Capicua: "Mulheres não são estimuladas para assumir posições de liderança"

Ana, Odd, Capicua ou Cap. Tanto faz. Tudo depende se está com amigos ou com pessoal dos graffiti ou do hip hop. Para todos, a rapper Ana Matos é uma das mulheres que se impôs num mundo que ainda é dos homens - o do rap

Os graffiti foram a sua primeira abordagem ao hip hop. Porque é que não optou pelo nome artístico que já tinha, Odd [ímpar]?

Muitas vezes acontece isso, as pessoas que vêm dos graffiti para o rap usam o mesmo nome, mas eu queria que fosse em português. Não fazia qualquer sentido ter um nome em inglês para a minha música. E para os graffiti escolhi Odd não só pelo seu significado, mas também pela parte gráfica. Tem um "O" e dois "d"redondinhos, o que tinha que ver com o meu estilo bubbles. E não fazia sentido trazer esse nome para o rap que queria que tivesse um significado claro, fácil de escrever. E, apesar de a palavra capicua ter origem catalã, é portuguesa e toda a gente conhece.

Como é que surgiu Capicua?

Quando comecei a fazer rap - normalmente todos os rappers escolhem um nome de código, é muito raro os que usam o nome do BI para o percurso musical - não tinha uma alcunha e acabei por escolher Capicua. Primeiro porque me chamo Ana, é um palíndromo e há essa ideia de ser uma capicua [palavras ou números que se leem da mesma maneira tanto da direita para a esquerda como da esquerda para a direita]. E eu gosto muito das palavras compostas e capicua vem do catalão cap e cua, o que significa cabeça e cauda. É um pouco a ideia de cobra de rabo na boca e achei muito pictórico, tem essa ideia do eterno retorno, o final que ao mesmo tempo é um recomeço. Achei que era otimista e soava bem e ficou.

E sobrepôs-se ao seu nome, mesmo fora do palco.

Depende. A minha família e os amigos que me conhecem antes do rap continuam a chamar-me Ana. O pessoal mais ligado à comunidade hip hop chama-me Capicua ou Cap.

Sou eclética nos meus gostos, mas sempre tive mais o pezinho na música negra

Ouvia música de intervenção, depois reggae, como é que chegou ao hip hop?

Em miúda ouvia o que os meus pais ouviam, os cantautores de Abril, todo esse património musical que marcou muito a minha geração. Nasci nos anos 1980, esta geração é filha de pessoas que viveram intensamente o 25 de Abril, o PREC, e que gostavam muito desses cantautores. Ouvia muito Fausto, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Zeca Afonso, etc. Quando comecei a escolher a minha música e, até pelo que se ouvia no meu liceu, comecei a ouvir reggae, não só os clássicos como outros músicos, nomeadamente reggae brasileiro. Foi o meu primeiro contacto com a música negra e, de facto, a minha incursão no hip hop antes de ser musical foi pelos graffiti.

Isso depois da adolescência?

Sim, também tem que ver com a década de 1990 e com as minhas primeiras manifestações. Comecei a interessar-me pelos graffiti, a dar-me cada vez mais com as pessoas que os faziam e, como os graffiti fazem parte dessa comunidade maior que é o hip hop, a ir às festas e a ouvir as primeiras bandas do Porto, como os Dialema, os Mind Da Gap. E havia o Comix às quintas-feiras onde nos juntávamos, éramos um grupo pequeno e que funcionava um bocadinho como uma tribo. Esse foi o meu percurso.

Não gostava de pop, nem em criança?

Nunca foi a minha praia. Gosto de música de uma maneira geral e sou eclética nos meus gostos, mas sempre tive mais o pezinho na música negra, na música alternativa. Nunca fui muito rockeira ou de pop, sempre gostei mais de funk, soul, hip hop, reggae, dub. Toda a música negra me diz muito, mas o que sempre me disse muito foi a música em português, embora quem ouve hip hop seja marcado pelos americanos. Também aconteceu comigo, ouvir muito os rappers americanos mas, de facto, o que me liga à música são as palavras.

Palavras em língua portuguesa.

Sim, sou apaixonada pelo Caetano Veloso, pelo Chico Buarque, mas também gosto de fado. Tanto posso ouvir os discos da Amália como logo a seguir ouvir o que se faz na minha geração, que está cheia de talentosos músicos que cantam em português e nos mais variados estilos musicais. Vivemos um momento muito rico na música portuguesa e acabo por ouvir de tudo, desde que a lírica me interesse e eu ache que seja de qualidade. Aquela coisa, "a minha pátria é a minha língua" faz muito sentido, até a nível musical. O que me alimenta são as palavras mais do que o género musical.

Quando é que começou a interessar-se pelo jogo com palavras?

Desde que aprendi a falar que tenho uma relação muito lúdica com as palavras. O meu pai - ainda hoje faz isso - gostava muito de dizer as palavras ao contrário e de declamar poemas de cor, achava muita piada. E eu, antes de aprender a escrever, gostava muito de lengalengas. Um dos meus livros favoritos acaba com uma lengalenga do macaco. Ouvia toda a história à espera do final e daquela lengalenga. Tenho recordações da primeira infância, momentos em que as palavras já eram muito estimulantes. Depois, quando fui para a escola primária, sempre foi muito claro para os meus professores e os meus pais a minha vocação para escrever. Quando havia redações, escrevia a minha e a do colega do lado e, quando era possível, pedia para as escrever em verso. Uma professora até queria publicar um poema meu no livro da segunda classe. A disciplina que gostei mais de aprender foi Língua Portuguesa.

E desenhava bem?

Sim, desde que seja desenho livre. Sou uma pessoa muito expressiva de uma maneira geral. Tenho uma inteligência seletiva, coisas que envolvam pensamento matemático nunca foram muito fáceis para mim. Se me disserem um número elevado a 35 para mim é igual a dizer que Deus existe. Acredite ou não acredite, não compreendo. Coisas que exijam muito rigor, minúcia, paciência, não gosto muito. Sempre gostei mais das coisas plásticas, intuitivas, do pensamento humano, de filosofia, literatura, línguas, e o desenho mais livre e intuitivo. E mesmo depois de deixar de fazer graffiti, hoje no meu trabalho musical, gosto de recorrer às artes plásticas. As capas dos meus discos têm ilustrações, os meus concertos são acompanhados com ilustrações ao vivo, gosto muito da estética, da imagem.

Tudo muito visual.

A minha mãe costuma contar esta história que ilustra bem essa realidade. Quando fui para o infantário teve de preencher uma ficha em que se perguntava várias coisas básicas, e uma delas era: a que é que eu gostava de brincar. A minha mãe respondeu: "Ver imagens em livros." E, de facto, é verdade. Ela tinha aquela coleção de revistas de costura que se fazia nos anos 1970/80 e eu ficava horas a ver as fotografias, os desenhos, os anúncios, as publicidades, sempre gostei disso. E mantenho a ideia de, quando tiver tempo e paciência, fazer um curso de Belas-Artes.

Mas também gostava de escrever.

Sempre gostei muito de escrever, escrever as minhas rimas, os meus poemas. E fui para um curso de Sociologia em que se escreve muito, muitos trabalhos teóricos, e gostava muito dessa parte

Como é que passou da rima para os palcos?

Uma das coisas que me afligiam quando era miúda, e que só agora comecei a perceber o porquê e fiz a ligação ao que faço, era pensar que o que escrevia não ia soar com a mesma música quando lida por outros, não ia soar com a música que imaginei ao escrever. Tinha sempre essa angústia e acho que acabei por encontrar uma forma de resolver a questão. Se eu ler os meus poemas já pode ser com a minha música.

O hip hop é uma continuação da música de intervenção que tanto ouvia na casa dos pais?

Não sei se é uma continuação, mas encontrei ali um sentido, uma familiaridade. As primeiras músicas que ouvi foram os cantautores de Abril. E, para mim, sempre foi muito claro que a música está associada à palavra, que a palavra tem um protagonismo e não surge apenas como um objeto estético. Surge como discurso, como instrumento de mudança do mundo. E quando encontro o hip hop, vejo que a palavra tem esse sentido.

Por outro lado, tem um ar de menina bem-comportada que não encaixa na imagem dos rappers.

Estou um bocadinho longe do estereótipo, mas quem conhece melhor a realidade percebe que há uma grande variedade no meio, não só de estilos como de origens sociais, geográficas, com backgrounds diferentes. E o próprio público é cada vez mais diverso. O hip hop em Portugal amadureceu pela diversidade, por se pulverizar em muitos subestilos. Há tantos subgéneros e rappers com histórias e realidades diferentes que eu não sou assim um bicho tão exótico.

Há tantos subgéneros e realidades diferentes que eu não sou assim um bicho tão exótico

Alguma vez sentiu uma reação negativa por parte dos seus pares, por não corresponder a esse estereótipo?

Não, pelo contrário. O meio do hip hop é muito meritocrático. Quando mostramos trabalho, qualidade no que fazemos, os nossos pares tiram-nos o chapéu, nunca senti rejeição. Talvez tenha existido uma desconfiança inicial, mas pelo facto de ser mulher. É um meio de homens e tentavam perceber se era a sério, aquela desconfiança machista do género gosta de rap ou dos rappers. A partir do momento em se quebra essa desconfiança e se percebe que estamos ali para dar o nosso melhor, fazemos parte do grupo. E até acaba por ser mais fácil para nós, somos poucas e acabamos por ter mais visibilidade.

E fora da comunidade?

Onde senti mais o reforço desse exotismo em relação à minha pessoa foi na relação com os media, quando me abro ao público mais mainstreaming. Fazia rap mas era uma cena mais underground, a partir de 2012 com a saída do meu primeiro álbum [Capicua], percebi que o estereótipo é mesmo muito estreito. Que valorizam muito o facto de ser diferente dos outros rappers, e isso foi uma coisa que me incomodou, darem louvor à minha qualidade por ser diferente dos meus pares, o que é muito injusto. Venho dessa tribo, dessa comunidade, e devo-lhes a descoberta do meu talento e de poder viver do que mais gosto de fazer.

A Ana Matos tem um visual diferente da maioria.

Mas a ideia que as pessoas têm do rapper é muito fechada. Têm a ideia do puto do subúrbio que faz rimas contestatárias, dos graffiti, associada ao vandalismo, que é uma ideia preconceituosa e muito redutora. E mesmo que a realidade fosse só essa não seria menos importante, tinha o seu valor. É importante como forma de mensagem e de reportagem do que se passa nesses bairros. Além de que não se faz justiça à comunidade do rap em Portugal e da sua própria história. Nos anos 90 do século XX e até à primeira década do século XXI não era cool cantar em português e os rappers sempre cantaram em português. E falaram da realidade portuguesa, dos problemas que se passavam nas cidades, denunciaram as situações.

E, entretanto, apareceu mais gente e mais diversificada. Quem evoluiu mais, quem faz ou quem consome?

Os rappers também se foram profissionalizando e isso nota-se. Ainda há duas semanas, no Festival Super Rock Super Bock, houve um dia dedicado ao rap, o último, e foi aquele que esgotou. Convidei cinco mulheres para estarem comigo no palco: M7, Blaya, Blink, W-Magic, a T-Von, cantoras de gerações diferentes. A T-Von e a Blaya são mais antigas, a Blink e a W-Magic mais jovens. Foi um momento de grande emoção, do qual tenho um grande orgulho, e o público aderiu. Naquele dia, mostrou-se que não faz sentido estarmos a dividir a música em caixinhas, por critérios geográficos ou de sexo, que isso é muito desinteressante. Essa questão de que existem poucas mulheres no hip hop é verdade mas também acontece em outros géneros musicais. Mesmo no fado, as protagonistas são mulheres, mas depois toda a restante equipa é formada por homens.

A igualdade de género é uma das suas bandeiras?

Faz parte das minhas preocupações sociais e políticas. Os temas da minha agenda de causas estão sempre patentes nas minhas letras. Associo ao rap essa missão, a responsabilidade de passar a mensagem e de contribuir com a minha música para a mudança de mentalidades. E o feminismo é uma dessas causas, se calhar mais visível porque não só estão sempre nas minhas letras como na minha atitude, pelo facto de estar em cima de um palco, sendo eu própria. Sem criar uma persona, sem ser decorativa, sem pedir licença, e isso já é subversivo.

Subversivo porquê?

Não só na música como na vida em geral, as mulheres não são estimuladas para estarem em lugares de destaque, para conquistarem o espaço público, para assumirem posições de liderança, para darem opiniões, para serem desbocadas, todas características que são essenciais no rap e que estou ali a cumprir em palco e com muito orgulho. Aprendi no rap a ter orgulho em ser eu própria e faço-o com uma grande espontaneidade, o que não é aconselhável às mulheres. Algo que é tão básico como ter confiança para desenvolver os nossos talentos, se não tivermos a nossa autoestima no sítio vamos vacilar e desistir. A autoestima é a primeira coisa que se mina numa sociedade patriarcal como a nossa.

Sempre teve a autoestima no sítio ou o hip hop ajudou-a?

O hip hop ajudou, ajudou a ter essa espontaneidade, a sermos nós próprios e a estar num palco sem a ideia de que estamos ali para entreter e ser decorativas. E isso é muito libertador para uma mulher. Estou ali para fazer o meu trabalho, para fazer o que eu quero. Isso é uma coisa que aprendi no rap.

Em criança já tinha um pouco disso, contam as suas letras.

Obviamente, que desde miúda que sempre fui mais Mafalda do que Susaninha. Sempre fui de ter o espírito crítico, de questionar as coisas, de não aceitar um não como resposta. E depois há o percurso pessoal. Na adolescência, fiz trabalho associativo no SOS Racismo, militei no PSR que depois derivou no Bloco de Esquerda, toda essa escola em que os temas da igualdade de género e do feminismo estão muito presentes, o que acabou por contribuir para a minha formação pessoal e política. Também o facto de ter estudado Sociologia, uma área que desconstrói os papéis sociais, tem influência. Acaba por ser todo um bolo que contribuiu para a minha forma de ser.

Em miúda foi mais maria-rapaz ou Maria Capaz?

Sempre fui mais Maria Capaz. Gostava muito de cor-de-rosa, de coisas pirosas, de frufrus, tinha umas coisas pirosas.

Já não tem?

Às vezes dá-me um bocado para a piroseira. Cresci na década de 1980 e tudo à minha volta eram folhos, napas, ombreiras, tudo muito cor-de-rosa, arco-íris, a geração de hoje já não é tanto assim. Fiz a música Maria Capaz e dizia que era o significado de MC [termo com que se autodenominam os rappers e que quer dizer mestre-de-cerimónias], foi a minha provocação. Tem que ver com a ideia de que uma mulher para fazer rap tem de ser maria-rapaz, e eu digo: "Não. Tem de ser Maria Capaz, aliás MC quer dizer Maria Capaz." Sou eu a redefinir o significado do MC pela prática da mulher no rap. É uma brincadeira.

É uma rapper de causas?

Sou. As causas são importantes na minha música, mas não só. O José Mário Branco disse uma vez num debate uma coisa com a qual concordo. Há três pilares na música: a estética (o belo), a técnica (o ofício) e a ética (o que dá sentido ao trabalho da estética e da técnica).

Também foi por isso que escolheu o curso de Sociologia?

Eu queria estudar Ciência Política, mas o meu pai disse que isso afunilava muito a minha formação, que deveria escolher Sociologia, que era mais abrangente e, mais tarde, especificar. Acabei por estudar no ISCTE [Instituto Universitário de Lisboa]e gostei muito. Fiz a tese em Sociologia Urbana e depois fui para Barcelona fazer o doutoramento em Estudos Territoriais. Acabei por deixar a ciência política e não me arrependo nada. Sempre me interessei por estudos territoriais.

Porque é que diz que o hip hop não é sociológico? São observações diferentes, mas ambas da realidade.

O hip hop tem essa coisa de observar a realidade, mas é um olhar parcial no sentido em que tem pouco espaço para aquilo que a sociologia gosta de fazer e que é dar as diferentes perspetivas de um mesmo problema. E é sempre de uma grande complexidade. É nesse sentido que digo que o hip hop não é muito sociológico, é mais afirmativo. Vai procurar o que tem mais impacto emocional e vai fazê--lo de uma forma muito mais livre. Aliás, uma das críticas que fizeram ao meu trabalho musical foi que a formação se notava nas minhas rimas. Comecei a pensar nisso e cheguei à conclusão de que, se calhar, tinham razão. Se calhar tenho essas ressalvas, essa vertente de procurar as várias perspetivas e poder perder um pouco o impacto. Ando à procura da abordagem certa, para não ser redutora, para não ser simplista, e seria bom estar mais livre e não ter esse olhar tão condicionado.

Demora muito tempo para conseguir a frase perfeita?

Depende. Toda a gente no meio artístico diz isto e é bem verdade, às vezes é muito fácil ter uma música que se faz em duas horas, como Medo do Medo, que escrevi numa viagem de Intercidades Porto-Lisboa. Mas isso não quer dizer que não estivesse há semanas a pensar naquele tema e que a música não estivesse quase construída na minha cabeça. Outras vezes é uma luta, andamos a mastigar, deixamos para o dia seguinte, para reler com distanciamento, mudamos várias vezes. As duas formas são possíveis e não quer dizer que a que foi mais fácil seja pior do que a outra.

Inspiração e muito trabalho?

Sim, sim. Há um trabalho e uma técnica que se alimenta para quando a inspiração chegar termos as ferramentas na mão. É um pouco como os jogadores de futebol, muitos têm talento e não trabalham nada e outros compensam essa falta de talento com muito trabalho. Uma coisa sem a outra não existe.

Afirma que tem uma agenda política tão forte que poderia participar em campanhas eleitorais.

A única vez em que aconteceu foi na campanha do José Soeiro no Porto, mas não era só do Bloco de Esquerda. Envolvia várias organizações de independentes de esquerda e que participaram desde o início. Houve um envolvimento de todos, de grupos e subgrupos de trabalho, era um movimento de cidadãos. Toquei no evento dessa campanha e não me arrependo nada. E poderei voltar a fazê-lo se achar que aquela campanha me representa e que posso vestir a camisola, mas não é algo que seja fácil para mim. Tem de ter um grau de convicção e de afinidade que não é fácil de atingir, se fosse tinha o cartão de um partido.

Porque é que gosta tanto de escrever para fado?

Adoro, adoro escrever para fado. mas também gosto de escrever para outros géneros musicais. Do que gosto muito no fado é dessa coisa que é semelhante ao rap e que é a importância da palavra, o poema e a forma como se cospe o poema é muito semelhante. O poema não está ali para encher, é a matriz da música. Isso é o que me interessa no fado, interessa-me escrever para pessoas que valorizem o poema. E quanto mais conheço a pessoa mais fácil é escrever para ela. Atualmente, não estou a escrever só para fadistas, também para outras pessoas.

Quem?

Não posso dizer, mas vai haver surpresas.

E o contrário, escreverem para a Capicua?

Isso é impossível, porque eu não sou uma performer, não sou uma interprete, só estou ali para dizer as minhas palavras. Do que mais gosto é do momento em que estou sozinha a escrever a minha letra. Todo o trabalho de promoção, de tocar ao vivo, é para dar sentido a esse momento. Se chegasse escrever para mim, feliz da vida, mas para dar sentido ao que faço tenho de chegar às pessoas, mas esse lado é secundário. Às vezes acontece gostar muito de um poema e dizê-lo no palco, por exemplo, no meu concerto há uma parte em que declamo as palavras de Sophia de Mello Breyner e colo com o refrão da canção Liberdade do Sérgio Godinho. Mas esse momento surge como um complemento à minha música. É uma introdução para o que vem a seguir.

E o espetáculo Concerto Água e Sal em que diz outros autores?

Foi uma exceção em que fiz uma recolha de textos de vários autores portugueses sobre a água, é um espetáculo musical que fizemos para o São Luiz, e que até se calhar vamos repetir, mas estou a declamar. Outra coisa é alguém chegar ao pé de mim e dizer: "Tenho uma letra para ti", isso nunca vai acontecer. E, às vezes, há quem me ofereça letras.

Que projetos tem a curto prazo?

Duas coisas muito importantes e que irão realizar-se neste ano. Uma é um disco para crianças para sair no final de setembro, chama-se Mão Verde, com música de Pedro Geraldes e lengalengas minhas, é um disco e um livro. É um disco conceptual para crianças como motivação ecológica. Outra coisa é um concerto no CCB no dia 2 de dezembro. É a primeira vez que vou tocar com músicos ao vivo, com instrumentos, com uma banda que não tem o formato habitual do hip hop. Vai ser um alinhamento transversal aos meus discos.

Diz que não irá fazer sempre música. O que é que poderá fazer?

Muitas coisas e uma delas é agricultura, há muitos anos que tenho essa vontade de ir para um sítio mais pequeno e fazer produção agrícola, é uma possibilidade.

Mas já plantou alguma coisa?

Sim, tenho uma horta e interesso-me pela agricultura biológica, fico horas a catar ervas. Fiz um curso de permacultura e de agricultura biológica, a minha irmã tem uma produção agrícola, de groselhas. O meu hobby é a horta e a altura do ano em que é mais entusiasmante é na primavera e no verão, quando tenho mais trabalho. É frustrante.

Álbum no meio do doutoramento foi uma estratégia de salvação

Como é que se faz um álbum, o Capicua, no meio de um doutoramento?

Pode parecer difícil, mas foi uma espécie de estratégia de salvação. Quando se faz um doutoramento, a nossa saúde mental sai muito comprometida, é quase como uma maratona e é preciso muita autodisciplina para se conseguir trabalhar. Estamos sozinhos e a lutar contra nós próprios, sobretudo no meu caso em que estava com uma bolsa, se não saísse da cama, ninguém sabia. E encontrei na escrita desse álbum uma espécie de recompensa ao fim do dia e, se calhar, um escape. Quando se está com uma bolsa não há férias, não há fins de semana. Mesmo quando não trabalhamos, estamos sempre com um peso na consciência. É muito cansativo. Mas não consegui acabar o álbum, só depois de concluir o doutoramento.

Não quis continuar na área da investigação?

Pensei nessa hipótese e concorri para as bolsas pós-doc. Foi na altura em que houve cortes na Ciência e acabei por não conseguir a bolsa para continuar a estudar. E no dia em que tive conhecimento que não tinha conseguido a bolsa - uma coisa quase de filme - tive uma reunião com a Valentim de Carvalho em que eles manifestaram interesse no meu trabalho e em que assinei um contrato.

Se tivesse conseguido a bolsa teria recusado a proposta para editar a sua música?

Não. Se bem me conheço teria tentado fazer as duas coisas, o que seria muito difícil. Seria complicado gerir as duas situações, recusava as oportunidades para continuar a fazer a minha música e os concertos ou ficava a investigação para trás. Na altura, também pensei que se era para viver com instabilidade, que é o que acontece com quem faz investigação, com os bolseiros, o melhor seria investir naquilo em que gosto de trabalhar. E não andar de bolsa em bolsa.

De onde se conclui que houve alguém que beneficiou com os cortes na Ciência...

Não sei, isso nunca vamos saber. A verdade é que nunca pensei em viver da música. As coisas estão diferentes e, se calhar, os mais novos já pensam de maneira diferente, mas na minha geração era quase impossível imaginar que alguém iria viver do rap em Portugal, havia mas eram exceções. A música sempre foi uma coisa que gostava de fazer mas seria uma espécie de vida paralela. Os meus colegas não sabiam que eu tinha essa vida dupla. E continuo a pensar que vou fazer outras coisas na minha vida. Neste momento, estou numa fase muito boa, tenho muito trabalho e faço outras coisas associadas à música, mas não quer dizer que será sempre assim e que viverei sempre da música. Até porque há muitas outras coisas que quero fazer.

Nasceu e cresceu no Porto, estudou em Lisboa e em Barcelona. Sabe bem voltar a casa?

Sinto-me muito bem no Porto, a cidade tem bastante qualidade de vida e tem o tamanho ideal. Não é demasiado pequena e não é demasiado grande, com uma vida cultural muito interessante. Depois de tantos anos a viver fora, não há nada que me dê mais conforto do que passar o domingo à noite no Porto, não ter de apanhar o comboio, fazer a despedida. É o meu luxo.

Um músico já não precisa de viver em Lisboa para ter trabalho?

Precisa, e cada vez mais. Comecei na promoção da minha música em 2012 e com o acentuar da crise, de um álbum para o outro basicamente - de Capicua para Sereia Louca [2014] -, o número de entrevistas que dei no Porto diminuiu drasticamente. As redações foram cortando o pessoal, diminuindo os recursos, centralizando mais as coisas em Lisboa. Mas, mesmo em relação aos convites das estruturas públicas, tenho tido sempre mais para Lisboa, tem mais dinheiro, mais festivais. Esta é uma prova de como vivemos num país que tem tendência para ser monocefálico e só não é mais porque o Porto é uma cidade com massa crítica, iniciativa privada e vida cultural. É o que acaba por compensar. As pessoas que vivem fora de Lisboa têm de ser muito proativas e engenhosas.

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