Geringonça aperta Costa. Tancos é culpa deste Governo

PCP diz que responsabilidade é do primeiro-ministro. BE lembra dinheiro poupado no défice que devia ter dado resposta às tarefas do Estado. Marcelo quer dúvidas todas esclarecidas

BE e PCP carregaram ontem nas críticas ao Governo de António Costa, que apoiam no Parlamento, associando os cortes e a redução do défice às falhas do Estado no roubo de Tancos (e no incêndio de Pedrógão Grande). Poupou-se para reduzir o défice, cortou-se até "ao osso" e o Estado "falha em tarefas fundamentais", acusaram ontem a coordenadora bloquista, Catarina Martins, e o secretário-geral comunista, Jerónimo de Sousa. Segundo o líder do PCP, a responsabilidade é mesmo de Costa.

Falando em Viseu, Jerónimo de Sousa insistiu que o executivo do PS tem culpas no cartório. "Consideramos que existe uma responsabilidade clara por parte do Governo, por parte de sucessivos governos, que reduziram "ao osso" a condição militar, tanto no plano pessoal, dos direitos dos militares e da própria quantidade das Forças Armadas."

Sem perder o fôlego, o líder do PCP notou que isto aconteceu porque se esquece "muitas vezes que, aceitando as imposições designadamente da União Europeia, dos cortes e mais cortes, de reduções e mais reduções, colocam em causa aquilo que é a missão fundamental das nossas Forças Armadas, que é serem o garante da nossa independência e soberania".

Para Jerónimo, o que se passou em Tancos tem de ter consequências. "Estamos perante uma situação muito grave, que exige apuramento e também que se retirem consequências daquilo que aconteceu. Não se trata de mais um incidente, mais um crime, e creio que é fundamental que esse apuramento seja feito e se retirem as ilações, tanto no plano da instituição, como no plano político", referiu.

A responsabilidade é de Costa, apontou o secretário-geral comunista. "Se isto se resolvesse com a demissão do ministro, muito bem. Penso que, de qualquer forma, a responsabilidade política maior é do primeiro-ministro e é neste quadro que a questão deve ser colocada."

Para Catarina Martins, que falava em Salvaterra de Magos, o executivo socialista não pode lavar as mãos. "Podemos olhar para o governo PSD/CDS e para a forma como cortou irresponsavelmente no Estado, mas também temos que pensar que o PS está no Governo e que há mais de um ano e meio aprovou orçamentos do Estado e que deveria ter dado resposta a estas necessidades de serviços públicos", apontou.

A líder bloquista recordou que não se usaram 1,6 mil milhões de euros para "reduzir o défice ainda mais do que estava previsto", quando afinal sente-se "a falta que fazem em todos os serviços públicos e no funcionamento do próprio Estado". Tancos é o último exemplo deste "falhanço em tarefas fundamentais do Estado".

O Presidente da República referiu-se ontem pela primeira vez ao caso, para defender que para "não haver dúvidas que se deve investigar até ao fim em matéria de factos e responsabilidades". Outras questões, segundo Marcelo Rebelo de Sousa, são o facto de se ter de prevenir que, no futuro, "não haja de seis em seis anos furtos destes e com gravidade crescente", referindo-se ao assalto no Carregado, em 2010, e que se investigue se existe alguma ligação entre este furto e outros dois que aconteceram "nos últimos dois anos em países membros da NATO, um deles há poucos meses".

Para já, as consequências imediatas passaram pela exoneração temporária de cinco comandantes de Tancos, decididas pelo chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), general Rovisco Duarte. Ao DN, o coronel Gil Prata notou que, "com a exoneração o militar cessa o exercício de funções do cargo para o qual tinha sido nomeado".

"Um militar pode estar suspenso preventivamente de funções, por exemplo para não estar em condições de interferir numa investigação, mas neste caso, na minha opinião, teria de se encontrar na situação de arguido na investigação. Exoneração temporária não percebo o que seja. Talvez alguma medida administrativa no âmbito do poder discricionário da administração", concluiu este militar.

Já o major general Raul Cunha defendeu ao DN que o CEME "tem a prerrogativa" de suspender os comandantes. "É mais uma interrupção de funções. O que vai acontecer é que não nomeará ninguém para os substituir", até estar concluída a investigação, apontou, recordando que "há três anos que se enviam relatórios para a estrutura de comando" a dar conta dos problemas.

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