"O vinho do Porto tem de ir ao encontro da vida das pessoas"

É uma das vozes conhecedoras do Douro e da teia de saberes chamada vinho. Dirige a empresa familiar que ganhou dimensão mas que, diz, não perdeu humanidade. Responde num português com sotaque inglês

A entrevista com Paul Symington vale como uma "visita guiada" ao universo mágico dos vinhos do Porto e do Douro, mas também ao cenário real de uma labuta secular que é imperativo renovar todos os anos. Fala do seu trabalho com paixão e das suas paixões com a contenção britânica que também mora na sua personalidade. A dado passo da conversa, interrompe o fluxo de perguntas e respostas para sublinhar o que diz, com fotografias que carrega no iPad e a que confessa recorrer sempre que faz "viagens chatas". Nas imagens, avultam a mãe ("nascida em Sintra", como gosta de realçar), a neta de algumas semanas e sempre, mas sempre, o Douro. Traz à lembrança uma ideia de outro duriense, um tal Miguel Torga: "Ando, dou a volta ao mundo, mas acabo por vir dormir aqui."

Há um dado da sua infância que chama a atenção: o só ter ido a Inglaterra quando já tinha 12 anos...

É verdade... Até no Colégio Inglês, aqui no Porto, brincavam connosco: "Então são ingleses mas nunca lá foram?" Nós, os quatro irmãos, chegámos a alertar os pais de que era uma vergonha nunca termos posto os pés em Inglaterra... Acontece que o vinho do Porto, nessa altura, vivia um período muito difícil e simplesmente não havia dinheiro para viagens... Só fui aos 12 anos e fomos de carro, um Peugeot 304, com os quatro filhos enfiados no banco de trás... A verdade é que nasci e fui criado aqui e as ligações ao Reino Unido cingiam-se às origens da família. Ora essa mesma família tem acompanhado os ciclos bons e os maus do vinho do Porto e nessas décadas, 1940 e 1950, não dava quase nada. Havia mesmo quem questionasse o meu futuro, dizendo-me que, depois dos estudos, não valeria a pena voltar para algo que ia acabar... Acontece que em 1963 houve um vintage muito bom, marcante, icónico não só pela qualidade mas também por ter dado a volta ao mercado.

Que contrastes encontrou nessa primeira viagem, habituado que estava à realidade do Porto e apesar de aqui frequentar o Colégio Inglês?

Foi tudo muito excitante, ver as lojas com brinquedos, as luzes, ir ao Palácio de Buckingham... Lembro-me ainda hoje de termos ficado num hotel de três estrelas perto de Sloane Square e do barulho constante nas ruas... Era muito diferente daquilo a que eu estava habituado. Gostei, mas confesso que me senti estrangeiro, por todas as diferenças. Depois, no ano seguinte (1966) fui para lá estudar, para um colégio interno, e o choque foi ainda maior. Normalmente, os miúdos entram nesses ambientes aos 8-9 anos e aos 12-13 passam para a escola principal - eu só cheguei nesta fase e, inicialmente, os meus amigos eram rapazes que também vinham de fora, de África, das ex-colónias britânicas. Tínhamos mais em comum... Não conhecíamos a TV britânica e os seus programas, não tínhamos visto os mesmos filmes. Os outros falavam de equipas de futebol que eu nem sabia que existiam... Não posso dizer que tenha gostado muito, achei muito formal... Até nos pormenores: lá, eu nunca fui Paul, fui sempre Symington, porque não se usavam os nomes próprios. Eu estava habituado a um calor familiar que, se calhar, era mais português. Os ingleses são mais reservados. Claro que fui criando um círculo de amigos, mas estava sempre à espera de voltar não só para as férias mas para aquilo que eu senti que seria a minha vida.

Nessa fase, nunca encarou a hipótese de estabelecer por lá a sua vida?

Não. Houve o 25 de Abril, que coincide com o meu ingresso na faculdade, que se traduziu em anos de enorme confusão, em que houve muita gente a sair daqui, a ir para o Brasil, houve uma enorme incerteza que era preocupante para o meu pai e para os meus tios, que estavam aqui na empresa, mas também para mim e para o meu futuro. Houve enormes dúvidas, com aquele ciclo das nacionalizações sem critério, quando líamos nos jornais que os trabalhadores só eram felizes na Albânia ou na Roménia... Felizmente, houve bom senso neste país. E houve uma pessoa, de quem se pode gostar ou não, que foi fundamental: Mário Soares. Tinha duas hipóteses: ou se chegava mais ao modelo que víamos no Leste da Europa ou se aproximava das democracias europeias. Penso que ele escolheu bem e evitou uma aventura que poderia ser muito complicada. Eu voltei em 1978 e, com alguns percalços pelo meio, fiquei com a ideia de que as coisas estavam no bom caminho.

Antes desse seu regresso, trabalhou um ano na banca...

Eu fiz um curso de Gestão (exatamente o mesmo que fez o Salvador Guedes, da Sogrape) e durante um ano tínhamos de trabalhar fora da universidade. Ora eu pensei que com 19-20 anos nunca me iam atribuir nada de muita responsabilidade. Nesse sentido, consegui ir trabalhar para Paris, o que me permitiu aprender melhor o francês e aproveitar para dar largas ao meu gosto por aquela cidade, por aquela gente e, já agora, por aqueles vinhos... Mas atenção: não foi nenhuma função de grande estratégia, foi um trabalho muito humilde.

Depois, passou por uma grande cadeia retalhista britânica...

Sim. Há uma tradição entre nós de fazermos algo fora antes de entrarmos na empresa familiar. Isto acaba por ser uma forma de evitar que se chegue cá e, sendo filha ou filho do patrão, se julgue poder fazer tudo... É importante passar por um patrão que de vez em quando nos dê um pontapé no rabo [risos]... Pode até nem ser justo, mas vale como uma aprendizagem.

A entrada na empresa familiar acontece por vocação, por vontade, ou porque o sangue já o determinava?

É-me difícil separar os dois aspetos... Eu adoro o Douro. De tal forma que acabei agora de regressar de três semanas de férias, que passei no Douro... Não o trocava por nada. Ou seja, havia uma vocação, uma tendência a que se somou um sentido de responsabilidade para com os pais, para com a família.

Tendo crescido como é sabido, a empresa mantém uma forte componente familiar. Há algum destino que esteja escrito para os membros da família?

Primeiro, uma empresa de vinho do Porto é algo de muito complexo. No nosso caso, mais ainda: só na parte agrícola, temos mais de mil hectares de vinha. São 2030 de terrenos e 1006 de vinha. São 27 quintas diferentes. O meu primo Charles já está a planear a vindima. Isto passa-se no Douro, que tem uma geografia muito própria: nós temos vinha no Pocinho e vinha perto de Lamego, levando duas horas para ir de uma à outra... Todos esses hectares já estão reunidos numa só empresa, no que toca ao pessoal, aos custos, aos tratores... Depois, aqui [na sede, em Vila Nova de Gaia], juntam-se um restaurante, uma loja, o turismo, 51 guias... Temos uma rede de distribuição, temos uma parte industrial que diz respeito ao engarrafamento, temos os vendedores... Portanto, a empresa é muito complexa e isso torna indispensável um grande número de pessoas. Não produzimos só o vinho... Temos dez diretores, o que pode parecer muito, mas não é. Por exemplo, nos engarrafamos anualmente 24 milhões de garrafas. Na direção, temos cinco membros da família e cinco que o não são. É importante esse equilíbrio, porque um gerente profissional que não seja da família pode trazer outros objetivos e outras perspetivas...

No caso da Symington, pode falar-se de uma ligação feliz?

É muito importante. Ao longo de quase quatro décadas no vinho do Porto, tenho visto muitas empresas familiares serem vendidas ou simplesmente fecharem... Cada um terá as suas razões e os seus métodos, como é óbvio, mas, para mim, algo corre mal se uma empresa é dirigida só por elementos da família. Muitas vezes, é preciso alguém que venha de fora e alerte para o que se passa no mundo "lá fora"... É muito saudável ter diretores que não sejam da família, e eu entendo mesmo que uma das minhas responsabilidades é dar-lhes a confiança para contrapor ideias às dos membros da família. Se isso não acontecer, vêm para aqui apenas obedecer e não é isso que se espera deles. Aqui, eles têm a possibilidade de contradizer os seus pares que integram a família.

Falou, lá atrás, num vintage de 1963 que funcionou como alavanca. Ao longo dos seus anos na empresa, pode falar-se de estabilidade ou tem havido solavancos, sobressaltos?

Felizmente, eu entrei numa época de grande expansão para o vinho do Porto. Se 1963 foi a luz ao fundo do túnel, pela qualidade do vinho e pela forma como foi vendido nos grandes mercados mundiais. Já falámos do 25 de Abril e das suas incertezas... Em 1977, voltámos a ter um vinho excecional. Depois, há a fase em que os americanos começaram a sentir o apetite para os grandes vinhos do Porto. Eu entrei em 1979, num momento em que essa expansão já assegurava a sustentação quase até ao ano 2000. Os volumes de vinho do Porto colocados nos mercados de França, da Holanda, da Bélgica, do Reino Unido, dos Estados Unidos e da Escandinávia traduzem-se quase numa linha reta, sempre a subir até ao ano 2000. Foi muito bom para mim, claro, mas não sou o responsável - o setor é que conseguiu esse período de grande expansão. Desde 2000 para cá, os volumes têm caído no vinho do Porto mais corrente, digamos assim, mas não nas chamadas categorias especiais, nos nossos topos de gama... Perdemos no rubi, nos Tawny"s, mas ganhamos nos premium, que representam cerca de 28% das vendas e, naturalmente, mais ainda em valor. Estando agora em 2016, claro que já abraçámos novos desafios... Mas eu tive a sorte de apanhar as décadas de 1980 e 1990, que nos permitiram um crescimento sustentado e a criação de novas oportunidades.

Esse decréscimo, desde 2000 para cá, atribui-o a quê? Foi o vinho do Porto que passou de moda? São as novas gerações que consomem menos?

Podia fazer-se um curso nas universidades de Trás-os-Montes ou do Porto sobre esse assunto... A realidade é que os vinhos generosos de todo o mundo estão a descer. Acontece com o Madeira, o xerez, com os vinhos generosos da África do Sul, da Califórnia, da Austrália, até da Hungria, os Sauternes de Bordéus... Deve dizer-se que aqui entra o aumento da qualidade do vinho tinto e do vinho branco, que têm substituído os generosos como aperitivo ou como digestivo. Por outro lado, o próprio modo de vida das pessoas tem influência: hoje são muito menos os almoços e os jantares mais formais, de família ou não, em que fazia parte do ritual servir um vinho do Porto. Hoje, as festas ou os churrascos fazem-se cá fora e o vinho do Porto fica esquecido na sala de jantar... Temos estes novos desafios. Agora, eu não partilho nada a ideia de que houve erros de marketing das empresas do setor. Isso é injusto para empresas como a Sogrape, a Noval, a Niepoort, a Ramos Pinto, nós - o problema tem de ser olhado de uma perspetiva mais global. Temos de aproveitar mais de três séculos de experiência e descobrir soluções. O pior de tudo seria ignorar que isto se está a passar e, às vezes, assusta-me aquela falsa solução que consiste em não falar das más notícias... Dito isto, estou confiante: nós, vinho do Porto, somos - talvez com Bordéus, com Champagne - uma das regiões com mais história no vinho e temos de aproveitar as lições do passado para melhorar a situação, sem ficarmos presos exclusivamente à tradição...

Isso passa por tentar modificar a produção ou o consumo?

Muito mais o consumo... Não há dúvida de que o Douro tem de chegar-se aos dias de hoje, em que já não está baseado na mão-de-obra barata, como acontecia até Portugal se tornar membro da comunidade europeia. Hoje, isso é impensável, até porque ninguém aceitaria continuar a trabalhar nessas condições. Agora, tendo a maior área do mundo de vinha de montanha (cerca de metade face ao que existe em todo o mundo), com os elevados custos inerentes e sem a camuflagem da mão-de-obra barata, temos de nos adaptar, até porque o trabalhador agrícola do Douro, que até já pode falar inglês, pode meter-se num voo low-cost e ir trabalhar para o Luxemburgo... Se não fixarmos essa gente, ficamos sem ninguém para trabalhar. Penso que estamos a fazê-lo. Ainda assim, a minha maior preocupação fica na área do marketing... Vamos a um exemplo: quem vem aqui, às caves (que estão há muito tempo no topo da lista do TripAdvisor muito por mérito do excelente trabalho dos guias que aqui temos), ouve falar de um vintage e de como é preciso decantá-lo. Decantar? E quem é que tem um decanter em casa? Isso exclui logo uma parte potencial dos consumidores e uma parte importante da nossa produção... Nós temos de pensar na forma como as pessoas vivem. Quem é que tem uma cave? E se guardar uma caixa de vintage num apartamento, quando aquecer a casa, no inverno, não vou dar cabo do vinho? O vinho do Porto tem de ir ao encontro da forma de viver das pessoas. Se ignorarmos isto, vamos ficar sem mercado. Não significa que não haja oportunidades: os Tawny"s, de 10, 20, 30 e 40 anos, não é preciso decantar e, ainda mais importante, são melhores se vêm ligeiramente arrefecidos... As pessoas adoram o fresquinho do champanhe, da cerveja, dos cocktails, que têm gelo - se o nosso vinho for servido só à temperatura ambiente já estamos a perder.

Choca-o a hipótese de ver o vinho do Porto seguir o exemplo de outras bebidas e aceitar ser misturado, integrar um cocktail?

Esse é um grande debate. Aí, o setor - e esta empresa não é exceção - está dividido. Por mim, mesmo tendo em conta que um cocktail tem uma forte componente de moda (há dez anos, dizia-se que o gin era uma bebida para os avós e hoje é o que se vê), mesmo que se olhe para os ingredientes como algo barato, quase industrial, sou mais pragmático: se o vinho do Porto se adapta a um cocktail de qualidade, porque não? Eu gosto muito de Porto tónico, que junta o Porto branco, água tónica e gelo...

Vamos fixar-nos no barato. Julgo saber que uma das suas preocupações prende-se com o vinho do Porto demasiado barato para ser rentável, até para o pequeno produtor...

Esse tem sido o grande problema do nosso setor nos últimos 30 anos... A lei obriga as empresas a manter em stock três vezes aquilo que vendem. Isso implica um enorme empate de capital. Ora, com o crescimento das grandes cadeias, o seu poder negocial - em França, Inglaterra, Portugal - é imenso. Se é posto em questão um contrato, claro que o produtor se assusta. Houve uma guerra, pouco saudável, entre as empresas para tentar segurar esses contratos, com prejuízo do vinho do Porto. Só recentemente é que esse problema foi ultrapassado, utilizando a figura do benefício, que se prende com a quantidade anual de vinho do Porto que se pode produzir. Entre a lavoura, o comércio e o Instituto do Vinho do Porto foi decidido, há seis anos, limitar a produção para equilibrar os stocks, o que permite ao lavrador ganhar alguma força nas negociações. Isto também se passa com o whisky e com o champanhe, em que também há grandes stocks... Resumindo: os períodos de grande produção são prejudiciais porque se perde poder negocial, que, pelo contrário, aumenta quando as coisas se equilibram.

Voltemos ao ano 2000 e à baixa dos números de parte do vinho do Porto. Ora foi em 2000 que a Symington apostou na produção dos vinhos de mesa...

É verdade, não há coincidência... Começámos na década de 1990 a estudar as potencialidades daquilo que se designa por vinhos do Douro DOC (Denominação de Origem Controlada). Revelou-se uma aposta certa: passados pouco mais de 15 anos, é fantástico aquilo que se conseguiu. Houve vários contributos. Desde logo, uma nova geração de enólogos, muitos deles formados na UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro), que começaram a poder fazer o seu trabalho, sobretudo no Douro. Inicialmente, era impensável sair do vinho do Porto. Mas havia espaço, além do Barca Velha... Agora, precisamos de tempo para afirmar os excelentes vinhos a nível mundial - um francês em Nantes vai a um restaurante com uma estrela Michelin e não é automático que na carta vá para um vinho do Douro... Mas estamos no bom caminho: sem romantismos, há um grupo de 20 ou 30 pequenos, médios e grandes produtores que estão a fazer algo fantástico. Isto envolve muito trabalho de campo com os sommeliers, com os clientes, com os donos das garrafeiras - e está a ser feito. Eu diria que o Douro está a caminho de alcançar algo de único: ser uma região conhecida a nível mundial por produzir dois grandes vinhos [o do Porto e o Douro DOC]. Isso é inédito! Por exemplo, champanhe é Champagne, o vinho branco que têm não serve nem para lavar o para-brisas de um carro... No Douro, o vintage já tem dois ou três séculos. Agora, há os grandes vinhos do Douro, vindos da Niepoort, da Quinta do Crasto, de Vale Meão, do Vallado, Alves de Sousa, o nosso Chryseia... Mas ainda estamos em fase de aprendizagem. Veja-se o caso das barricas, que têm de ser de carvalho francês e custam mil euros cada, sendo utilizadas apenas uma vez nos vinhos de topo: e o vinho deve ficar em madeira? 12 ou 24 meses? Ou 18? Depois, é preciso saber trabalhar com a Touriga Nacional, com a Touriga Franca, que todos os anos são diferentes... Mas já se vê a grande qualidade dos vinhos do Douro e, se conseguirmos afirmá-la em Paris, em Londres, em Berlim, até em Lisboa, que pensa mais no Alentejo, estamos no bom caminho.

A concorrência não é muito maior, dir-se-ia planetária, nestes vinhos?

A concorrência é enorme, mas há uma coisa que nos protege: eu olho para o meu iPad e sei que funciona bem, é sempre igual. No vinho, o consumidor não quer sempre a mesma coisa. E nós, nesta matéria, somos uma novidade... Ou seja, um computador ou um automóvel são comprados independentemente da origem - até há Volkswagens feitos em Portugal... Nos vinhos não é assim: o essencial é saber de onde vêm. O Douro tem a sua especificidade e nós temos de saber contar a nossa história.

Por absurdo, consegue imaginar o Douro como uma região exclusivamente de vinhos de mesa, abandonando o vinho do Porto?

Não! Tenho a ideia de que, dentro de uns dez anos, possa haver um novo equilíbrio, mas haverá sempre vantagem em apostar nas duas frentes. Agora, o Douro DOC está a crescer 8% ao ano em valor desde há cinco anos... É espetacular.

Há também uma outra componente que está em crescimento no Douro: o turismo, que é imediatamente associado ao vinho...

Muito associado. Conhecendo bem o Douro desde a minha infância, lembro-me bem da estrada entre a Régua e o Pinhão ser em grande parte de terra batida. Agora, passo perto de um restaurante onde se juntam os ricos da Europa... Ainda durante estas férias, fui lá almoçar e disse à minha mãe, que vai fazer 86 anos, que não consigo imaginar qual seria a reação do meu avô, que viajava por ali com toda aquela poeira, se desse de caras com um restaurante daqueles... Isto significa que a transformação do Douro é muito grande. Mas é indispensável que este crescimento seja compreendido pelas autarquias e que não haja a tentação de optar pelo turismo sem qualidade. O turismo de massas será uma asneira, tal como a hipótese de criar infraestruturas de pouca qualidade. Além disso, está aqui uma possibilidade de as aldeias deixarem de perder os seus habitantes. Nós abrimos um turismo no Bonfim - começámos com cinco guias, já vamos em nove, tivemos de instituir as visitas só com reserva, tanta era a gente que ia aparecendo... Convém dizer que os guias são todos da região, de Alijó, de Sabrosa, de Vila Real, da Régua, do Pinhão... Talvez isto possa inverter uma tendência de muitos anos e que se resume no que me disse um amigo, o padre António Reis, que confessou que só batiza no verão, filhos de emigrantes que vêm de férias, porque não há crianças locais... Em resumo, o turismo não só nos ajuda a transmitir a imagem dos nossos vinhos para o estrangeiro como traz dinheiro para a região.

No Douro, corre-se o risco de deixar degradar a paisagem, de confundir progresso com facilitismo?

Eu espero que não. Nós não temos praia... E quem vem ao Douro não quer apenas sol e mar, procura algo mais. Além disso, o turista fica no Douro uns três, quatro dias, não mais. Há que ter cuidado é com as infraestruturas... Por exemplo, o hotel de grande sucesso no Douro, que está sempre cheio, chama-se Casa do Visconde de Chanceleiros. É uma daquelas casas nobres que foram adaptadas, terá uns 20 quartos e as pessoas adoram. Tem piscina, tem ténis, mas é muito simples e aposta na beleza do Douro. Ninguém quer um hotel enorme, impessoal, com 300 quartos e um golfe...

Já comprou vinho ou uvas a um produtor para lhe salvar a vida?

Tenho de pensar nessa questão... Mas houve um lavrador que fez o contrário: no início da década de 1950, houve uma família - Serôdio, de Sabrosa, que ainda está ligada a nós - que se dispôs a passar vinho para o nosso nome antes da compra efetiva, antes de qualquer pagamento, para nós podermos cumprir o nosso stock mínimo. Ou seja, foi essa família que nos salvou a nós... A neta do lavrador trabalha connosco no Douro, o filho dele é o responsável pelo nosso engarrafamento, vai reformar-se em breve... Nós, com os lavradores, tentamos ajudar quando podemos, sem perder de vista o realismo necessário. Há pedidos que aparecem, para uma ou outra ajuda, mas são casos especiais. Este ano, por acaso, isso aconteceu: houve muita chuva, muita doença da vinha, muitos tratamentos e alguns lavradores não tinham meios para fazer face a tudo e pediram uma antecipação do pagamento. Acontece, mas não pode ser um hábito, até porque não queremos que os lavradores fiquem dependentes de nós.

Se tivesse podido votar no referendo que levou ao brexit, fá-lo-ia em que sentido?

Para ficar, sem qualquer margem de dúvida. Os meus quatro filhos vivem no Reino Unido e ficaram devastados com o resultado. Eu acho que foi um erro histórico, que resultou de uma falta de liderança catastrófica. Penso que, para satisfazer, para acalmar a ala direita do seu partido [Conservador], David Cameron foi completamente irresponsável. Se calhar, depois das férias, que custaram mais 12% com a desvalorização da libra, a maioria já estará arrependida da forma como votou. Também me parece que houve falta de liderança em Bruxelas, falta de sensibilidade, e temo que se esteja a esticar demasiado a corda face a alguns países, Portugal incluído.

Os seus filhos também vão entrar na empresa familiar?

A minha filha Charlotte já trabalha connosco há quase três anos e é responsável pelas vendas no Reino Unido. Vive lá e está a fazer um trabalho excelente, estou muito contente. Muito importante: ganhou o respeito dos colegas, independentemente de quem é o pai... O meu filho mais velho, Robert, também espero que venha para a empresa. Quanto aos dois mais novos [Louisa e Harry], logo se vê. Mas os meus primos também têm filhos e não podem entrar todos [risos]... Há um acordo que continuamos a respeitar: não entra ninguém da família sem um curso superior, com notas razoáveis, não é preciso ser um génio, e depois de trabalhar dois anos noutro sítio. Não podemos admitir "passageiros", digamos assim, precisamos de gente que se disponha a assumir todas as responsabilidades.

Será que acabam por ser ainda mais exigentes com as pessoas da família?

Penso que sim... Mas nós temos de concorrer com os melhores de Espanha, de França, de Itália. Nós fazemos parte de uma associação de empresas familiares da Europa, que tem um nome muito pretensioso - Premium Family Vini - mas que envolve empresas com muito prestígio (Antinori de Itália, Torres e Vega-Sicilia de Espanha, Rothschild de França, só para citar alguns). As reuniões anuais são ótimas: três dias em troca de experiências. Uma das grandes regras está exatamente no rigor que deve ser colocado nas admissões de familiares porque, além de trabalhadores, também acabam sempre por funcionar como representantes.

Hoje, sente-se mais britânico ou mais português?

É difícil responder... Às vezes, sinto-me confuso... Acho que preciso dos dois lados, senão falta alguma coisa... Tenho grandes amigos ingleses e grandes amigos portugueses. Mas, admito, não vou muitas vezes a Inglaterra, a não ser em trabalho, sempre com os vinhos atrás. Eu sou realmente uma mistura, não sou um monocasta [risos]...

Sente-se um homem recompensado? A questão passa pelas condecorações que o distinguem, por estar ligado a universidades...

Eu sinto que tive sorte. Não penso muito em termos financeiros, embora possa parecer fácil dizer isto, porque obviamente estou bem. Tenho um bom emprego, eduquei os meus filhos, tenho uma casa aqui em Valadares, onde vivo há 40 anos, e tenho esta linda casa no Douro... Mas não persigo - não quero - uma casa enorme no Algarve, ou um iate maior do que os outros... Com a idade que tenho, olhando para trás, julgo que entrei na altura certa, como já disse. Claro que me orgulho dos passos que foram dados por uma empresa familiar e pelo eventual contributo que terei dado ao setor. Como me orgulho pelo facto de o Estado português me ter condecorado, por todas as distinções... Eu não trocava isto por nada. Há desafios, há chatices, há negociações que chegam a ser brutais, no vinho, porque podem dar cabo da vida às pessoas por um ou dois cêntimos, sabendo que ali está a sua única receita. Esse elemento é aquele que não me vai fazer falta quando chegar à reforma... Lá está: se eu me reformar e conseguir o respeito daqueles com quem trabalhei - e falo dos tanoeiros, dos caseiros -, essa é a maior recompensa. Nós temos 570 empregados e é óbvio que não posso agradar a todos. Mas, e aqui também falo pelos meus primos, sair com o respeito da maioria das pessoas que aqui trabalham será muito bom. Depois do que aconteceu no setor bancário, em Inglaterra como cá, até com algumas pessoas que conheci, com enormes exageros do capitalismo e com os estragos que acabam por ser pagos por inocentes, sermos reconhecidos como pessoas que aqui trabalharam também a tempo inteiro, que não abandonaram os trabalhadores em tempos difíceis, que não enganaram, que tentaram fazer o melhor possível, isso já vale como recompensa.

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