Maria Rueff: "Nunca fui deslumbrada mas comecei com os melhores. Nunca pude falhar"

Ela é Idália, Zé Manel Taxista, Maria Rosa. Aparece e não desarma, faz-nos rir porque é ela. António e Maria, de Lobo Antunes, é a prova (de fogo) magistral da atriz que sofreu a crueldade dos anos dos retornados

A última vez que a vi em palco foi em António e Maria, no Teatro Meridional, uma interpretação extraordinária. Vai voltar a fazer?

Vamos repor no Teatro Meridional, que faz 20 anos. É uma das peças que o Miguel Seabra quer repor como parte da galeria dos trabalhos de que se orgulham. Eu orgulho-me muito. Será em 2017 e até lá vamos andar pelo país porque imensas câmaras a quiseram.

Sente diferença na reação do público em Lisboa e fora?

Não. O nome do António Lobo Antunes é querido no país todo e há pessoas de uma fidelidade de muitos anos. O seu grande público é feminino mas não só e também há muitos miúdos. Tem sido extraordinário. Um dos primeiros espetáculos foi em Bragança e apareceu gente de todo o Trás-os-Montes, o que me surpreendeu e comoveu. Fiquei comovida também por as pessoas não se importarem de me ver noutro registo e não saírem defraudadas. Mesmo as que foram - sabendo que era um texto de António Lobo Antunes - à espera de um lado mais cómico não se importaram de se deixar levar para outro lado. Tem que ver muito com a universalidade do texto.

São textos de Lobo Antunes coordenados pelo Rui Cardoso Martins e com encenação do Miguel Seabra. Quando vi, senti que a Maria ficava exausta.

Fico. Era um sonho que tinha há muitos anos. Eu sou leitora do Lobo Antunes - não daquelas fãs de puxar cabelos, mas li na adolescência a Memória de Elefante e era como se ele me tivesse emprestado a máquina de fotografar as pessoas comuns. Jamais lhe chegarei aos calcanhares e sou atriz, não sou da literatura que permite outros voos mais eternos. O que aprendi a ver com ele foi a tragicomédia da vida. Sempre achei piada ao taxista, à senhora da papelaria, ao primo de Viseu que fala axim. E depois ele mergulha mais na alma das pessoas e percebe essas pequeninas coisas em nós que são risíveis, e que estão sempre assentes em grandes fraturas. É a ideia do trambolhão: alguém cai, pode até morrer da queda, e a nossa primeira reação é rir, porque a pessoa perde a pose. Desde miúda fui atenta a isso e aprendi com ele a apurar o olhar. A minha tese de doutoramento como atriz seria dar corpo ao que ele escreve, e por isso este projeto fermentou durante tantos anos. A minha prova livre, no Conservatório, era um texto de António Lobo Antunes que está na peça. Foram anos até encontrar a pessoa ideal - o Miguel Seabra, que tinha conhecido no Conservatório. A linguagem poética e com humor do Meridional era o ninho certo. E, depois, o Rui Cardoso Martins que conheço desde o Público, com o qual tenho o percurso de trabalharmos ambos no humor. O Rui escreveu imensas coisas para o Herman e para mim. Alinharam-se os planetas.

Não fica farta de fazer o mesmo texto muito tempo?

Não. Eu disse logo ao Miguel: não quero representar, no sentido em que não quero que haja uma cortina entre mim e as pessoas. Gostava de que as pessoas vissem o manifesto de uma pessoa, embora não sejam as minhas memórias diretas. Como diz o Saramago, não é a dor mas a memória da dor, porque senão ninguém aguentava, ia-se parar ao hospital. Tem de se ter uma maturidade sobre as nossas dores para se conseguir fazer aquilo. Mas eu estou toda lá em cima: as minhas nódoas negras, tudo. Obviamente que me deixa exausta. Mas cada viagem e cada reação são momentos únicos, nunca me sinto a repetir. As palavras são as mesmas e de um rigor quase germânico: eu não acrescento nada, nem poderia, porque é literatura. Se substituo, porque na altura não me vem a palavra do texto, nunca mais fica igual, porque a escrita dele é tão musical que percebo que não é a palavra certa.

Tem 44 anos e começou no teatro aos 19. Estava no Conservatório?

No 2.º ano, ao substituir uma colega no Teatro Villaret numa "comédia de uísque" - comédias de sofá dos anos 1950 -, conheci o Armando Cortez, contracenei com ele e aprendi imenso. Foi um dos meus mestres, porque não entrávamos muito na segunda parte da peça e ele teve a generosidade de, no camarim, me dar aulas. Deu-me em fotocópias O Riso, de Henri Bergson, que tinha traduzido. Era um génio e não foi devidamente amado. Era um homem contemporâneo, ainda hoje, na maneira de representar, nos timings. Nessa peça estava o João Baião e decidimos fazer uma espécie de café-teatro em bares, que começou a ser falado. O Herman foi ver e a partir daí nunca mais parei.

No início, queria fazer comédia ou todo o tipo de teatro?

Eu não me levo a sério. Não é que não seja séria - e sou muito, até de mais - mas não espero muito da vida. Não sou ambiciosa no sentido de "tenho de fazer a peça x ou a personagem y". Fui para o Conservatório porque não entrei em Direito por uma décima. Tinha o sonho de ser atriz mas nunca montei teatrinhos em casa. No Liceu Gil Vicente fiz parte da associação de estudantes e formei o Grupo de Teatro do Gil e passei ali horas da minha adolescência. Nos anos 1990, ir para o teatro era ir para o degredo, eu achava que não havia hipótese de ter uma vida bem-sucedida. Foi a minha mãe que me disse: "Segue o teu sonho, vai experimentar. Porque não? Deixa lá o canudo." E eu: "Ó mãe! Mas o canudo...!" Havia aquela ideia de ter O Canudo.

Ninguém na sua família tinha seguido este rumo?

Não, era uma família tradicional que veio de Moçambique, uma família muito castigada. Crescemos no bairro da Graça, ao qual eu devo muito. Agora estamos a viver a história com os refugiados e o discurso é o mesmo: o medo de "vêm tirar-nos o pão, vêm tirar-nos o que é nosso, quem é essa gente?". Passei por isso tudo. Só há pouco tempo comecei a ter coragem de dizer que sou nascida em Moçambique e sou retornada. Sofremos muito e essa página ainda não está devidamente aberta e discutida. Por ser retornada, fui proibida de brincar no infantário, na Estefânia, com meninos brancos, e fui fechada numa cave com meninos de Angola. Portugal foi muito castigador. Mas os bairros de Lisboa eram pequeninas aldeias com uma solidariedade extraordinária. Vivi naquela rua, ali em cima...

A Travessa das Mónicas?

A Travessa das Mónicas, onde tive o privilégio de conhecer a Sophia de Mello Breyner e a Natália Correia. Eu era uma menina atenta. Íamos todos à leitaria - a Natália, a Sophia, o médico e a Mariazinha - tratavam-me assim. A senhora da leitaria nunca cobrou à minha mãe o rol da mercearia, era de uma bondade extrema - e era uma família numerosa, com dificuldades. Quando estou em baixo, venho à Graça e é como se viesse à minha aldeia, à minha casa. Como já me partiu muita gente - a minha mãe, dois irmãos -, sinto-me bem aqui.

Cheguei da Beira a Maputo e precisava de chorar 20 ou 30 anos, toda a família, tudo

Quantos irmãos são?

Somos seis. Dois já lá em cima e os meus pais também. Tenho muitas saudades deles. Nasci fora do tempo, sou a mais novinha, e apareci na fase da pré-descolonização - sou aquela criança que não dá jeito nenhum. À distância, percebo que o humor nasce em mim justamente como reação a uma família castigada de adultos - para não ser incómoda, a criança arranja o artefacto de fazer rir para aliviar aquela canga.

Vieram sem nada?

Com uma mão à frente e outra atrás, uma expressão muito portuguesa.

Tem recordações? Era tão pequenina.

Tinha 3 ou 4 anos, e lembro-me de tudo. A minha mãe era um general. Humanamente, a minha ambição é chegar-lhe aos calcanhares, Era uma mãe que, numa fila de retornados, para receber senhas para comermos corned-beef e coisas assim, deu os últimos mil escudos que tinha a outros num estado de miséria maior e disse: "Eu tenho a quem pedir." A minha vida é muito pautada por isto, por grandes valores, mas também sempre por uma componente de sonho e de esperança. Nos povos castigados há uma solidariedade, uma fraternidade... quando não se tem nada, nasce uma espécie de alegria sobre-humana e uma generosidade sem nome. E nunca se esquece, fica para a vida. Aquelas pessoas são irmãs na dificuldade e ficam sempre nosso coração. Recordo tudo isso da perspetiva da menina pequenina - por isso escolhi o texto do Lobo Antunes da menina que vê por baixo da mesa. Sempre tive esse olhar da criança que está a ver os adultos dessa perspetiva. Eu percebia a dor, percebia a minha mãe a somar água à panela para dar para mais não sei quem, e de ter muitas mantas pelo chão, anos e anos - enquanto houver chão para manta e teto, o que importa é que se alberguem as pessoas. Cresci nesta realidade, numa dificuldade tão acompanhada, com tanto amor, com tanta gente. Vejo hoje ansiedades, solidões e depressões tristes. Mas nós, no meio disto tudo, à noite jogávamos aos países e depois estava tudo a cantar e íamos para os santos populares, com uma alegria, sem ter quase nada. Sem ter nada.

Como organizaram a vida?

Com a minha mãe que foi uma heroína. Trabalhou a vida toda no Estado português. Ela trabalhava numa espécie de Gulbenkian da Beira, o Centro de Cultura e Arte, e cá foi colocada no Ministério da Educação.

O apelido Rueff vem de onde?

De um trisavô austríaco. Uma filha dele cantava ópera e conheceu no Brasil o meu bisavô, que era médico. Tenho muito orgulho nele, foi fundador do Hospital de Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro. Casaram-se e vieram para Portugal.

Porque foram os seus pais para Moçambique?

Porque a minha mãe era uma aventureira. O meu pai é de Cantanhede, o pai dele tinha uma livraria, era professor primário. A minha mãe achava aquilo uma pacatez para a sua energia e convenceu o meu pai a irem à aventura para África. Foram, dirigiram um hotel e, depois, foram para a Beira e adoraram. Filhos, filhos, filhos, uma alegria... Foi uma coisa muito inesperada, esta tareia, como foi para toda a gente. Até porque eles estavam perfeitamente integrados. Pude voltar a Moçambique com o Herman, em 1998, para fazer um espetáculo, logo a seguir às grandes convulsões. Ainda era perigoso voltar ao corredor da Beira, mas consegui ir com o Paulo Dentinho, da RTP, e com a consulesa. Pela primeira vez, juntei um cenário à minha história. E foi muito bonito. Fizemos um espetáculo em Maputo, estavam o Mia Couto, o Malangatana... O Mia Couto foi colega das minhas irmãs no liceu, achava que ia ver uma delas e depois percebeu que era a bebé. De repente, é como se o país de origem te devolvesse... Nenhum de nós - nem eles nem nós - queríamos ter-nos separado. Os povos são castigados por coisas que não estão nas suas mãos. E aconteceu uma cena muito bonita. Com todas as condições de segurança, estive na Beira, uma viagem extraordinária em que conheci a minha casa...

Ainda existia, a casa?

Muito destruída, ocupada, na altura. E reconheci o hospital onde nasci, a prainha onde brincava, o infantário. Tudo destruído. Fui guiada pela consulesa, uma senhora extraordinária. Cheguei a Maputo e precisava de chorar 20 anos, 30, toda a família, tudo. Pensei, "como é que eu agora estou sozinha? Eu preciso de estar sozinha!" - e pedi a um dos seguranças para entrar numa igreja, achei que ele não ia entrar lá armado. E ele entrou na mesma. Africano, moçambicano, preto, pousou a G3 no chão. Eu tive um ataque de choro e ele abraçou-me e disse: "Nós também temos muitas saudades!" E chorou, chorou, chorou. Isto é lindíssimo, demonstra a verdade. As pessoas não são as políticas dos países. Senti que vão ser precisos muitos anos de mercurocromo nesta ferida, tanto na deles como na nossa.

Já lá voltou depois?

Voltei com a minha filha Laura. A cidade já estava mais reconstruída. Nunca é muito sereno para mim, confesso, porque penso que teria sido uma mulher completamente diferente, com aqueles horizontes de África. Parece cliché, mas há uma sensação de liberdade. Talvez por isso, os retornados não tenham aquela característica portuguesa chata de ter inveja do quintal do vizinho. As pessoas que vieram de lá têm horizontes abertos: a mesa estava sempre posta, há uma bondade e uma entrega.

Foi importante a vossa vinda, para refrescar aqui o ambiente.

O país deixou de ser a preto e branco, não foi? A Laura chegou lá e foi como se estivesse em casa. Na praia havia uns meninos a fazer uma espécie de capoeira - uma dança parecida - e ela, como é acrobata, começou a fazer com eles. Integrou-se maravilhosamente. Eu tenho esta alma de gostar de todos e isso orgulha-me. Não tenho preconceitos em relação a ninguém. Pelo contrário, gosto muito dos marginalizados.

Isso também a ajuda a construir personagens? Um ator nunca é só o que aprendeu na escola nem aquilo que vê nos outros, é aquilo que traz.

Acho que sim. O Lobo Antunes tem a frase "sou muito grato ao meu calvário", sobre a experiência na guerra. E eu sinto isso. Se não tivesse tido este crescimento espinhoso, não teria esta sabedoria de alma de perceber o que é ter e depois não ter. Um fogo como houve agora na Madeira leva-te tudo e reduz-te a vida a quatro sacos. Ter essa noção dentro de mim, desde pequenina, abriu-me o espectro do entendimento humano, do que nos faz, dos nossos pequeninos poderzinhos, tão ridículos, porque não dependem de nós. E por outro lado os grandes heróis são...

... os do quotidiano?

Sim, pode ser a senhora da leitaria, que foi a nossa grande heroína. São esses que nos dão verdadeiras lições. Como atriz, sinto cada vez mais que tenho uma missão de servir, no sentido de mostrar, de espelhar. É isso que me encanta, não é fazer um artifício, fazer bonito.

Em 2014, fez no Teatro do Bairro um cabaré...

... o Cabaret Alemão...

... e até cantava Bertolt Brecht. O texto era de Luísa Costa Gomes.

Sinto-me muito orgulhosa disso, de trabalhar com portugueses.

Também não era o seu registo habitual de comédia.

Eu sou muito de verdade, preciso de verdade. Encanta-me estar apaixonada. Tenho tido o privilégio de só fazer coisas pelas quais me apaixono ou que me encantam com entusiasmo infantil. O Cabaret Alemão foi em plena crise e em plena crise artística: não havia humor na televisão, estava quase censurado, ainda que não se dissesse com todas as letras. Mas estava, de facto. Tinha necessidade de voltar ao meu centro enquanto comediante: "Não posso ficar calada perante esta situação." Procurei a ferramenta com um dos meus grandes irmãos, o António Pires, que adoro. Ele também veio de África, de Angola, e temos muito em comum. Precisei de voltar onde comecei, o café-teatro, e estar cara a cara com as pessoas a dizer, para quem quiser entender nas entrelinhas: está a passar-se isto no país, estão a fazer-nos isto, cuidado!

Há uma personagem sua que talvez seja das mais conhecidas, a Idália do Nelo e Idália, que se prolonga no tempo. É uma personagem criada por si e pelo Herman ou só por ele?

Aquilo nasceu de um improviso dos dois, numa altura em que fomos contratados pelo Emídio Rangel para a SIC. Pediu-nos alguns bonecos e queria fazer uma promoção. Num deles, o Herman ia fazer uma bicha, daquelas características de revista, e estávamos na rulote, no exterior. Ele ia vestir-se e disse-me: "Põe lá uma cabeleira e anda fazer de... Sinto-me sozinho, de bicha. É tão antigo!" E eu: "Podíamos fazer aquelas bichas casadas." E foi aquele êxito. Rebentou-nos nas mãos.

E é inesgotável.

É inesgotável e, na altura, foi importantíssimo. É por isso que eu amo o humor, porque põe a lupa no defeito. A partir do Nelo e Idália, muita gente entendeu aquela realidade. Entretanto, Portugal já evoluiu imenso, já há leis. Por acaso, a sociedade em algumas partes regrediu imenso e voltaram a existir não sei quantos Nelos e Idálias. Mas aquilo foi denunciador de uma situação e veio mostrar as mulheres que vivem estes casamentos com a dor imensa de serem mal--amadas. E eles a terem de disfarçar - também uma dor imensa... Ainda hoje temos cargos políticos em que as pessoas não podem assumir a sua sexualidade e têm falsos casamentos. E o Herman voltou à escrita, com o Nelo e Idália: era e é tudo escrito por ele. Há muitos anos que ele não escrevia, parece um presente dos deuses.

É preciso pôr-se a jeito, porque os presentes dos deuses não aparecem para qualquer um.

Nós trabalhamos muito. Magoava-me quando diziam "o Herman é preguiçoso". As pessoas não têm noção: "Só se conta a anedota com graça uma vez." É mesmo a profissão ou a arte que mais exige. "Mais! Mais! Já ri. Já vi. E agora? E outra?" O Herman esteve anos a fazer rir o país e a surpreender. E depois veio a crueldade: "Tu já morreste. Agora já não interessas. Venha outro!" É muito injusto dizer que não se trabalha. Temos de estar permanentemente atentos a novos tiques, a novas respirações. Estamos sempre a trabalhar. A minha filha, nas férias, dizia-me: "Ó mãe, para de trabalhar!" Porque eu estava na esplanada e: "Olha aquela mulher, olha como está vestida!" Estamos sempre a recarregar baterias e a pôr coisas no depósito.

O Herman, a Bola, o Monchique e eu somos irmãos, crianças grandes

O seu encontro com o Herman foi mais um presente dos deuses?

Foi mesmo. Tenho por ele um amor eterno, não tenho medo das palavras. O amor artístico é dificílimo de encontrar, é quase como um amor. É a pessoa que te entende: percebe a respiração, pressente, prevê, antevê o que vais fazer. Demorou muito até que eu o tratasse com à-vontade - não é de igual para igual, porque eu serei sempre uma pupila e sentir-me-ei sempre assim; só assim me faz sentido. Eu tinha por ele uma reverência! Quase não o encarava nos olhos. Ele foi muito delicado comigo e conseguiu com uma grande doçura, que é uma coisa que não se liga, normalmente, à imagem do Herman, perceber que sou muito frágil. Tenho este ar de carro de combate, mas tenho uma zona de sensibilidade. Ele sabia o quanto era importante para mim e como eu o endeusava. Foi engenhoso na maneira como me levou a dançar com ele e deu-me este privilégio de termos um pas de deux que dura há quase 17 anos.

Como começou tudo?

Ele foi ver-me nesse tal café-teatro. Eu não o consegui encarar nos olhos e fiz tudo na diagonal. Como aquilo era um barzinho, ele ia pondo o banco à frente dos meus olhos, ia mudando de lugar. No fim disse-me: "Quando eu tiver um programa de humor, venho buscar-te." E foi verdade. É uma espécie de sonho. Por isso a nossa relação é tão encantadora, é uma coisa de filme. Estive anos a achar que acordava e ficava a gata borralheira... Desde miúda o admirava, sem rir: ele aparecia nos programas e eu ficava num êxtase, a tentar perceber como fazia aquilo... E, de repente, entras pela porta grande e vais parar à sala...

Há qualquer coisa de alma gémea, não?

Acho que sim, mas parece um bocado pretensioso eu dizer isso. O Herman é um génio, no sentido de ter revolucionado este país. Mas o país é muito pequenino e depois há tudo o que a gente tem de fazer para sobreviver e lidar com o desamor... Em Espanha, os artistas são - caramba! - amados e mais do que amados, até morrerem.

São amigos de andar em casa um do outro?

Somos, somos. Tivemos anos e anos de amizade diária, de fazer comida às tantas da manhã, de rirmos perdidamente um com o outro. Somos irmãos. Aquela relação de irmãos mesmo, de lutas de almofadas, de rir que nem uns parvos... Somos duas crianças grandes juntas. Também sou assim com a Ana Bola e com o Joaquim Monchique. Essa alegria de crianças a brincar que passa para as pessoas é genuína, não se fabrica.

Essa relação com a Ana Bola também transparece para o público.

Aliás, na altura, o Herman não tinha programa e a Bola ia fazer um. Foi ela a primeira a convidar-me porque o Herman disse: "Pega naquela miúda." E pronto, entrei para a família. Os meus irmãos verdadeiros, de sangue, têm a mesma idade que eles, portanto é uma geração que conheço. A Bola costuma contar que eu lhe perguntei, com 18 anos: "Quem é o Bono dos U2?" O meu namorado, na altura, adorava os U2 e eu não fazia a menor ideia, porque em casa só ouvia Chico Buarque, Frank Sinatra. Aquilo, para mim, foi que nem ginjas. Eu percebo-os muito bem, tudo o que eles leram eu li, por causa das minhas irmãs, fui a todas as peças de teatro com elas. Foi mesmo passar da família biológica para a adotiva com os mesmos valores e as mesmas referências.

E continua a ter uma grande relação com as suas irmãs, funcionam como clã?

Nós já éramos muito tipo família Von Trapp: cantamos todos no Natal. Uma daquelas famílias grandes muito alegres e com um grande sentido de humor, de vida, de alegria, de força. Sempre que há alguma coisa de grave, há um toca-a-reunir e encontramo-nos todos. E isso mantém-se. Somos clã, de facto. Muito. Mas eu estive anos sem parar, com os diretos ao domingo, era tudo sempre a desoras. Parávamos no Natal, mas foram anos e anos e anos juntos nessa família adotiva.

Tem muitos sobrinhos?

Sete. E já tenho quatro sobrinhos-netos. Aliás, fui tia-avó antes de ser mãe. É um rancho.

A última vez que estivemos juntas foi num encontro, em Braga, sobre Fé e Arte e o tema da nossa conversa era a religião. E contou que tinha sido maltratada na catequese.

Na igreja da Graça, no tempo dos retornados.

E que isso a afastou da Igreja mas que agora reencontrou esse lado em si.

Reencontrei. É forçoso que quase todos os povos que passam por castigos fiquem pelo menos com fé. Há qualquer coisa de fé. Eu não sei explicar bem, mas no dia em que a conta está quase a zeros há uma espécie de milagre ou alguém veio e trouxe uma peita, como dizia a minha mãe que era da Beira Alta, e de repente tudo está melhor.

O que é uma peita?

Uma peita é uma oferta que se faz aos amigos. Não se vai a casa de ninguém com as mãos a abanar, leva-se uma peita - maçãs, uma galinha, qualquer coisa. Portanto, vive-se quase de pequeninos milagres. Não sei dizer de outra forma, mas tem que ver com uma fé qualquer. A peça do Lobo Antunes acaba exatamente assim: "Alguma coisa há de acontecer até amanhã de manhã." É essa fé, que eu não sei se é portuguesa, se é mundial, mas é essa nossa última esperança de que alguma coisa, algum remédio há de dar Deus. Sofri muito com as minhas mortes que foram quase sucessivas: o meu pai, há muitos anos, a minha mãe, o meu irmão João de uma forma inesperada. Eu amava o meu irmão, tinha precisamente a idade do Herman e era uma espécie de pai-irmão ou de irmão-pai. Depois perdi uma outra irmã. E houve separações e acabou o programa... Andei um bocadinho zangada com o céu. Mas depois foi surgindo dentro de mim qualquer coisa desse artifício de pequenino milagre. No ano em que eles partiram, por exemplo, houve o sucesso do Lar, Doce Lar, que me encheu a alma de alegria. Eu estava numa zona muito frágil e tinha a Laura muito pequenina - quando és mãe tens de estar com um sorriso na cara quando não te apetece de todo. Ao pé das grandes dores, isso não é nada, mas é só para explicar que há alturas em que tu te vais completamente abaixo e lá está o pequenino milagre. Houve ali qualquer coisa que me deu força e voltei a encontrar-me com Deus, com pessoas extraordinárias dentro da Igreja, e apareceu este Papa extraordinário. E isso reaproximou-me quase do início, da infância. Não sei explicar. Acho que é maturidade.

Voltou a casa, é isso?

Voltei a casa, voltei a mim. Nunca me subiu nada à cabeça, nunca fui muito deslumbrada, mas comecei com os melhores. Nunca pude falhar. Tinha de ter 10 na trave. Foi tudo muito rápido e sinto que precisava deste tempo para digerir toda a minha vida. A própria Igreja tem de se revolucionar, a nossa relação com Deus tem de se revolucionar, porque hoje é muito difícil não ser palpável, não ser concreto. É muito difícil as pessoas acreditarem em sonhos. Sempre fui uma sonhadora e sempre me agarrei a esses pequeninos milagres. E é isso que sinto, neste momento, com Deus. Sou muito grata aos milagres que sinto que me deu na vida. Sei os pecados que a Igreja tem, sei tudo o que ainda há para fazer, sei aquilo que está numa maravilhosa crónica do frei Bento Domingues: a mulher portuguesa quase se sente esquizofrénica na Igreja porque se, por um lado, quer lutar pelos direitos, por outro, é obrigada a um papel de submissão. O próprio Papa Francisco está a trazer isso à discussão. Não tenho ferramentas para falar sobre a Igreja. Tenho ferramentas para falar sobre esse Deus pequenino que, para mim, são os gestos de amor que vou encontrando na vida. Aos 44 anos, sou-lhe muito grata por essas coisas.

O que está a preparar?

Além das reposições do Lobo Antunes, em princípio, farei um novo programa com o Herman, a partir de setembro ou outubro - ainda não sei bem a data. Devo dizer que, neste momento, está a saber-me muito bem esta acalmia, porque foram cinco anos intensivos de teatro e de televisão sem parar. Estou assim mais serena.

Não fica aflita por não ter nada para fazer?

Não, porque tenho algumas coisas. Tenho a crónica de rádio, que mantenho na Antena 1, do Zé Manel Taxista. Mas sim, fico em pânico se sentir que não tenho nada para fazer. Como fui uma sortuda, porque tive sempre trabalho, não sei gerir como os meus colegas isso de estar seis meses parado. Angustia-me muito, porque adoro trabalhar, amo o que faço. Estou sempre a cozinhar coisas. Mas ainda estou sob a influência da peça do Lobo Antunes, foi outro encontro do universo, um milagre, ainda estou a saborear.

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