo aumenta para 30 o número de bolsas para alunos universitários ciganos

"Temos de motivar mais jovens, homens e mulheres da comunidade [cigana], a ter orgulho em aceder ao ensino superior", defendeu o ministro Eduardo Cabrita

O Governo vai aumentar de 25 para 30 o número de bolsas de estudo para alunos universitários ciganos, anunciou esta quarta-feira o ministro Eduardo Cabrita, no âmbito do programa "Opre", uma medida "histórica" que permitiu "rasgar mentalidades".

O anúncio foi feito hoje pelo ministro Adjunto, Eduardo Cabrita, no decorrer de uma cerimónia onde foi feito o balanço da primeira edição do "Opre" - Programa Operacional para a Promoção da Educação, que atribui bolsas de estudo a alunos ciganos para o ensino superior.

Na primeira edição deste programa, para o ano letivo 2016/2017, o Governo atribuiu 25 bolsas de estudo, número que irá aumentar para 30 no próximo ano letivo, anunciou Eduardo Cabrita, que gostaria "de ter não 30, mas 300 candidaturas", já que o problema não está no financiamento destas bolsas.

"Temos de motivar mais jovens, homens e mulheres da comunidade [cigana], a ter orgulho em aceder ao ensino superior", defendeu o governante, sublinhando que "vale a pena estudar".

Os resultados hoje apresentados mostram que das 25 bolsas atribuídas no ano letivo passado, 11 foram para homens e 13 para mulheres, com idades compreendidas entre os 18 e os 39 anos.

"Neste momento, a taxa de sucesso é de 71% [no global] e de 77% nas mulheres", adiantou Bruno Gonçalves, vice-presidente da Associação Letras Nómadas, mentor do projeto que esteve na génese do programa "Opre", acrescentando que serviu para "rasgar mentalidades".

De acordo com o responsável, grande parte dos alunos optou pelas ciências sociais, mas a distribuição incidiu em cursos tão diversos como a psicologia, ciências jurídicas, fotografia, desporto, automação naval ou serviço social.

Priscila Sá, 20 anos, é uma das alunas que usufrui de uma bolsa de estudo, estando no quarto ano da licenciatura de Direito, na Universidade Lusófona, no Porto.

Em declarações à Lusa explicou que estar a estudar Direito é um sonho concretizado, não só seu, mas de toda a família que sempre a apoiou e incentivou.

"Estou a realizar o meu sonho desde pequena, que era ser advogada, e, portanto, estou no caminho certo", adiantou, acrescentando que espera, no futuro, conseguir chegar a juíza e motivar outros jovens a estudar.

Olga Mariano, presidente da Associação Letras Nómadas, para quem o "Opre" é uma medida "histórica", não tem dúvidas quanto ao valor das mulheres ciganas, que "não se desviaram um milímetro do que é ser cigano dentro da sua própria comunidade".

"São meninas que têm todo o valor, familiar, comunitário e pessoal", defendeu, acrescentando que muitas estão casadas e têm filhos.

Para a responsável, o programa "Opre" e os resultados que teve até agora mostra que os ciganos estão cansados de ser "cidadãos de segunda".

"Somos portugueses e podemos sonhar com mais. Os bairros sociais têm de acabar, vamos inserir estas pessoas nas malhas urbanas e a exclusão escolar têm de acabar. Vamos por ciganos no ensino superior. Há muito para fazer, mas o caminho faz-se caminhando", disse Olga Mariano.

O ministro Eduardo Cabrita aproveitou ainda para apelidar os jovens estudantes ciganos de heróis e para garantir que a medida é, não só, uma "prioridade política", como um "dos sonhos" que o deixa mais satisfeito.

"Estamos a fazer o que deve ser feito porque há aqui uma dívida de justiça para com a comunidade cigana, uma dívida de toda a sociedade portuguesa", disse o governante, acrescentando que cabe à comunidade cigana bater-se pelos seus direitos.

O programa "Opre" tem como objetivo ajudar jovens ciganos a entrar na universidade, dando-lhes uma bolsa de estudo no valor de 1.500 euros por ano, atribuída pelo Alto Comissariado para as Migrações.

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