Mariana Vieira da Silva: "É impossível garantir que um político nunca fará coisas inaceitáveis"

Mariana Vieira da Silva, secretária de Estado adjunta do primeiro-ministro, apontada como braço direito (ou esquerdo?) de Costa, é a primeira linha da coordenação do governo. Uma socióloga que não consegue pensar em si como "uma política" e cujo plano de vida é "ser boa pessoa"

Aos 38 anos, ser referida como "jovem secretária de Estado" surpreende-a. Como a maça que haja sempre, nas entrevistas, uma pergunta sobre como é governar ao lado do pai , o ministro da Segurança Social. Esta (entrevista) calhou entre dois períodos de férias e antes do escândalo das viagens dos colegas a convite da Galp, mas, premonitoriamente, afirmava já: "Nunca preservaremos a classe política de todos os atos, é impossível garantir que ninguém fará coisas que consideramos inaceitáveis. E portanto só temos dois caminhos: procurar, individualmente, ser o mais íntegros possível e definir até ao limite aquilo que na lei consideramos que tem de ficar estabelecido, que não está sequer na margem de autonomia."

Team Hillary desde 2008 - Obama foi-a convencendo ao longo do mandato -, esta ferrenha do Sporting, dos blogues e do Twitter (que não abandonou nem prevê abandonar) recusa-se a aceitar a possibilidade de uma vitória de Trump. A pouca participação das mulheres na política é dos enigmas que mais a intrigam; a falta de perspetivas laborais e de expectativas dos jovens das suas maiores preocupações.

Nadadora de competição durante a juventude, especializou-se no mais difícil dos estilos: mariposa. A disciplina e a capacidade de suster a respiração durante muito tempo hão de dar muito jeito agora. E ajudam a explicar a serena dureza que por vezes se vislumbra sob o tão doce sorriso deste rosto de menina.

Quantas vezes por semana nada?

No início deste governo nenhuma; neste momento duas. Quando vou durante a semana é mais rápido, ao fim de semana, uma hora ou mais.

De que sente mais falta nesta vida?

De pensar. De não estar tão dependente do telefone, de refletir sobre as coisas, dormir sobre os assuntos.

Atentados sortidos na Europa, a Turquia em estado de sítio, Trump nos EUA. E em Portugal, pela primeira vez , a aliança de esquerda de que praticamente toda a gente já desistira, um relatório do FMI a desfazer o ajustamento português, a UE a deixar cair as sanções. Como na primeira frase de um romance de Dickens: "Era o pior dos tempos e era o melhor dos tempos." Pende para qual?

Como estamos em semana de convenção democrata [nos EUA; a entrevista foi a 29 de julho] tenho muita vontade de dizer "sim, conseguimos". Porque num momento difícil conseguimos construir uma coisa diferente, que nunca tinha existido, e com isso tentar contribuir para que os tempos sejam um bocado menos difíceis em Portugal e para que a radicalização a que se assiste um pouco por todo o lado aqui se transforme num consenso que é novo, numa capacidade de compromisso que é nova. E portanto sinto um grande contentamento - é a palavra - por fazer parte de uma coisa que muitos esperávamos.

Esperávamos? Pensava que era possível antes de ser possível?

Não tinha uma visão fatalista. Parecia-me muito difícil mas acreditava que nas gerações já menos presas ao pós 25 de Abril fosse sendo progressivamente possível.

À frente do PCP está Jerónimo de Sousa, com 69 anos; António Costa tem 54, está no PS desde os 14 e esteve na Fonte Luminosa em 75.

Sim, mas não sinto isto como uma coisa que achava impossível. Talvez tenha que ver com os percursos individuais. Sou de uma escola, o ISCTE, onde essa convivência entre esquerdas sempre existiu. E isso derruba alguns muros nas cabeças.

Ou ergue. Escreveu num post, sobre o 11 de Setembro de 2001, que havia pessoas a sorrir no corredor da faculdade em que viu a segunda torre cair, e que decorou as caras. Crê que essas pessoas ainda sorriem em 2016?

Algumas coisas que estamos a viver agora tornam mais difícil perceber qual o lado certo e errado. Sucedeu na Primavera Árabe e mesmo nas primeiras horas do golpe na Turquia. Mas naquele momento, em 2001, era tão evidente que havia um lado para estar e um lado para não estar que me chocou. Creio que naquelas cabeças que sorriam havia uma estreia do sentimento de vencer os todo-poderosos. Agora já não haveria o mesmo júbilo, acho.

Até porque a ameaça já chegou a quem sorria. No mesmo post, escreveu também que o 11 de Setembro é o momento definidor de uma geração, como o 25 de Abril foi doutra(s). Mas é uma derrota. E que "algures teremos de ser capazes de encontrar uma vitória em relação à qual nos queiramos situar. (...) além daquela de sabermos que estamos do lado certo do nós/eles; no mundo, e naquele corredor." Que vitória poderá ser?

Estava a falar de uma coisa que a minha geração, filha de pessoas que tinham 20 anos no 25 de Abril, sentia, que era a sensação de que estava tudo conquistado. Claro que as pequenas vitórias civilizacionais, de direitos humanos, sociais, vamos tendo. Mas aquela grande vitória era difícil. Escrevi isso em 2011, nos dez anos do 11 de Setembro. Agora acho que se conseguirmos, em Portugal, passar ao lado dos movimentos populistas que arrasam a Europa sentirei isso como uma grande vitória.

Qual a explicação que encontra para Portugal estar imune, até agora, a esse populismo e radicalidade que grassam no mundo?

A existência do PCP e a sua consistência tantas vezes criticada terá contribuído para isso. E talvez algumas coisas que geralmente achamos que não são boas.

O conservadorismo?

Sim. Medo do que é novo e da mudança radical. Mas julgo que é também uma prova de maturidade democrática que surpreendeu um pouco toda a gente e que pode ser muito importante para construir um novo mapa de possibilidades.

Não haverá também uma espécie de resignação face ao que há? Na linha do que disse em anteriores entrevistas sobre a ausência de reação ao anterior governo.

Convencemo-nos enquanto povo de uma determinada explicação em relação a tudo o que aconteceu, o que fez com que aceitássemos de forma mais tranquila um conjunto de imposições exteriores. Mas acho que não teria sido tão tranquilo se o PSD e o CDS não tivessem assumido esse discurso como seu, ajudando a que os alinhados com aquela área política tenham assumido e o resto tenha achado que era preciso.

É team Hillary ou era team Bernie?

Sou team Hillary desde 2008. Não foi imediata a minha conversão ao Obama, porque sinto mais afinidade com a forma como Hillary Clinton se apresenta, propondo as suas políticas, as suas soluções para os problemas - não necessariamente afinidade com as propostas em concreto mas com a postura, a de dizer "temos estes problemas e há estas soluções, umas foram testadas, outras não". É a minha escola, aquilo que faço. E sinto mais distância em relação a discursos emocionais e mobilizadores como o de Obama. Mas fui-me progressivamente convencendo e acho que vamos todos ter muitas saudades dele. Acho que soube depois na sua governação mostrar esta lógica de pequenos passos que vão convencendo as pessoas das soluções para os nossos problemas e incrementalmente ir acrescentando esses pequenos passos. O que vi no discurso de Hillary [na convenção democrática] foi que se mantém fiel a essa lógica programática num tempo em que isso ainda é mais difícil do que já era em 2008, porque as pessoas querem muito aquela coisa emocional, que não precisa de ter propostas concretas, nem soluções.

"Let"s make America great again."

Pois. Uma pessoa imagina um debate entre Hillary e Trump, e pensa: como é possível, um debate entre aqueles dois discursos? Um que não diz nada, e outro que apresenta propostas concretas. Como vai ser?

A que atribui o êxito de Trump?

Era preciso conhecer melhor a América do que conheço para responder. Mas há uma coisa que é comum ao processo do referendo britânico e a coisas que vivemos - e mesmo, num certo sentido, ao discurso do partido espanhol Podemos -, a de que é possível fazer diferente. Como diferente, que diferente, quanto diferente? Ninguém sabe muito bem. E o êxito disso deve-se a um certo descontentamento que as pessoas têm, de não verem aquilo que acham que lhes foi prometido: que viveremos melhor que os nossos pais e os nossos filhos viverão melhor que nós, e assim sucessivamente, numa perceção de melhoria. Podemos rebater, dizer que agora há mais 20 milhões de americanos com acesso à saúde, que foram criados não sei quantos mil empregos. Mas se a perceção que as pessoas têm, que é marcada por muitas coisas, for de deterioração...

Perceção que começa nos media.

Sim. Mas também é preciso ver que posso viver melhor que os meus pais em muitos aspetos, mas se não tiver estabilidade no emprego e pensar nisso como uma coisa essencial, posso ter a perceção de que vivo pior. E creio que sucede a muita gente, ali nos 40 e poucos anos: ainda faltam muitos anos de trabalho e sentem uma instabilidade quando já não esperavam sentir. E depois há as questões factuais: as desigualdades que efetivamente existem, a perceção sobre essas desigualdades, o sentido de injustiça, de inveja. Afinal - e isso é muito importante no brexit - prometeu-se que com a globalização vinham apenas coisas boas mas há um conjunto de derrotados, de pessoas que perderam o emprego porque a produção industrial foi para outro lado do mundo e se sentem vítimas.

Tanto em Trump como no brexit há uma forte componente xenófoba e racista. Ainda mais chocante nos EUA, porque surge depois de oito anos de um presidente negro, como em refluxo. Vem de onde?

Uma parte esteve sempre lá, adormecida. A outra parte só existe quando as pessoas se convencem de que a razão pela qual não têm emprego é porque há imigrantes. E é mais fácil não ter vergonha de dizer quando alguém aparece todos os dias na TV a dizer. Naturaliza-se. Há um vídeo extraordinário da campanha da Hillary Clinton que é filmado de trás da cabeça de crianças que estão a ver TV, para pôr a pensar sobre se é mesmo aquilo que queremos que as crianças, o futuro de cada país, veja como normal, se é o exemplo que se quer dar. Creio que é preciso ver muita TV nos EUA para perceber o que ali se passa.

Há quem veja o fenómeno Trump como uma reação ao discurso dito "politicamente correto". No sentido de que não tem mal dizer coisas que ofendem as pessoas.

Não sei. Acho que o maior perigo de discursos como o que Obama fez é que, se as pessoas sentem que há coisas para mudar, um discurso muito otimista não fala para ninguém. É preciso falar para essa necessidade de mudança. Trump aproveita-se do fim de um período com muitos sucessos e de um discurso de que "estamos muito melhor" e fala para quem não está muito melhor. Esses precisam de uma voz, têm aquela, habituaram-se a ela e seguem-na. O que era uma coisa que não esperávamos, que parecia impossível. E continuo a achar impossível, que será derrotada.

Que faz exatamente uma secretária de Estado adjunta?

É uma pergunta difícil mas à qual quem estudou sociologia já está mais ou menos habituada - porque se pergunta também o que faz um sociólogo. Faz aquilo que é preciso para apoiar um primeiro-ministro na intervenção e coordenação do resto do governo. Saber o que cada um está a fazer, preparar informação sobre o que cada um está a fazer.

Como é ter a noção de que tudo o que se diz passa a ser "comunicação", com caixa alta?

Estranho. Principalmente nos apartes. Na véspera do anúncio do acordo [com BE, PCP e Verdes] pus uma música no Twitter e no dia seguinte tinha imensas respostas como se aquilo fosse um sinal. Mas era só a última música que ouvi antes de dormir , e partilhei-a no Twitter. Fiquei em pânico com todas as leituras que daqui para a frente serão feitas das músicas que oiço, a pensar: então agora é assim, que horror.

A informalidade e a instantaneidade do Twitter e do Facebook deve ser uma dor de cabeça para quem coordena a comunicação do governo.

É. Já vivemos um momento difícil.

O episódio com João Soares, que terminou com a demissão.

Sim. Mas procuro fixar-me nas vantagens. Num momento em que as redações estão muito mais pequenas há muitos ministros que não veem o seu trabalho acompanhado pelos media. O objetivo é que cada área do governo possa ter um espaço em que comunica diretamente - como as Finanças fizeram agora dizendo que 95% de todos os reembolsos de IRS já foram feitos, publicando os números e comparando com o ano anterior - e respondendo às questões. E essa capacidade de resposta direta é importante. É preciso construir isso com cautela e que as pessoas tenham cuidado com o que dizem, sobretudo com os estados de alma.

Já proibiu António Costa de mandar SMS a jornalistas?

Acho que António Costa é um primeiro-ministro com um grande conhecimento e respeito pela profissão jornalística. Mesmo.

Mas aquele SMS não correu bem.

Não era um sinal de desrespeito.

Era um sinal de fúria.

Não creio.

Ao preparar a entrevista fui ver se tem um perfil na Wikipédia. Não tem. Mas se tivesse diria "Mariana Vieira da Silva é uma política portuguesa". Pensa em si assim?

Não. Não. Porque sinto esta atividade como sempre transitória e porque cheguei aqui através de um conjunto de escolhas. E no fundo as coisas que me fizeram chegar aqui são as mesmas que me fizeram estudar sociologia.

Que coisas?

Compreender a forma como a sociedade se organiza e como se pode transformar, como as políticas são definidas, como é que as pessoas aderem ou não a elas. Como as pessoas olham para as suas trajetórias e as leem face às suas expectativas. E por isso sinto uma grande proximidade entre o que escolhi estudar e isto e o que faço quando não estou a fazer isto. Mas sim, neste momento sou uma política portuguesa.

Teve alguma fase antipartidos?

Não. Os meus pais eram militantes do Movimento de Esquerda Socialista (MES) que acabou pouco tempo depois de eu nascer e não foram militantes de mais nenhum partido a não ser muito tarde na minha vida. Mas nunca fui antipartidos, sempre tive bastante admiração por quem escolhe fazer parte de uma coisa da qual muita gente diz mal.

Como era no liceu, fazia parte das associações de estudantes?

Sempre. Desde o sétimo ano, quando achei que tinha de reivindicar uma sala para os alunos.

Inscreve-se no PS em 2002, a seguir à derrota de Ferro Rodrigues. Nunca se inscreveu na JS. Porquê?

Quando estava na associação de estudantes do secundário uma pessoa da JS que nunca mais vi tentou ir lá convencer-nos a entrar na JS. Achei que era "esta associação de estudantes já está ganha, passa a ser nossa", e não gostei. Hoje acho que era uma posição preconceituosa. Mas não tive vontade de pertencer. Fiz sempre a minha vida de associativismo estudantil próxima do PS mas não inscrita. Depois não me quis inscrever quando o PS estava no poder - parece que a pessoa vai à procura de alguma coisa. Fi-lo quando perdemos as eleições.

Estar num partido não limita?

Num partido como o PS não. Não sei como é num mais pequeno. No PS a tua visão é mais uma numa arena de debate, não me sinto limitada, nunca senti. Estou a experimentar os primeiros nove meses em que não posso dizer tudo o que me apetece.

Hesitou quando foi convidada?

Hesitei. Não concebo que não se hesite. Porque há sempre um momento em que a pessoa pensa se é capaz. E hesitei também por saber que ia estar confrontada com uma situação que não é simples, a de estar no mesmo governo que o meu pai.

É complicado?

Não é mas podia ser. E antes de experimentar não sabia como seria estar numa sala com mais pessoas nestas circunstâncias. Não é o problema de podermos estar em desacordo, porque sucede muitas vezes, mas por causa da situação formal com alguém com quem tenho uma relação de outro tipo. Mas é mais simples do que pensava.

O que é mais difícil, nisto?

Sentir que permanentemente tenho que saber o que está a acontecer. Olhar para esta entrevista e saber que já recebi muitas mensagens e que já podem ter acontecido imensas coisas e que não sei.

E nunca pensa "o que é que estou aqui a fazer?"

Ainda não aconteceu. Aquilo que penso mais vezes tem que ver com a natureza deste cargo, em que não há uma coisa visível que esteja a fazer. Não estou a tornar os manuais mais acessíveis para as crianças do primeiro ciclo, por exemplo. Não tenho uma coisa concreta. A minha tarefa é aquele programa, fazer com que seja cumprido, avance, passe bem, seja bem concretizado. E isso às vezes é difícil.

A coisa que mais me surpreendeu na política é a facilidade com que de repente só há homens

É das poucas mulheres de um governo que não respeita o mínimo de paridade (33,3%) que a lei impõe às listas eleitorais mas quer impor paridade aos conselhos de administração das empresas.

O governo como um todo, incluindo ministros e secretários de Estado, tem 32% de mulheres - tinha, tenho de fazer contas outra vez porque saiu uma secretária de Estado. Mas, nestes anos de proximidade com a vida política, a coisa que mais me surpreendeu é a facilidade com que num determinado contexto de repente só há homens, sem ninguém ter escolhido isso.

E sem ninguém reparar.

Mesmo quando se repara, a facilidade com que se caminha para essa situação... Há um percurso que acho que estamos a fazer e que tem de ser acelerado, mas era preciso que compreendêssemos melhor por que é que acontece.

Tem alguma teoria? Até porque no seu outro meio, o académico, há muitas mulheres.

É preciso perceber o que sucede no processo de poder . Não podemos deixar de achar que melhorámos quando olhamos para as fotos dos primeiros governos da democracia. Mas podíamos ter melhorado mais depressa. E isto é uma coisa nova para mim, não tinha esta consciência, mesmo com as quotas.

Não sente uma diferença entre a forma como as mulheres e os homens com exposição pública são vistos, julgados e apreciados?

Acho que há diferenças, e quando trabalhei com Maria de Lurdes Rodrigues senti mais isso, até porque o meu trabalho é mais resguardado. Mas acho que mais relevante e preocupante é o facto de as mulheres em Portugal, mesmo as mais jovens, não terem o mesmo à vontade para falar em público.

E virá de onde, isso?

Pode vir de quem manda lá em casa, da forma como ainda não se rompeu esta ideia de desigualdade na educação desde o início. Porque para uma mulher se sentir à vontade para mandar algo tem de ter acontecido no caminho. Não é aos 30 anos que se diz de repente: "Agora podes mandar". É algo que precisa de ser mais bem compreendido porque a dimensão é maior do que aquilo que parece pelos números.

Maria de Lurdes Rodrigues foi uma das governantes mais atacadas na democracia portuguesa. Que aprendeu?

Aprendi que não é por se ter um rumo definido com base nos princípios de valorização da escola pública como um espaço de maior qualidade e de isso ser um fator fundamental para ter um país com mais igualdade que chega para que esse rumo seja compreendido como tendo esses princípios na sua base. Ou seja, aprendi que é preciso convencer as pessoas de que aquilo que se está a fazer tem aquele objetivo e vai ter aquele resultado. Porque se as pessoas se convencerem de que vai ter o objetivo contrário...

Mas o problema ali também era, ou era sobretudo, que atingir esses objetivos passava por pôr em causa determinados adquiridos.

Acho natural que quando são invertidas regras consideradas boas pelos seus beneficiários haja reação. É assim com todas as políticas. Em algumas áreas as reações são mais visíveis - são mais pessoas. Para mim, o momento decisivo em que a coisa passou a ser difícil ou impossível foi quando se deixou de acreditar que aquelas mudanças, que eram difíceis, tinham o objetivo de melhorar a escola pública. O que permite que depois surja alguém a desfazer tudo com facilidade. Foi muito evidente para mim nessa altura que é fundamental a capacidade de comunicar e explicar e trazer as pessoas para o nosso lado, porque sem ela, e porque isto é uma democracia, felizmente, não consigo percorrer o caminho. Essa é a característica da política: fazer o melhor para o meu país e conseguir que as pessoas acreditem que é o melhor.

Estar com Maria de Lurdes Rodrigues e depois no segundo governo Sócrates implicou ser alvo do que só pode ser descrito como ódio. Compreende que se pessoalize assim divergências políticas?

Compreendo mal a irracionalidade de uma forma geral. Esteve quase a acontecer o mesmo com a reforma da saúde do Obama. E esses momentos em que, quando há uma grande força reivindicativa, se falha ou se desiste ou se é obrigado a desistir muitas vezes são marcados por essa personificação. É mais fácil combater a pessoa que as ideias.

Como lida com isso?

Não lido mal. Concentro-me em explorar o mais possível a dimensão racional, factual. Mas não era eu o alvo, e isso faz diferença. Mas falando do trabalho com Maria de Lurdes Rodrigues, desses quatro anos e meio, nunca é o ódio que recordo mas ser o período em que melhor liguei o que estudei ao que estava a fazer. E tenho muito orgulho de coisas que foram feitas e continuam e de coisas que foram destruídas, como o programa Novas Oportunidades. Sinto que me marcará para sempre o momento em que o primeiro ciclo deixou de ser uma coisa em que as crianças saíam à uma e depois os pais que podiam faziam-lhes alguma coisa e os que não podiam deixavam-nas em casa e arranjavam alguém que ficasse com elas ou mesmo ninguém.

Que balanço faz desse governo?

Foi um período - 2005-2011 - em que se definiu um conjunto de politicas de modernização do país - na relação com o Estado, na simplificação, na ligação entre ciência e economia, coisas muito importantes que fazem hoje parte da nossa vida como se não tivessem só dez anos - e ficou provavelmente marcado pela forma como acabou. A história tratará de distinguir o que é para ser distinguido: o bom e o resto.

Como é estar hoje do mesmo lado da barricada - soi disant - com BE e PCP, que chumbaram o PEC IV?

Acho que os quatro anos que vivemos depois deram razão a quem queria ter evitado aquele processo e tiraram razão a quem dizia que tanto fazia aprovar o PEC IV como chamar a troika para Portugal. Portanto vivo com a tranquilidade de achar que estava do lado que tinha razão. Quanto ao resto só tenho admiração por quem foi capaz de derrubar aquele muro que nos dividia. Acho que a realidade acabou por unir num mesmo objetivo, nesta altura, três partidos que noutros momentos tiveram caminhos diferentes.

Numa entrevista em 2014 disse: "Qualquer dia ninguém quer ser político." Imagina-se alvo daquele ódio?

É obrigatório imaginar quando se está próximo. E também é obrigatório saber que não sou eu e ter consciência de que deve ser diferente. Mas é uma função que por natureza nunca acaba bem: há sempre um momento em que se perdem as eleições. Mas creio que estou preparada, tenho consciência dos riscos. E assumo-os achando que é a contrapartida de poder ter o privilégio de tentar tornar o nosso país, a nossa sociedade, a nossa vida, numa coisa melhor. É um custo.

A única forma de combater a ideia de que os políticos são todos iguais é ter políticos que se distinguem por não seguirem certos caminhos

Têm sucedido coisas que vieram reforçar a ideia tão repetida de que "os políticos são todos iguais e andam todos ao mesmo". A saída de Durão Barroso da presidência da Comissão Europeia para a Goldman Sachs, de vários governantes para empresas próximas das áreas que tutelavam... E o processo Marquês, com a prisão preventiva de um ex-primeiro-ministro pela primeira vez em Portugal.

A única forma de combater a ideia de que os políticos são todos iguais é ter políticos que se distinguem por não seguirem certos caminhos. Acho que há uma dimensão individual de cada um perante essa questão que é de traçar para si os limites das coisas que nunca fará, o quadro que foi construindo como cidadão e a convicção de que nunca se fará nada que contamine esse caminho, assumindo que isso tem muitas vezes custos - coisas que não se pode fazer, sítios onde não poderá trabalhar, mesmo que por acaso se quisesse, o que não é o meu caso. Essa é a dimensão estritamente individual: definir o quadro moral em que nos encontramos. E depois há outra dimensão, que é: "O que é que podemos fazer para melhorar o quadro que regula isto?", "o que é que temos de deixar escrito que não se pode fazer, o que é que temos de dizer que nunca faremos e impedir na lei que alguém faça?". Acho que nesta segunda dimensão temos feito, enquanto país, um caminho de construção de incompatibilidades, de redução de coisas que eram consideradas privilégios inaceitáveis. Acho que nunca preservaremos uma classe como a classe política de todos os atos, é impossível garantir que ninguém fará coisas que consideramos inaceitáveis. E portanto só temos estes dois caminhos: procurar ser o mais íntegros possível e definir até ao nosso limite aquilo que na lei consideramos que tem de ficar estabelecido que não está sequer na margem de autonomia.

E crê que já se fez tudo na lei?

É um processo de construção. À medida que vão acontecendo coisas que consideramos inimagináveis, temos de ir, com tempo, agindo. Mas não sei dizer o que falta.

Por exemplo, isto que Durão Barroso fez deve ser possível?

Não. Até porque se garante a quem ocupa esse cargo um conforto de vida através de uma reforma vitalícia para que a pessoa não se sinta forçada a pôr em causa a imagem dessa instituição, e esta escolha põe.

As subvenções vitalícias, tão criticadas, têm também esse objetivo.

Fizeram mais sentido no início da democracia que hoje. Mas há casos como o do Presidente da República: que se pode fazer depois de ser Presidente? Se for um académico pode voltar à sua vida sem grande ideia de contaminação, mas quase tudo o resto é muito difícil.

Nos primeiros-ministros também é complicado.

Sobretudo daqui para a frente, à medida que vamos tendo primeiros-ministros mais novos, ainda com um percurso de vida pela frente. Mas construiremos soluções. Agora há outra dimensão da construção da imagem dos políticos também importante e que é sempre menos valorizada: dizer ao que se vem e prestar contas pelo que se fez.

Como viveu o início do processo Marquês?

Com surpresa. E com vontade de que aquilo que há para esclarecer seja esclarecido. É óbvio que foi uma situação difícil para quem é do PS.

Há entretanto factos que foram assumidos por Sócrates e que, não sendo crime, não eram do conhecimento da maioria.

Depois de muitos anos de muitas coisas nos jornais sobre muitos processos procuro não ter excessiva informação e tento, assumindo que a justiça tem o seu tempo, esperar por uma fase em que já não se esteja no diz que disse. Mas é evidente que me parece que a generalidade das pessoas ficou surpreendida com uma revelação que não era a história que se conhecia - a da riqueza familiar. Foi com surpresa que soube. E acho que todos, sistema de justiça, país em geral e o próprio beneficiarão do momento em que este processo se tornar mais claro, para que cada um possa tirar conclusões.

E os danos causados ao PS, já se terão esbatido?

É difícil dizer. Aquele período, ainda por cima num contexto pré-eleitoral, foi muito difícil. Creio que o PS esteve à altura da distância que precisava de impor face a esse caso e com o tempo e com a concretização dos nossos compromissos, com a normalização disto, acho que é um problema que se resolve. Mas é claro que existiram danos.

Sócrates já se terá queixado dessa distanciação da direção do PS .

Acho que o PS e o seu secretário geral fizeram a única coisa que deviam e podiam ter feito: dizer que aquilo que houvesse para investigar devia ser investigado, que devia ser rápido e se deviam respeitar os direitos da defesa, esperando que todos os princípios sejam garantidos. E aguardar.

Quais os principais perigos ou problemas que identifica na sociedade portuguesa?

A forma como estamos a tornar mais tardio o início da vida adulta das pessoas. Começam a trabalhar mais tarde, levam muito tempo à procura de emprego, muitas vezes pouco estável, muito precário, mal pago. Com todas as consequências que isso tem. Na natalidade, na participação política, no progresso - porque de repente temos as pessoas que mais estudaram a não conseguirem transformar a nossa economia. Esse para mim é o nosso maior risco, com estes riscos secundários associados - falta de participação, de desmobilização, de desafetação.

Alheamento. Portugal não tem os tais partidos extremistas mas tem uma coisa em comum com a maioria dos países ocidentais: altíssima abstenção - ou seja, espaço para o surgir desses movimentos oportunistas.

A capacidade de cada partido no quadro parlamentar explicar o seu caminho, as suas soluções, um confronto saudável em que não haja a ideia de que não há alternativa e as políticas sejam baseadas em factos, esse é o caminho para conseguir reaproximar ou não deixar afastar as pessoas, para que sintam que votar conta. Por isso seria péssimo que tivesse saído das eleições uma solução de continuidade, como sucedeu em Espanha. E é muito positivo que tenha acontecido uma coisa que reproduz a vontade da maioria de pessoas que foram votar. Porque se não correspondermos à vontade da maioria das pessoas é natural que esse afastamento cresça.

Que planos tem para o futuro, para além de acabar o doutoramento que em 2015 dizia querer entregar no verão?

Esse é o principal. E uma das coisas que fiz nas férias que já tive foi tentar voltar ao texto, que só precisa de uma revisão final.

Tirando isso, há algo que planeie? Viagens? Ter um cão?

(Ri) Não sou do tipo de pessoas que planeia o futuro, que tem o futuro organizado. Aliás, quando em 2015 me perguntaram se podia vir a fazer parte do mesmo governo que o meu pai acho que me ri. Na altura pensava em acabar bem o programa do PS e o meu doutoramento, agora penso em fazer bem o meu trabalho e conseguir ajudar a concretizar o que nos propusemos fazer. E depois, quero ser boa pessoa, contribuir para que o meu país funcione. E estar ao pé das pessoas de quem gosto. Não tenho outros planos.

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