"Considero que esta nova geração de escritores não é assim tão extraordinária"

Após ter conquistado uma legião de leitores para os livros da Tinta da China, a editora Bárbara Bulhosa alargou a edição ao Brasil. Onde a presença da literatura portuguesa é quase inexistente, como era o caso de Sophia ou Agustina

O nome da entrevistada e o da editora Tinta da China confundem-se. Praticamente são uma única imagem na cabeça do clube de fãs leitores que adoram todos os livros, bem como a revista Granta, que Bárbara Bulhosa publica. Uma editora independente que consegue manter-se à tona entre o pouco espaço comercial que os grandes grupos deixaram no mercado livreiro em Portugal atualmente, que trouxe à luz do dia um punhado de bons autores e ótimos livros.

Na entrevista, diz o que pensa do mundo editorial de uma forma tão sincera que, gravador desligado, acha melhor suavizar algumas declarações: "Não quero ser morta pelas outras editoras." Nada que a deva preocupar, afinal disse umas verdades, aquelas que se forem tidas em conta podem evitar algum do cinzentismo editorial atual.

É comum achar-se que hoje não há editores em Portugal, mas sim marketeers e pessoas que publicam livros. Como é que se sente no meio desta realidade?

Eu não sei como é que as outras editoras ou grupos editoriais trabalham, mas na Tinta da China a ideia foi sempre sermos editores. Isso, para mim, não significa pôr uma capa num livro e mandar imprimir. Editar significa escolher os livros, aceitar ou não propostas, trabalhar diretamente e muito os manuscritos com os autores, de forma que cada livro encontre os seus leitores.

Há leitores para a Tinta da China?

Nós já sabemos que os livros não são para ser lidos por toda a gente. No caso da Tinta da China, fazemos livros para quem gosta de ler e os critérios de qualidade que impusemos a nós próprios são altos. Tanto na revisão editorial como com os autores linha a linha se for preciso, porque as pessoas podem ter muito boas ideias, mas não têm de ser grandes escritores.

Os autores, por norma, também não gostam muito que o editor dê opiniões sobre o que escreveram?

Não sei, eu nunca tive um problema com um autor português. Muito pelo contrário, das nossas sugestões em cada livro, 90% são aceites pelos autores. Não mudamos nada sem os autores concordarem, e costumam ficar gratos e reconhecerem o nosso profissionalismo. O objetivo é cada projeto dar certo.

A última palavra é sempre do autor. É quem assina o livro, a editora deve ficar o mais invisível possível

O autor português acata a opinião assim tão facilmente?

Sim. Aceitam, porque não fazemos alterações só por fazer. Aliás, só sugerimos, pois a última palavra é sempre do autor. É ele quem assina o livro, a editora deve ficar o mais invisível possível. Acho que só faz sentido continuarem a existir editoras com todas as tecnologias que temos atualmente porque um editor faz a diferença ao discutir o projeto desde o início com o autor, bem como nas várias leituras que vamos fazendo ambos. Portanto, são projetos com muita partilha.

Não é anormal em Portugal que muitos editores publiquem livros quase sem os ler?

Exatamente. No meu caso, os vários autores que vieram trabalhar connosco sabem que é assim que trabalhamos. Se eu fosse autora, sentir-me-ia muito mais segura se soubesse que alguém estava a olhar para o livro antes de ir para a rua. Afinal, no momento em que um livro está fora, quem vai sofrer mais com ele será o autor se as coisas não estiverem bem. Quando assinamos um livro com o logótipo da Tinta da China estamos a comprometer-nos com aquele livro.

Há autores que surpreendem ao entregarem um livro a 100%?

Todos os livros têm, pelo menos, gralhas.

Tal como quase todos têm um final falhado, sem força suficiente?

Nunca sugeri finais, o que digo é "não acredito muito nesta personagem", "este final não está bem conseguido" ou "este início poderia estar melhor". Ou seja, não faço sugestões diretas como alguns editores que dizem "agora esta personagem devia morrer". Isso cabe ao autor, porque deve sentir-se identificado com o que está a escrever.

Não concorda que os finais são fracos na maior parte dos livros?

Em termos gerais, considero que os livros deveriam ser mais trabalhados antes de serem publicados e que os autores deveriam ter mais tempo para os rever e pensar. Um bom livro só o pode ser depois de muito maturado.

O computador não veio dar um ar muito pronto ao livro, evitando que os autores o deixem a dormir na gaveta alguns meses?

É possível que isso se passe com alguns autores, mas conheço outros que não. Gonçalo M. Tavares publica coisas que escreveu há três anos, a Dulce Maria Cardoso demora muito mais tempo a rever o livro do que a contar a história.

O que é um bom romance?

Os grandes romances, aqueles que ficaram como os grandes clássicos, são os que têm ideias, muita qualidade e, ao mesmo tempo, emocionam, prendem as pessoas e conseguem interação. Isso é muito difícil.

Temos tido desses grandes romances em Portugal nos últimos tempos?

Depois de O Retorno [de Dulce Maria Cardoso], que é um livro extraordinário, há alguns de que gostei muito, mas considero que esta nova geração de escritores não é assim tão extraordinária no campo literário.

Porque não leram o suficiente, não praticaram o suficiente ou não deram espessura suficiente às personagens?

É preciso ver caso a caso, mas estamos distantes daqueles momentos históricos, como foi a nossa geração de 1870, em que há um conjunto de génios a produzir: Oliveira Martins, Eça de Queirós, Antero de Quental... Não é o que neste momento está a acontecer em Portugal.

Nem é preciso ir para tão longe, basta o tempo em que havia em simultâneo José Cardoso Pires, Lobo Antunes ou um Saramago, este com ideias muito fortes.

Por isso é que Saramago é um autor incontornável do século XX e ganhou o Nobel. Por trás de cada livro de Saramago está sempre uma grande ideia, que conseguiu resolver de forma genial.

Ele seduziu os leitores americanos, que é a melhor forma de medir um bom autor. Concorda?

Não sei se consigo concordar. Também traduzem o José Rodrigues dos Santos, portanto não estamos a falar de literatura, mas sim de livros. Aquilo que o Rodrigues dos Santos faz não é literatura, são livros eficazes, ou então não venderiam. Não é possível fazer uma comparação entre o José Saramago e o Rodrigues dos Santos, por acaso utilizam o mesmo instrumento.

Voltando a esta geração de escritores. À exceção de Gonçalo M. Tavares, que é ele próprio uma geração, porque não conseguem os outros surpreender?

Há autores que surpreendem os leitores. O Valter Hugo Mãe surpreendeu muitos leitores, o último romance da Alexandra Lucas Coelho é um livro surpreendente. Quando um escritor se assume como escritor e faz da escrita a sua vida, tem de ser tomado muito a sério, e eu faço uma distinção entre escritores e pessoas que publicam livros. Quantas pessoas é que nas belas-artes estão a apresentar obras extraordinárias? Quais são os músicos extraordinários que temos agora? A criação literária é como outra qualquer, só que sempre fomos muito focados na literatura. Ou seja, creio que devíamos relativizar um pouco ou estamos a pôr muito peso sobre os autores, o que pode ser injusto.

Talvez porque nunca houve um "grupo" tão grande de autores a publicar. Não os torna mais responsáveis?

O que temos neste momento é outra coisa, uma concentração editorial e, devido à abertura dos hipermercados, está instalada uma máquina de fazer livros que tem muito pouco a ver com literatura. Há que alimentar um público que não lia e que o começou a fazer por causa do sucesso da editora Oficina do Livro e da literatura light, com a Margarida Rebelo Pinto. Uma série de pessoas que não pegavam num livro passaram a ler nessa altura.

Os hipermercados são um perigo para a literatura?

Neste momento, vendem um terço dos livros em Portugal e o que a maior parte das editoras e grupo editoriais fazem é estar a alimentar esse mercado. Não estamos a falar de literatura, não estamos a produzir mais literatura, apenas a imprimir mais livros.

Em Portugal, publicam-se 14 mil livros por ano. Não é um exagero?

E houve um retrocesso no número de edições. O que se passa é que o mercado português funciona com essa ilusão de que os livros vão vender muito se estiverem bem colocados. Então, o que se passa é que as editoras estão sempre a receber devoluções! Como os livros têm todos direito a devolução, o que acontece é que se deixo de publicar durante seis meses só vou ter notas de crédito e nenhuma venda. É empurrar com a barriga ou as editoras vão à falência, porque não se vendem assim tantos livros.

Com edições de 250 ou 500 livros como agora é prática, há lugar nas grandes superfícies?

Normalmente, só têm livros em que acreditam como best-sellers e para se estar muito bem representado numa grande superfície é necessário subir muito a tiragem. Há editores que fazem isso, eu não. Só estou nos hipermercados com o Ricardo Araújo Pereira, o Gregório Duvivier e poucos mais, porque na maior parte dos livros que publico nem sequer faço tiragens para estarem nos hipermercados bem destacados. De qualquer modo, não considero que vendesse muito mais por isso. Defendo muito a existência das livrarias independentes, porque trabalho para essas pessoas que vão preferencialmente às livrarias e que gostam de ler bons livros.

A Tinta da China não é na edição um clube um pouco elitista?

Sim, claro. Podemos sofrer essa crítica porque é verdade.

Não estou a fazer crítica.

Não é bem um clube, o que aconteceu foi que ao começar em 2005 não tínhamos autores, nem desafiámos os de outras editoras para publicarem connosco. Fomos agarrar numa geração que ainda não tinha publicado muito, como o Rui Tavares, o João Pedro Jorge, o Pedro Mexia ou o Ricardo Araújo Pereira. Eram pessoas que admirávamos imenso, da nossa geração, em que acreditávamos para fazer um trabalho conjunto. Como é uma editora que não quer crescer muito em número de autores, para se entrar na Tinta da China há uma série de critérios, e como a editora é a gestora da empresa, quem corre riscos sou eu e não um administrador.

Não receia errar nas apostas?

Claro que sim, e já errei imenso. Se formos ao armazém, está cheio. Quando as coisas correm mal, a responsabilidade é minha e não da distribuidora, dos livreiros, dos jornalistas ou dos autores. Fui eu que apostei. Só tenho uma preocupação: não publicar para os amigos.

Qual é o critério que segue?

Publico um livro quando acredito que tem leitores ou pertinência política ou social. Um editor é também um agente de divulgação cultural e política e quem disser o contrário não compreende o que faz. Vivemos em democracia e é preciso honrar a profissão.

Foi por viver em democracia que publicou o livro Diamantes de Sangue, do angolano Rafael Marques, que lhe deu tantos problemas?

Nunca me passou pela cabeça que pudesse ser transformada em arguida e ficar com termo de identidade e residência por ter publicado um livro, principalmente porque sou filha do 25 de Abril e não sei o que é viver numa ditadura. Felizmente, foi tudo muito rápido, pois a partir do momento em que fui constituída arguida, a opinião pública achou inacreditável e o Ministério Público demorou um mês a arquivar. Conclusão: vivo numa democracia.

O livro do Rafael Marques não é um livro de difamação?

Não, é uma investigação rigorosíssima sobre um problema muito grave de direitos humanos. O seu relato tem os testemunhos de centenas de violações de direitos humanos, desde mortes a torturas, e é um livro no qual demorou muito tempo a conseguir a informação correta. Quando li o livro, também vi os documentos que provavam que aquelas pessoas eram donas daquelas empresas e quando o autor acusa os donos das empresas de serem responsáveis pelo que está a acontecer nas empresas deles, não é difamar ninguém. Seria se estivesse a dizer que alguém era dono da empresa e não fosse verdade, ou se estivesse a dizer que se cometiam crimes e não se cometessem.

Durou um mês, mas também só porque usou todas as "armas", designadamente a disponibilização online do livro.

A disponibilização online do livro só aconteceu quando o Rafael Marques estava a ser acusado em Luanda e a decorrer o seu julgamento. Aí, disponibilizei o livro online para que todos pudessem perceber o que estava escrito nele. E houve muito interesse, porque só no nosso site tivemos cem mil descargas do livro.

Se o tema não fosse Angola, essa polémica teria tanto "sucesso"?

Não, já tinha publicado um livro sobre violações de direitos humanos na China e não teve esta repercussão. O que me interessa são investigações rigorosas, feitas por pessoas competentes sobre assuntos que, enquanto cidadã, considero importante denunciar. O que aconteceu foi que quando o livro do Rafael Marques foi publicado venderam-se quatro mil livros. A partir do momento em que puseram o processo, venderam-se mais cinco mil. Ou seja, a maior publicidade ao livro foi feita pelos generais angolanos devido a processarem-me. Houve alguém que disse "isto é uma grande operação de marketing", o que me deu vontade de rir. Quanto ao livro do Rafael Marques, se tiver poupado uma vida que fosse, para mim é suficiente. E, vivendo numa democracia, é muito diferente, pois temos de fazer um trabalho sério tanto em democracia como em ditadura. Ser o mais rigorosos possível no que publicamos.

Por falar em ditaduras, vai editar o livro de Fernando Rosas Salazar e o Poder no Brasil. Há interesse?

Só sei que não há nada sobre Salazar, portanto faz sentido publicá-lo para os brasileiros poderem ler. Essas pontes são importantes porque o diálogo com os brasileiros não se pode resumir a Camões, Pessoa e Saramago. Não percebo porque é que os brasileiros não se podem interessar pela nossa história.

Também está a pretender editar na Tinta da China Brasil a Agustina Bessa-Luís?

Já editei. Tal como a Dulce, a Alexandra Lucas Coelho, o Pedro Rosa Mendes, Almeida Faria, Daniel Blaufuks e João Pina. Desde 2012 que estou pelo menos um quarto do ano no Brasil e isso faz que tenha outra sensibilidade. No caso da Agustina, apercebi-me de que não estava publicada no Brasil. Herberto Helder não sabiam quem era, nem o Eduardo Lourenço...

Em Portugal, poucos sabiam quem era Herberto até morrer...

Mas o Herberto era o poeta que vendia mais, sempre foi um poeta de culto em Portugal. O que acontece no Brasil é que não há um livro disponível da Sophia, daí que decidisse fazer uma coleção de grandes escritores portugueses: Agustina, Antero de Quental, Herberto, Eduardo Lourenço...

E vai encontrar esses livros bem expostos nas livrarias brasileiras?

Eles já estão nas montras, os livros da Tinta da China são muito bem tratados no Brasil. Os autores portugueses são muito mais bem recebidos no Brasil do que os autores brasileiros em Portugal. Por isso, também estou a trazer para cá autores brasileiros.

O Nelson Rodrigues, por exemplo?

Que nunca foi publicado por cá, que espero que vá correr muito bem ou será muito estranho. É um autor extraordinário e de culto.

Machista...

Machista, misógino, reacionário, aliás, isso é o que mais me fascina na personagem do Nelson Rodrigues, o facto de ser tanta coisa. Naquela biografia extraordinária do Ruy Castro, ele chama-lhe o anjo pornográfico. É uma personagem fascinante porque não se encaixa num tipo, e isso é que faz do Nelson Rodrigues algo extraordinário.

Atualmente, não é preciso distanciamento para o ler?

Sim, mesmo a sacanagem, aqueles contos da Vida como Ela É. Há uma coisa em comum, são sempre as mulheres que estragam tudo, umas malandras, enquanto os homens são sempre amorosos.

Estranhei que numa editora tão feminista o Nelson Rodrigues fosse aceite no clube!

Isso é uma ideia errada. A Tinta da China é uma editora que publica, eu, sim, sou feminista e, obviamente, não publico textos aos quais não reconheça qualidade, mas publico textos com que não concordo desde que não sejam racistas, xenófobos ou machistas. O machismo no Nelson Rodrigues é uma coisa da época dos meus avós. Não vou discutir com os meus avós a forma como eles viveram sempre. Discuto muito mais com os meus filhos ou com os meus namorados.

Não conheço nenhum autor com a densidade e polémico como o Nelson Rodrigues

Em Portugal, temos algum reacionário do quilate do Nelson que se justifique publicar?

Não conheço nenhum autor com a densidade, a consistência e ao mesmo tempo o ser polémico como o Nelson Rodrigues. Ele é inteligentíssimo, além de ter um humor extraordinário e brincar muito com ele próprio. É livre e gosto dessa ideia de liberdade. Aliás, nem sequer penso que era um reacionário machista. A editora não é feminista, como não é de esquerda, publica autores de esquerda e de direita, publica textos desde que tenham qualidade ou pertinência.

Não abdica dessa liberdade?

A editora não veste nenhuma camisola, eu sim, posso vestir e ser feminista, mas até ao dia em que os homens e as mulheres tiverem os mesmos direitos e deveres. A partir desse dia, deixo de ser feminista.

O politicamente correto deve ser revisto pois tenho direito a contar anedotas racistas ou homofóbicas

Reparei que no livro América, the Beautiful há um texto de António Ferro também muito machista...

O texto do António Ferro é maravilhoso e eu detesto o politicamente correto. É inacreditável que se altere o que alguém escreveu há 200 anos, como no caso do Mark Twain. A literatura e a criação também retratam o seu tempo. Como é que queremos estudar História se alterarmos os livros? O que é que Lolita do Nabokov está a fazer? É um livro a incentivar a pedofilia? Calma! Esta coisa do politicamente correto tem de ser muito revisto porque eu tenho o direito a contar anedotas racistas ou homofóbicas. Tenho o direito a fazê-lo em certo contexto e ninguém me pode prender ou processar. Ou de alentejanos, de loiras ou de mulheres ao volante. Eu sou a primeira a defender os direitos das mulheres, tal como defendo os dos homens.

Não há nada mais politicamente correto do que a nossa crítica literária!

Quando sai uma crítica muito má a um livro as reações são sempre muito negativas. Pergunta-se sempre: qual é a necessidade de ter escrito isto quando há tantos livros bons e podia ter escrito sobre eles? Eu defendo a liberdade absoluta da crítica, só me incomoda quando se fazem apartes a pretexto de um livro. Há espaço para tudo, mas a crítica literária deve cingir-se ao livro. Sou contra os ódios de estimação. No entanto, acho que a crítica neste momento é mais livre do que a informação em Portugal.

Não há autores muitos ignorados?

Sim, então se vendem muito são logo. O caso mais paradigmático é o do José Eduardo Agualusa, um autor sempre muito bem considerado e com muito prestígio até ao momento em que começou a vender. Aí, começou a ser tratado como se fosse a Margarida Rebelo Pinto no masculino.

As editoras não falham na promoção dos seus livros diminuindo a presença nas livrarias?

Isso não é um problema das editoras mas da distribuição e da venda. Ao saírem 14 mil livros por ano, as livrarias estão sempre a receber novidades e a devolver os outros. O tempo de vida de um livro está em três semanas, um mês no máximo.

Não há livros que as editoras deviam seguir com mais cuidado?

Não, a editora envia os livros com a melhor informação possível para os jornalistas. Se escrevem ou não é com eles. A editora está no mercado há dez anos e eu nunca agradeci uma crítica nem nunca telefonei a reclamar por não falarem num livro. Se vem cá um autor importante, aviso porque os jornalistas não podem tratar de tudo. Dou-lhes esse crédito e quero que me o deem também. Não pago pequenos-almoços ou jantares a jornalistas para escreverem sobre os livros.

Já sentiu vontade de roubar algum autor de outra editora?

Não por muitos, mas há autores portugueses que acho muito bons.

E gostava de os ter consigo?

Há uns que gostava. Vou ser muito sincera, neste momento não há nenhum autor em Portugal que eu quisesse muito ter comigo que não tenha. A Teresa Veiga é extraordinária, tal como noutras áreas o Paulo Varela Gomes, o Bernardo Pires de Lima ou o Daniel Oliveira. Não vejo grandes autores em Portugal que gostasse de editar.

Nem autores razoáveis?

Há aqueles autores que vendem muito, mas esses eu não os sei trabalhar. Como seria um autor que vende 50 mil livros no supermercado. Para isso há outras editoras.

Então, se um seu autor passar a vender 50 mil despede-o?

Não, isso é o que queria. A Tinta da China vive dos livros que vende, não tem nenhum sócio capitalista, nem eu tenho fortuna. Existimos porque temos leitores. Se todos os autores vendessem mais de mil já era muito bom. Estava descansada.

Essa não é uma exigência normal nos grandes grupos editoriais?

Sim, e é errado. Sou absolutamente contra os grandes grupos editoriais, porque quem sai prejudicado é a cultura do país e a sua diversidade. Os autores de 1500, como lhes chamam, não interessam, investem muito é nos autores dez mil ou vinte mil, porque são os que vão alimentar a máquina. Por isso, surge esta padronização da literatura: agora vamos todos fazer livros eróticos porque têm sucesso; agora vamos todos fazer livros de vampiros porque está a dar. Onde é que está criatividade e a literatura? Os autores de 1500 podem ser os que vão ficar na história da literatura, portanto o papel de um editor é pensar nisso.

Os grandes grupos, como a Porto e a Leya, estão a matar a literatura?

Acho que estão a prejudicar muito a literatura portuguesa.

Depois de ler O Triunfo dos Porcos nunca mais pensei em ser comunista

De que livros se lembra ter lido primeiro?

Havia muitos livros na minha casa e os meus pais sempre nos deram muitos. O meu padrasto todas as noites lia um daqueles policiais da Vampiro e a minha mãe lia muito Saramago e outro tipo de autores.

Qual foi o primeiro autor que a marcou?

...Foi um livro péssimo, o Meu Pé de Laranja Lima, que li com 8 anos e estive dois dias a chorar.

Tocou imensa gente, há desculpa.

Fiquei a perceber que aquelas manchinhas numa folha de papel podem mexer connosco, fazer chorar ou a rir, não querer largar a personagem nem acabar o livro. Isso aconteceu-me outras vezes, ir lançada e começar a ler só uma página para não deixar aquela personagem. Aconteceu-me com Anna Karenina, O Estrangeiro, do Camus, que li com uns 16 anos, também O Triunfo dos Porcos. Neste caso, eu tinha a mania de que era comunista e deram-se esse livro quando teria uns 18 anos. Quem mo deu, escreveu-me na dedicatória, "Para que nunca percas o sonho de seres comunista". Depois de ler O Triunfo dos Porcos nunca mais pensei em ser comunista, achei horrível e fiquei com a certeza de que um livro pode mesmo mudar-nos. Também me lembro-me de na adolescência gastar todo o meu dinheiro na Feira do Livro.

E o leitor jovem entrou na onda da Tinta da China?

O nosso público não é muito jovem, mas a juventude está a ler o Filipe Melo, que se tornou um fenómeno com o Pizzaboy e agora Os Vampiros. Ou os livros de viagens da Alexandra Lucas Coelho, o Caderno Afegão já vendeu cinco mil. A coleção de poesia coordenada pelo Pedro Mexia já teve várias reedições e grandes prémios. Que é lida essencialmente por jovens, onde a Matilde Campilho é o melhor exemplo, com quatro edições de Jóquei. Eu vi o livro da Matilde a ser lido por miúdas na praia!

Quando começa a trabalhar com o livro?

Acabei o curso de História e fui convidada para ir fazer o mestrado com o Fernando Rosas, mas preferi ir trabalhar para uma livraria. Ainda hoje sinto esse bichinho, chego às livrarias e arrumo os livros.

Há muitos autores que também "arrumam" os seus livros.

Sim, metem-nos à frente. Eu também faço isso enquanto editora.

Esteve na FLIP [Festa Literária em Paraty]. O que pensa dos nossos festivais literários?

Acho que a FLIP é a maior festa literária que existe e não é bem um festival. Uma coisa são feiras do livro e outra coisa é termos festas à noite dadas pelas editoras, aonde vão todos para os copos: escritores, editores, autores e público. Em Paraty, existe tudo à volta do livro. Por exemplo, eu estava num hotel em que também se hospedava o [Karl Owe] Knausgard. Estava a beber um café e passa-me o Knausgard à frente. Tirei-lhe uma fotografia às escondidas. Depois, estávamos a ver um jogo do Europeu e, às tantas, ele juntou-se a nós. Estávamos com o Knausgard no grupo! Vai-se na rua e encontramos várias estrelas, Prémios Nobel. É outra coisa. Eu vou à FLIP independentemente de estar com autores ou não, porque abre-me os horizontes. Há vários autores que vou publicar em Portugal só porque os ouvi em Paraty.

Neste ano esteve acompanhada.

Sim, fui com o Ricardo Araújo Pereira, que fez o maior sucesso. Descobriram o Ricardo e no dia seguinte as pessoas estavam a perguntar "quem é este português, quem é este português?". Há mesmo quem diga que foi o melhor autor da FLIP. Foi muito bom.

E o que diz sobre a grande quantidade de festivais literários que agora se realizam no nosso país?

A maior parte não tem importância nenhuma. O Festival de Óbidos é o único que vejo com potencial. O da Madeira também tem interesse porque os autores gostam de ir à Madeira. No Correntes d"Escritas, são sempre os mesmos autores.

Que livro é que leva para as férias?

Um do Carlos Heitor Cony que comprei no Brasil, O Dono do Morro. Outro brasileiro, o Misha Glenny, e o quarto volume da Elena Ferrante.

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