Valter Hugo Mãe: "O politicamente correto lixou-nos a todos"

Fala como escreve: com o coração ao alto. Poderia ter sido advogado, se quisesse, ou programador cultural, se o deixassem. Mas chegou-se à escrita, e sem fronteiras: poesia, romance, conto, literatura infantil. Joga forte nas ideias e sabe de onde vem, nunca se escusando a defender os seus lugares

Valter Hugo Mãe tem orgulho no percurso, mas nunca puxa dos galões. Nem se refugia nas meias-tintas das meias-palavras. Foge, como de uma praga, do "politicamente correto". Ainda bem.

Podemos começar por Henrique de Carvalho, Angola, onde nasceu?

Sim, apesar de eu ter saído de lá com dois anos e meio. Logo, não tenho nenhuma memória direta, mas foi um lugar que eu construí a partir das histórias dos meus pais. Tive a possibilidade de lá voltar, há cerca de três anos, e pude perceber que algumas das coisas que me foram contadas não tinham que ver com a cidade - eles correram várias terras, tiveram vários filhos e misturaram as suas próprias memórias... Mas não deixa de ser uma forma rica de ter passado, porque me dá a liberdade de escolher aquilo que quero tomar para mim. Em última análise, eu posso quase inventar o lugar onde nasci e aproveitar apenas aquilo que acho esplendoroso e maravilhoso, criar quase um lugar de fantasia...

Tendo regressado lá, como foi o encontro com a realidade?

Uma mescla tipicamente africana: algo francamente triste e surpreendentemente alegre. O que ali existe é uma pobreza profunda de quase toda a gente mas, de modo estranho, uma alegria, uma candura, na forma como as pessoas são. A nós, até nos custa a entender... Se nos falha a mínima coisa, entramos logo em colapso. A eles, a quem falha quase tudo, parece que essa simplificação das necessidades acaba por trazer ao de cimo uma alegria elementar. Isso comoveu--me muito, o encontrar ali pessoas muito crédulas, muito disponíveis, inclusivamente com uma vontade enorme de falar e de ouvir. Depois, como não há visitantes, não há turismo, eles quase celebram com quem lá passa. Atrevo-me a pensar que o contacto comigo foi, para alguns deles, a viagem que não podem fazer...

Essa disponibilidade de que falou é mais difícil de descobrir na Europa?

Sim. Não vejo nada de parecido na Europa... Há uma festividade de alguns países e regiões latinas, caso do Sul de Espanha, ou em zonas da Alemanha, ou na Islândia, onde se perde literalmente a cabeça ao fim de semana, mas parece-me mais uma alegria agendada, calendarizada. Parece resultado de psicanálise (risos)... A África, podendo ser vista como o continente atrasado, também se arrisca a ser o espaço mais preservado, se pensarmos nalgumas essências do que é ser-se gente.

De Henrique de Carvalho e de Angola para Paços de Ferreira, onde vive a sua infância...

As minhas memórias, ai, são profundas. É lá que começa e acaba a minha infância, de uma forma muito nítida. Por exemplo, a perda daquele espaço quando saí, a perda dos meus amigos, a entrada num ambiente completamente diferente como o das Caxinas, ainda hoje atingidas por um enorme preconceito que se move contra a suposta agressividade de quem lá vive, essa fratura foi muito violenta. Sobretudo porque eu era um miúdo ingénuo, frágil, magricela, mariquinhas, cheio de medos e que estava a entrar num lugar em que me diziam que as pessoas eram muito ferozes... Eu quase sentia que tinha mudado para o lugar da minha morte... Mas, voltando a Paços, fiquei com a ideia de uma terra muito recatada, pequenina, de interior, cheia de pudores... Aqui [Caxinas, Vila do Conde], tudo é diferente, com a praia, há sempre um banhista, um turista... As férias permitem às pessoas ser mais "irregulares"... Em Paços de Ferreira, a "regularidade" era fundamental. O ambiente era de uma certa austeridade e eu era um miúdo criado naquela mundividência bem comportadinha e linear. Aqui, tudo foi diferente: desde logo, nos primeiros verões que aqui passei, percebi que era possível as namoradas aparecerem-me à porta, talvez porque as estrangeiras aparecessem com umas ideias inovadoras. Os miúdos, as pessoas daqui, são um pouco tomados de assalto com o entusiasmo de quem vem de fora e quer passar um bom tempo. Isso, em Paços, não existia porque não havia visitas...

O ambiente das Caxinas obrigou-o a crescer?

Sim... Sobretudo pelo preconceito - hoje uma das minhas causas é ser escritor das Caxinas, mais do que de Vila do Conde... Esta comunidade foi e é muito injustiçada, porque as pessoas das Caxinas não fazem mais do que um tremendo esforço pela sobrevivência. É um lugar penalizado e eu não tenho senão orgulho... O medo que se instigava, sobretudo na década de 1980, quando aqui cheguei, era de tal forma profundo que fazia pensar que qualquer hipótese de envelhecimento aqui era inviável para um forasteiro. Tenho pena que se tenha passado essa imagem e que as Caxinas, que nem freguesia são, mas mais um bairro grande, continuem a ser preteridas face a outras zonas da cidade. É um espaço negligenciado, em que as coisas não são tão bonitas e em que há até uma permissividade notória do ponto de vista urbanístico... É isso que vou tentando denunciar, para que as pessoas das Caxinas, mesmo sendo mais simples, não acabem destituídas da sua dignidade.

Costuma olhar-se o momento do liceu, do ensino secundário, como decisivo. O Valter viveu-o já nas Caxinas?

É nas Caxinas que eu passo a saber quem sou. Há muitos aspetos da minha infância que eu procuro curar até hoje, e aí entra Paços de Ferreira, mas é nas Caxinas que eu me modelo e faço as escolhas do que quero. Foi um processo lento: talvez por ter nascido em África, tomei o meu tempo... Não me precipito e as coisas acabam por me acontecer. Mas foi nas Caxinas, por volta dos 18, 19 anos, que eu perdi o medo dos textos e passei a encará-los como um diálogo com um leitor qualquer. Desde os 6 anos que guardava os meus papelinhos, as minhas frases, mas só por volta dos 18, e por influência de uma grande amiga, passei a considerar o texto uma forma de estar com os outros. Já não era aquela coisa solitária, nem uma maneira de me tolerar a mim mesmo... Isso passou, naturalmente, com o que vivi e aprendi aqui.

Esse processo de aproximação ao texto acontece num ambiente que não é propriamente um cenário literário, pois não?

É, é... É muito. É verdade que há escritores cuja literatura se desenvolve dentro da biblioteca, por contaminação ou por influência de outros livros, mas a minha tem outro tipo de génese, vem da espontaneidade das pessoas, de uma manifestação humana sem filtro. Nesse aspeto, as Caxinas reúnem pessoas genuínas, frontais... Acho que isso me mudou, de um miúdo muito tímido para alguém que, se calhar, continua a ser tímido ou reservado, que compreendeu a fortuna dessa frontalidade e a necessidade de se criar um discurso e boa-fé, que não vá apenas ao encontro do politicamente correto, algo que nos lixou a todos... Agora estamos a pagar isso com o aparecimento de políticos muito "incorretos", talvez por não ter havido moderação nessa "plasticidade". Aqueles que detêm publicamente o poder da palavra entraram numa cosmética tão vazia, tão retórica, que hoje em dia as pessoas não se conseguem identificar com nada disso... Aquilo que me encorajou, aqui nas Caxinas, tem que ver com uma espécie de vida em protesto...

Com esse processo da escrita já em marcha, o que o leva à Faculdade de Direito?

Era um complemento, a busca da arma de que eu precisava para exercer essa frontalidade... Eu queria muito dotar-me do necessário para poder protestar consistentemente, argumentar com o juiz, de alguma forma fundamentar aquilo que já ia pressentindo - os desequilíbrios, as faltas de partilha, as desigualdades... Estudar Direito foi importante para mim, até porque, sem que eu estivesse imediatamente consciente disso, o curso de Direito estuda o discurso, o texto - se o desligarmos da componente ética e o encararmos como uma oficina técnica, é algo que se debruça sobre o escrever e o ler, como interpretamos o que escreveu o legislador, qual a sua intenção, qual o lastro que carrega um texto... Talvez seja mesmo a melhor das escolas para quem quer escrever livros...

Mas consegue olhar para um texto jurídico como se fosse um texto literário?

Alguns são maravilhosos... Há uma secura no texto jurídico - que não deve ter adjetivos, deve despir-se de emoções - que não deixa de ter uma elegância própria. Há uma espécie de esplendorosa exposição de uma ideia que se visa capturar com o mínimo possível de subjetividade. Teoricamente, nós não devíamos ter dúvidas a interpretar uma lei. Claro que, como estamos a falar de bichos que não se deixam caçar, haverá sempre quem queira puxar a brasa à sua sardinha... Eventualmente, haverá quem olhe anos a fio para o Código Civil e não descubra nada; mas, se for da sua natureza intuir ali a presença da literatura, pode ser uma mais-valia.

Chegou a exercer o Direito?

Sim, fiz o estágio completo e fui, durante ano e meio, advogado estagiário. Defendi vários processos em que era designado oficiosamente pela Ordem dos Advogados. Quase só tive casos de senhoras em divórcio. Aliás, só defendi as senhoras...

O que pode ter sido uma fonte de inspiração...

Foi, de facto. Acho que, nos meus livros, se nota muito esse lado das mulheres sofridas, das que são presas dos seus mais amados predadores. Não sei se alguém, na Ordem dos Advogados, terá tido algum eco de um dos meus primeiros casos mas, de repente, mandavam-me os processos das senhoras todas... Nunca defendi um homem em situação de divórcio. Claro que tinha um lado assustador: eu tinha 24, 25 anos, e estava ali a defender senhoras que, nalguns casos, podiam ser minhas mães. Isto levava a que a minha capacidade de identificação fosse, por razões etárias, diminuta: eu estava muito distante. Apetecia-me resolver as coisas com a maior brevidade, eventualmente ao estalo, mas tinha de usar a diplomacia jurídica, muito lenta e muito chata. Penso até que foi quando percebi a existência real de uma burocracia que só empecilhava, que comecei a concluir que talvez fosse mais produtivo ocupar o meu lugar no mundo como escritor, e não como advogado.

Sentia-se uma espécie de confessor das mulheres que defendeu?

Muito... Hoje, tenho a ideia de que devo ter ouvido muita treta, muita "banha da cobra", mas, na altura, acreditava em tudo, porque era um bocado apalermado... Depois, pude perceber que talvez as histórias não fossem rigorosas, que alguns maridos não seriam tão terríveis como isso, mas também percebo que, na defesa das suas causas, as pessoas se choram com as armas que têm. A verdade é que todas elas choravam, muito e bem, e eu achava aquilo convincente... Não sabia distanciar-me e sofria com elas. Dava boleias, algumas vezes cheguei a pagar as custas - e não tinha dinheiro, na época -, queria minimizar aquele terror em que achava que aquelas mulheres viviam.

Essa predisposição para assumir as dores dos outros, essa entrega à ajuda, não se sente na sua escrita?

Acho que sim. Talvez até em tudo o que eu faço. Mas aí eu sou um bocado palerma, porque chego a ajudar os que não querem ser ajudados (risos). Às vezes, até insisto em ser amigo de alguém que não quer ser meu amigo... Tenho um amigo que me diz que, quando eu faço alguma coisa por alguém, o mais natural é esse alguém agradecer-me acabando a jantar em minha casa (risos). Se calhar, tenho mesmo de rever os meus métodos de relação... Há um dado curioso: claro que eu tenho amigos que estão bem e é isso que eu lhes desejo. Mas tenho muito mais tendência para me aproximar de quem está a viver momentos trágicos, situações-limite... Isso, às vezes, implica uma enorme frustração, quando percebo que não consegui resolver nada.

O seu processo de "transferência" do Direito para a escrita foi rápido, foi linear?

Eu sempre escrevi desalmadamente durante a adolescência. O mesmo aconteceu no tempo da universidade e do estágio. Mas chegou o momento em que percebi que não poderia ser advogado, aquilo era cansativo, emocionalmente esgotante, e eu não me sentia suficientemente seguro para cuidar dos problemas das pessoas. Falei com os meus pais e disse-lhes que, embora me tivessem pago um curso milionário numa universidade privada, eu não ia ser advogado. Foi muito duro, mas foi um alívio. Entreguei-me ainda mais à escrita e, na altura, escrevia sobretudo poesia. Publiquei o primeiro livro aos 24 anos, ainda era estudante. Depois, dos meus 24 aos meus 30, eu esperei para ser contratado pela Câmara Municipal de Vila do Conde para trabalhar no auditório municipal - e isso nunca aconteceu. Nunca falei disto publicamente, mas hoje apetece-me... Aos 30, criei, com o Jorge Reis-Sá, as Quasi Edições e passei a trabalhar lá. Foi aí que a câmara me chamou, dizendo que ia ser contratado na semana seguinte... Isto depois de seis anos posto de molho, tendo recusado contactos da Câmara da Póvoa de Varzim e de outros projetos culturais. Eu abdiquei de fazer a minha vida de outra forma. Foi terrível! Eu cheguei a pensar que talvez não servisse para nada, que não sabia fazer nada... Foi muito cruel e a única coisa que verdadeiramente me suportou foi a escrita. Quando entrei na Quasi, a editar livros de outras pessoas e a escrever com outra consequência, a vida parece que encaixou.

Que função era suposto desempenhar no auditório municipal?

Supostamente, eu seria o diretor... Caber-me-ia fazer as honras da casa, mas também tomar conta da programação, que era quase inexistente. Era um desafio que ia da estruturação à comunicação. Vi todos à minha volta a serem contratados e eu ia ficando à espera... Marcou-me muito essa rejeição, essa espera sem qualquer tipo de respeito. Mas foi muito bom para a poesia, porque foi uma fase de maturação, de leituras... Deixei de ser o miúdo encantado para ser o adulto que queria. Acho que encontrei a minha redenção na literatura.

Começando pela poesia e aí "morando" alguns anos...

Sim. Eu só publico o meu primeiro romance em 2004. Antes, foi só poesia, durante oito anos...

Como é que se sentiu na pele de editor?

Foi maravilhoso. Adorava voltar a editar, dirigir uma pequena coleção de poesia, por exemplo. Acho que quem passa pela descoberta dos textos e dos autores, nunca perde o gosto e o desejo por essa tarefa. Essa maravilha de podermos ser quase coautores de um livro, de o ratificarmos, é algo de glorioso. Houve uma fase em que eu conhecia tudo, todos os pequenos livros, todas as estéticas. Nós editámos muita gente nova, alguns com escritas quase alienígenas e que não prestavam vassalagem a nada nem a ninguém no universo português, mas também publicámos o António Ramos Rosa, a Fiama Hasse Pais Brandão. E o José Régio. Nunca me interessou criar capelas, nem por amiguismos profundos, mas sim a mistura. Nunca editei à minha imagem e semelhança, até por considerar isso um pouco obsceno...

Isso pressupõe, enquanto autor, que percebe bem o papel dos seus editores?

Perceber, percebo, mas já tive problemas. A partir do momento em que se começa a vender livros, por mais amigo e simpático que se seja, entra em campo o interesse. Aí, acontece os editores terem de responder a ordens de departamentos que nem sequer me conhecem... Já tive mais dissabores do que esperava. É quase sempre porque se vende livros; se não vendesse, ignoravam-me. Comigo, até na hora de recuperar os meus títulos, voltando a publicá-los por uma outra editora, recebi e-mails mais ou menos ameaçadores, e de gente com quem me dava bem...

Um escritor com o seu nível de vendas e de reconhecimento, premiado, vive bem, em Portugal, ou sobrevive apenas?

A minha situação é, porventura, muito especial - se tivesse filhos, teria muito mais dificuldades. Mas tenho de gerir o meu dinheiro em função das necessidades de um adulto. Logo, se tiver de abdicar de determinadas palermices, faço-o facilmente. Eu não me posso queixar: o sucesso que tenho em Portugal e no Brasil, o facto de estar editado em muitos países, faz que eu hoje esteja bem. Isto significa o quê? Ter um apartamento há 14 anos e ter um carro que comprei usado. Mas não tenho prestações para pagar nem empréstimos... Para o comum dos cidadãos que vive bem, isso é pouco, porque têm casas com piscina, casas de campo, casas de praia, eventualmente um barquinho para passear aos domingos, dois filhos a estudar em colégios privados... Eu talvez não tenha a casa que queria, mas tenho aquela que posso. Na minha vida, fui sempre muito pragmático, nunca me abeirei daquilo que está acima do que posso ter. Isto permite-me também manter a minha cabeça tranquila. Lembro-me, quando comprei o apartamento da insistência do banco para que eu contraísse um empréstimo. E eu não aceitei... Não quero nunca abdicar da tranquilidade, que é exatamente aquilo que me permite pensar nos livros. Se eu estiver acossado com a prestação da casa, provavelmente não consigo escrever...

Não gosta de se sentir devedor...

Não acho que seja esse o sentido das coisas. Sobretudo para um indivíduo como eu, que não tem uma garantia. Não sou funcionário de nada, posso estar hoje como um autor celebrado e amanhã ver as pessoas decidirem que não me querem ler... Procuro ter a minha vida sempre dimensionada para a hipótese de poder falhar. Acontece a quase todos. Porque não há de acontecer comigo?

Já publicou poesia, romance, contos, literatura infantil... Hoje, a chegada de um novo livro tornou-se um hábito?

Não é hábito nenhum! É muito diferente, face ao primeiro livro, mas a tentativa acaba por ser sempre a de regressar aquela virgindade inicial em que as coisas são descobertas por maravilha, como se estivéssemos mesmo na pura dimensão da revelação. Só que nem tudo pode ser uma revelação na cabeça de um indivíduo de 44 anos - sabemos mais, experimentámos mais... Há pouco que nos pareça original e isso levanta uma angústia de base. E há um paradoxo: é cada vez mais difícil eu ficar satisfeito com um texto que escreva, mas sei que escrevo agora muito melhor... Os meus livros mais recentes são muito melhores do que os primeiros, disso não tenho dúvidas... Mas, por cada revelação que alcanço, há duas ou três que me escapam... O indivíduo que vai sabendo, sabe sobretudo melhor o tamanho da sua ignorância. Vou-me apaziguando, às vezes até com as revelações de outros escritores, que me permitem passar à dimensão gloriosa de leitor. Há muitos escritores que se vão demitindo de ser leitores, mas eu não...

É um escritor que precisa de pessoas, de viagens, de contactos, mais do que um escritor eremita?

Eu gosto de pessoas... Enquanto escritor, faz-me mais jeito estar quieto do que viajar. Mas, depois, enquanto cidadão, assumo a pulsão para estar com os outros e conversar... Claro que, se estivesse enfiado em casa, escreveria muito mais.

Mais sim, mas melhor?

Pois, aí é que eu não sei... Mas escreveria mais, leria mais... E talvez me frustrasse menos com as pessoas. Só que basta desafiarem-me, chamarem-me para alguma coisa, e eu vou - festinhas, jantares, tomar uns copos, passear... Se for para apresentar livros e ver fontanários, aí é mais difícil...

Não gosta da vida dos festivais literários?

Participei em vários... Mas este ano, por exemplo, só fui às Correntes d"Escritas [na Póvoa de Vazim]. Acho que chega a um ponto em que precisamos de criar uma certa distância - as pessoas vão perguntar-nos as mesmas coisas e, muitas das vezes, se não estivermos com uma moderação ou com uma companhia interessante, acaba por ser dececionante. Há gente que me trata por Vítor Hugo, que pensa que ainda escrevo só em minúsculas, que me pergunta se eu não penso um dia escrever poesia, enfim... às vezes estamos ali numa exposição que acaba por ser fútil, porque não há aprofundamento de nada. Depois, exerce-se muito o politicamente correto, de que já falámos, uma espécie de "marcopaulismo" em que basta estar com o público e se entra numa mediania de discurso em que ninguém quer dizer o que pensa sobre o impeachment da Dilma ou sobre o Cavaco Silva... Ora, eu acho que se um escritor não usa a voz para dizer alguma coisa de jeito, se fica ali apenas para adocicar o chazinho, mais vale não participar...

Nesse âmbito, e além de uma voz própria, também se sente porta-voz de alguma coisa?

Não, sou sempre eu. Mas sou eu por inteiro. Que eu saiba, fui o único escritor que assinou uma petição para se exigir que a escola pública fosse defendida em detrimento dos colégios privados... Eu até estudei numa universidade privada, a que os meus pais tiveram de pagar. Mas penso que não se pode duplicar o gasto: se temos uma escola pública a prestar serviço numa determinada localidade, não faz sentido a dobragem. Temos é de desafogar e melhorar o ensino público. Talvez eu tenha sido o único escritor a assinar esse documento por haver consciência de que são os colégios privados que compram livros... Se formos fazer uma sessão a uma escola pública, os miúdos não têm um tostão para comprar o livro; nos colégios privados é diferente porque os miúdos vêm de famílias mais abastecidas e os pais agarram nos 15 euros e mandam comprar, pedindo um autógrafo... Para mim, isto é evidente - e, se tiver de ficar sozinho a defender esta ideia, não há problema.

Em 2007, ganhou o Prémio Saramago. Que importância real é que um prémio, ou melhor, que esse prémio teve na sua vida?

Começo por dizer, desde já, o seguinte: o Prémio Saramago é o único que traz mesmo uma mudança à vida de um escritor. Antes de mais, era dado pelo próprio Saramago - de resto, não sei se ele terá a mesma força com o Saramago morto. Depois, porque apanha os autores numa idade ainda jovem, quando ainda são figuras sem capela. Ou seja, entende-se bem que o que está em causa é a qualidade do livro, porque os escritores não têm esquemas montados, ainda não são propriamente amigos de ninguém. É a melhor distinção quando se quer dar um salto de uma atividade mais ou menos amadora para um estado mais profissional, até na relação com uma editora mais sustentada. Depois, há a dimensão do exemplo de José Saramago, que nunca se calou e só esteve ao serviço da sua própria consciência. O que mais me comoveu na distinção que ele quis fazer-me, prende-se com o facto de ele não ser uma pessoa de elogio fácil, e que só expunha as ideias em que efetivamente acreditava.

Ia morrendo do coração no palco de Paredes de Coura

É possível olhar para si como uma versão atualizada do homem do Renascimento? O Valter desenha, canta...

Desenho mal, canto mal... Mas vamos lá: desenhar é algo que me liberta o pensamento, enquanto procuro uma cor ou uma linha. A cabeça pode entrar noutro lugar e fornecer-me, desde logo, soluções para a literatura. Quanto à música, tenho a ideia de querer ser músico, quando era miúdo... Em ambos os casos, permito-me pensar que nos policiamos demasiado em relação ao que fazemos. E talvez eu tenha passado de tímido para trapalhão - prefiro fazer, mesmo que seja de uma forma tosca. Não o faço exatamente a brincar, faço como posso e porque, habitualmente, sou convidado para fazer. O que agradeço...

No caso do canto, esse chegar à frente não foi útil para adoçar a timidez?

Sim. Com o grupo [Governo], fiz vários concertos. Houve um, no festival de Paredes de Coura, em que ia morrendo de ataque cardíaco (risos)... O concerto foi realizado no palco Jazz na Relva, obviamente menor do que o principal mas, ainda assim, frequentado por milhares de pessoas, muitas delas parte integrante da pior das clientelas, a da tarde, deitados ao sol e sem pachorra para os carecas que vão ali mostrar música desconhecida... Pensei que ia morrer ali, no palco de um festival de verão, mas até achei adequado... Mas sobrevivi e até houve quem me viesse dizer que correu bem. Claro que não deixei de ser eu, mas na minha cabeça, e só na minha cabeça, eu estava perto de uma Billie Holiday, de um Chet Baker, de um Johnny Hartman (risos)...

Quando olhamos para vidas passadas, de escritores, pintores, pensadores, há uma tendência para os arrumarmos por grupos de amigos ou rivais. Nos nossos dias, isso ainda acontece ou os criadores ficam mais nas respetivas casas, com os seus computadores?

Voltamos a algo de que já falámos, à idade da cosmética, e ao desejo de se evitar confrontos. As conversas extrapolam: qualquer coisa que digamos pode transformar-se numa mensagem absolutamente ofensiva para a nossa intenção. A tentação de polemizar anda bastante refreada, para evitar, sei lá, que algo caia no Facebook e, de repente, apareça carregado de um ódio que não existia na origem... O confronto é hoje muito desonesto. Ainda assim, penso que, com o tempo, se vão sentir algumas aproximações, algumas comunhões. No universo da poesia, é muito claro que em Portugal há assim dois grupos, três grupos, bem identificado, seja pelas chancelas que os editam, seja até pelo tráfico de dedicatórias que fazem entre si e que espelham laços afetivos. Já a ficção acontece num teatro muito largo: há menos rejeições, mas talvez haja menos necessidade de companhia.

Hoje, agora, seria possível o Orpheu?

Há muita gente a tentar algo de semelhante: de três em três meses, há um número zero de uma revista que quer romper, quer mudar... Mas não, penso que não seria possível por um motivo muito claro: o mundo, estando estranho, mostra-se indisponível para uma mudança de paradigma. Não é possível vislumbrar neste momento a criação de um novo homem e o Orpheu está na esteira de um pensamento que, de alguma forma, propõe um novo modo de ser. Isso hoje já não está em causa: vivemos de uma forma acelerada, mas não necessariamente diferente, opositora. Ainda somos sensivelmente o mesmo tipo de consciência. Talvez só as pulsões mais terríveis possam denunciar uma assustadora nova humanidade, algo que pode vir, por exemplo, d"O Psicopata Americano, do Brett Easton Ellis, mas que anda paredes-meias com o racismo, com a xenofobia... Este novo homem que é despudoradamente odioso e grotesco, maligno, talvez seja aquilo que verdadeiramente poderá propor uma mudança de paradigma. Mas, se o paradigma for esse, então já não estamos a falar da humanidade mas de outra coisa qualquer.

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