Elísio Summavielle: "Quero fazer do CCB uma Cidade Aberta, como imaginou Vittorio Gregotti"

Falar nisso com o presidente do Centro Cultural de Belém "pode dar azar" mas talvez os módulos que faltam para completar o projeto inicial estejam mais próximos de ser uma realidade. Para já, ficamos a saber: ópera e cinema-espetáculo vão chegar a Belém

No fim do mês faz 60 anos e diz que a geração nascida em 1956 é vintage, em particular o notável grupo dos que com ele fizeram o curso de História na Faculdade de Letras de Lisboa. Conhecido pelo trabalho na área do património, passou por sucessivos organismos e fala com evidente orgulho na Lisboa Capital da Cultura 1994. Manteve-se sempre no serviço público, ao longo dos 35 anos de carreira, e só foi para a Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos depois de o pai, o arquiteto de quem herdou o nome, ter deixado a presidência. Quando João Soares foi nomeado ministro da Cultura, foi voz corrente que ele voltaria às funções de secretário de Estado, mas razões pessoais não deixaram que aceitasse o convite óbvio. Sentado agora no gabinete da presidência do CCB, tem em destaque um pintura de Menez, As Três Gerações, e trabalha tendo por trás uma grande fotografia de Agostinho da Silva.

Vamos ter o Tristão e Isolda no Grande Auditório, em coprodução com o São Carlos

Ao fim destes três meses e meio, que diferenças há entre o que havia e o que foi feito?

Havia uma casa que estava desestruturada na sua missão essencial e tradicional. Estava a ser formatada de forma imprudente com um objetivo que, politicamente, não foi considerado pertinente. Houve que pegar em todos os dossiês, tentar reencontrar um rumo e, reestruturando-a, dar-lhe uma formatação de acordo com aquilo que na administração consideramos ser o papel da fundação do CCB, na cultura da cidade e do país. Foi um tempo de trabalho intenso, em condições que não eram desconhecidas. Sabia-se da precariedade financeira que se prolongou ao longo de dois ou três meses.

Já mudou essa situação de precariedade financeira?

Exato. A casa nunca foi autossuficiente, ou seja, as receitas nunca cobriram as despesas. O edifício é um monumento nacional com cem mil metros cúbicos, com 170 funcionários, com um encargo anual, em recursos humanos, que anda à volta de cinco milhões de euros, quase a totalidade da prestação que o Estado dá, através do Ministério da Cultura, e que foi reduzida nos anos da troika. Chegou a ter nove milhões de euros, neste momento são 6,5 milhões. A despesa e os encargos de uma casa destas são grandes, o edifício está a fazer 25 anos e, como é natural - e eu sou sensível à área do património arquitetónico - está a precisar de algumas intervenções de conservação e de manutenção que são caras. Há uma série de frentes a ter em conta e, nos últimos anos, a verba disponível para a programação pura e dura é apenas uma pequena parte do orçamento.

É quase residual.

Andará entre um milhão e 1,5 milhões de euros. Há que puxar um bocadinho pela imaginação e tentar criar uma sinergia que ultrapasse os muros do Centro Cultural de Belém.

Sinergias com quem?

Com as outras instituições culturais da cidade, com o município, com o país. Nenhum de nós - o CCB, a Casa da Música, Serralves, o São Carlos, o novo Centro Cultural em Coimbra, no Convento de São Francisco, que é magnífico - tem a capacidade, por si só, de trazer a Filarmónica de Berlim a Portugal. É preciso que as organizações se encontrem, se entendam e possam criar o mapa que torna mais simples um evento desse tipo. As pessoas necessitam desses eventos, têm direito a tê-los, é para isso que pagam os seus impostos. Há que criar estas redes.

Isso está em movimento?

Estamos a começar a trabalhar nisso. Temos já uma boa iniciativa no próximo ano. Acordámos com o São Carlos, com o diretor da Opart, o Carlos Vargas - que conheço bem -, e vamos ter o Tristão e Isolda no Grande Auditório do CCB, para 1500 pessoas, com as condições técnicas que o São Carlos, sendo um monumento pequeno, não tem. Essa sinergia conseguiu-se. É uma coprodução do CCB e do Teatro Nacional de São Carlos. Vamos ter cinco horas magníficas de ópera no Grande Auditório. Isso tem de se repercutir noutras iniciativas, para grandes momentos que são necessários e que estavam apagados da programação.

O CCB volta a tomar a iniciativa de uma programação própria, não dependendo do aluguer das salas?

Exato. Em 2017, que Lisboa vai ser Capital Ibero-Americana da Cultura, e estamos a trabalhar em projetos que possam mobilizar o município e o CCB, em pequenas iniciativas ou produções que podemos acolher. Vamos ter uma programação de grande qualidade e animada com música, teatro, dança, etc. Estamos a explorar uma perspetiva interessante , aqui conceptualizada, que é a ideia do CCB - Cidade Aberta. A ideia apareceu-me numa entrevista sua ao Gregotti [Vittorio Gregotti, coautor do edifício com Manuel Salgado] em que ele fala de criar aqui uma cidade aberta à cultura. Um espaço aberto para o rio e com vistas magníficas.

Felizmente, o arquiteto Gregotti ainda é vivo, ainda podem dar-lheessa alegria.

E gostávamos de que ele cá viesse. Nos últimos anos, desertificou-se um bocadinho este espaço. As pessoas passam ao lado, fazem filas para entrar nos Jerónimos mas não vêm cá. Há qualquer coisa que não as traz cá dentro.

O que pode chamá-las? Não tem a área das exposições, o módulo das exposições continua nas mãos da Fundação Berardo. Vai mudar alguma coisa nesse aspeto?

Sim, também. Tenho excelentes relações pessoais com o comendador Berardo, que está a renegociar com o governo a contratação, ao fim de dez anos. Há um potencial grande nessa relação de proximidade. No Porto, vamos ter uma coprodução com o Teatro São João. Estive em Serralves e vamos explorar a hipótese de uma exposição na área da arquitetura. E criar sinergias com os vizinhos é melhor ainda. Até porque sabemos a excelência do espaço expositivo. As grandes exposições do circuito europeu têm-nos passado ao lado e são sempre sucessos de bilheteira, acabam por se pagar com as visitas.

Está a falar em manter aqui a Fundação Berardo e conseguir que se interesse por essas exposições?

A Fundação Berardo não tem essa possibilidade financeira e nós também não, mas se trabalharmos em conjunto talvez. A necessidade aguça o engenho. Toda a vida me bati por parcerias, sem protagonismos nem sinais mais. Dou sempre os sinais aos outros, sou uma pessoa muito discreta, quero que as coisas aconteçam. Isso obriga a que vários parceiros trabalhem em conjunto, e não à volta do seu próprio umbigo. Felizmente, o país entende isso e há exemplos vários, que não são conhecidos nem mediatizados, de redes entre autarquias e associações artísticas, de itinerâncias e de projetos comuns, que temos de ter em atenção. Temos de fazer isso. O país precisa de grandes momentos de cultura.

A ideia de Cidade Aberta envolve essa vontade de trabalhar em parcerias?

A Cidade Aberta tem que ver com isso, com as condições magníficas que temos para acolher todo o espectro da produção cultural. E também com o próprio espaço em si. Já temos um ensaiozinho, neste ano, com o CCB Sunset - não sou muito fã dos anglicismos, mas ficou - os pores do Sol no verão com grupos de gente nova da música, do rock. Começaram em julho e mantêm--se em agosto, vários dias por semana. Esses grupos, que não são consagrados nem conhecidos, querem mostrar o que fazem. Não é preciso gastar recursos financeiros, só logísticos. E queremos fazer aqui cinema. Quando cheguei, verifiquei com surpresa que o Grande Auditório tem um equipamento sofisticado do melhor que há, para projeção de filmes em 3D. Como gosto de cinema, sabia que o último filme do Tarantino tinha uma versão em 70 mm e não veio essa versão porque, em Portugal, não havia equipamento.

Mas havia, afinal?

Havia aqui no CCB. Isto deu-nos a ideia de fazer cinema-espetáculo, no inverno, envolvendo o avô, o filho e os netos, com aqueles grandes filmes que vimos quando éramos miúdos - Ben-Hur, Música no Coração, Lawrence da Arábia, E Tudo o Vento Levou - em ecrã gigante. Sem entrar nas questões do core business da Cinemateca e dos ciclos de cinema de autor, mostrar o cinema-espetáculo, os épicos, as grandes produções kitsch, que temos todos um pouco de saudades de ver. Queremos criar o hábito de vir aqui ao fim de semana. Por outro lado, queremos ter condições de acolhimento logístico mais interessantes, com restaurante e esplanadas para as pessoas poderem estar.

Mais do que existe agora?

Com certeza. Estão quase resolvidos alguns contenciosos que havia com os arrendatários. Há espaços que têm de fazer parte dessa Cidade Aberta, vocacionados para as pessoas estarem, para serem um sítio onde se está porque é agradável e não obrigatoriamente para consumir um espetáculo. Até com visitas ao edifício, que é um monumento nacional classificado. Queria que se fizessem mais visitas guiadas, até aos lugares mais recônditos da casa. Temos a Garagem-Sul, dedicada à área da arquitetura, que tem sido um sucesso e vamos dar continuidade à programação. Queremos criar esse espaço visitável e fruível onde as pessoas gostem de estar. Por exemplo, aos sábados de manhã temos aulas de ioga: quem quiser vir, basta trazer uma toalha. Essa componente urbana também se consegue mais e melhor com as sinergias da cidade e do município, trazendo para a zona ocidental uma centralidade que ainda falta conquistar.

Em que é que este projeto é diferente do objetivo que havia antes na gestão de António Lamas, de fazer de Belém zona turística monumental integrada?

É diferente. Eu não gosto de ajustar contas com o passado. Era uma ideia com os seus méritos, da qual muita gente discordava - o município, o governo. Eu próprio discordo desse modelo, porque valoriza o sítio pela aparência, pela robustez, mas perde-se a autenticidade. A cidade faz-se com os cidadãos, o acesso à cidade é livre. As metamorfoses do tempo têm peso na vida cultural. Criar uma espécie de parques temáticos não me parece a melhor solução para um território, ainda por cima numa zona queridíssima ao município de Lisboa e sem que o município tenha uma palavra a dizer. A experiência de Sintra também é controversa, mas sendo na serra, num parque, talvez tenha mais cabimento. Essa opção foi posta de lado, temos de trabalhar para o futuro e com todas as instituições aqui à volta.

Mas em parceria e não aos comandos, é isso que quer dizer?

Em cumplicidade e parceria ativa. Não é numa falácia chamada gestão integrada. É numa parceria ativa. Por exemplo, os funcionários do Museu de Arqueologia e dos Jerónimos têm o mesmo desconto no nosso refeitório que os funcionários do CCB. Não é preciso haver tutelas que se sobreponham...

Isso é novo?

Sim, aconteceu há pouco tempo. O diretor do Museu de Arqueologia pediu esse acesso e nós respondemos sim. Como poderão ter os do Museu dos Coches, ou do Palácio da Ajuda. Vamos trabalhar com o Museu de Arqueologia numa exposição sobre vasos gregos. Era uma última coisa que o Vasco Graça Moura - um amante da cultura grega fascinado pela coleção dos vasos do Museu de Arqueologia - queria fazer. É uma rede que funciona, mantendo todos a sua autonomia. A autarquia tem um papel fundamental no espaço público, no ordenamento do trânsito, na vida cultural. Esse objetivo pode conseguir-se na prática. Não são fórmulas societárias.

Por esta zona passam não só os turistas estrangeiros mas muitos portugueses.

De manhã é um corrupio, à tarde começa a desmaiar.

E à noite?

À noite está completamente falecida.

É possível inverter esse ciclo?

Penso que é possível. O próximo ano vai ser interessante, há muita coisa no ar, muitas iniciativas e pode ser um espaço privilegiado. Fazer cidade é trazer as pessoas. Por exemplo, como temos wireless, vê-se aí muita miudagem com os computadores a estudar na época de exames. Isso é a Cidade Aberta, queremos que as pessoas usem este espaço, que o respeitem, que ganhem estima por ele, mas que seja participado. Usar é conservar e eu, que sou um homem do património, sei-o bem - o pior que há é ter coisas fechadas.

Nesta zona há muitas instituições culturais diferentes.

E vamos ter um museu novo, o Museu da EDP. E temos o Museu dos Coches lá ao fundo. Há todas as condições para que se criem aqui várias situações que não necessitam de uma organização especial, coisas que se relacionam com sinalética na rua, arranjos, uma bilhética comum.

Que perspetivas há para o quarto e o quinto módulos do CCB?

É um sonho que já vem de trás. Todos os meus antecessores falaram nisso e eu não gosto muito de falar, porque pode dar azar. Mas é um objetivo. Melhoraram as condições com o acordo entre o anterior governo e a câmara, ainda com António Costa como presidente, e estamos a fazer esse caminho. Não posso dizer mais nada sobre o assunto.

Esses módulos poderiam gerar uma forma de rentabilizar todo este conjunto?

Exato. E as condições de vida da fundação podem melhorar muito. É um hotel e comércio. Vamos gerir e otimizar o que temos, pôr a render o que é rentável e que pode ser uma alavanca financeira para a fundação, que é muito dependente do apoio do Fundo de Fomento Cultural.

Originalmente, formou-se em História...

Sim, sou de clínica geral, como todos nós. É uma geração fantástica, fazemos todos 60 anos. O Rui Vieira Nery, o Hermínio Monteiro que já não está connosco, o António Costa Pinto, o Nuno Severiano Teixeira, o Henrique Monteiro, o Pedro Borges... É uma geração engraçada que derivou para muitas áreas. Hoje perdeu-se a clínica geral. A história deve ser conhecida em todas as suas vertentes e, depois, ser especializada. Eu acabei por ficar a saber mais, tecnicamente, de história da arquitetura. Sendo filho de arquiteto, tinha esse bichinho do património.

É filho de um arquiteto que interveio em monumentos. É um seguidor...

Eu não era grande espingarda no desenho. O meu pai desenhava bem. Cresci na zona da Avenida de Roma, no bairro das Estacas, que é classificado, do [Rui Jervis] Atouguia e do [Sebastião] Formosinho Sanchez. É o primeiro bairro moderno de Lisboa. Desde miúdo, gostava muito de ir com o meu pai às obras ver aqueles estaleiros magníficos de madeira, feitos por mestres-carpinteiros. Lembro-me de quando se "fizeram" as muralhas de Óbidos, que estavam todas destruídas. Até tenho fotografias, em pequenino, nas muralhas com o meu pai. Foi quando começaram as campanhas das pousadas, no início dos anos 1960: Óbidos, Loios, Évora. Do que eu mais gostava era quando o meu pai me levava: "Hoje não vais à escola, vais ver isto." E ia com ele por aí fora. Ganhei o bichinho da arquitetura e do património, mas nunca tive uma abordagem corporativa. O património cultural deve ser unívoco, é um todo, feito de várias partes tecnicamente específicas. A cultura, em si, também não me é estranha: sempre gostei de ler, sempre gostei de ir ao cinema, de música...

Isso também vinha desde o ambiente familiar?

Em minha casa lia-se, discutia-se imenso, estava-se constantemente a conspirar contra Salazar. Com os meus avós, quer paternos quer maternos. Os avós paternos eram Summavielle, de Fafe, o cruzamento de várias famílias imigradas. O meu trisavô fez a primeira indústria têxtil no distrito de Braga. A fábrica foi vendida no tempo do meu avô, mas eu ainda me lembro dela, ainda lá está. E havia tradições liberais e republicanas. O meu avô implantou a República em Fafe, fez o curso de Direito em Coimbra, teve contemporâneos importantes com quem se correspondia sempre.

E do lado materno?

A minha avó era da burguesia lisboeta, de uma família já decadentemente aristocrática, a família Krus que teve os seus tempos áureos...O Nuno Abecasis era primo direito da minha mãe, do lado judeu. E o meu avô era da Moita do Ribatejo, também implantador da República, foi ele que construiu a Praça de Toiros da Moita.

Daí a sua afición?

Daí a minha afición, desde que me conheço. Tenho este sangue todo misturado. Tive uma experiência importantíssima e estimulantíssima, é das melhores recordações que tenho, que foi a Lisboa"94, em que fazia programação cultural.

Como é que lá chegou?

Havia um comissariado, presidido pelo Vítor Constâncio, e fui representar Jorge Sampaio. Fiquei com as áreas da intervenção urbana e da programação dos espaços culturais da câmara. Foi quando se terminou as obras da Casa Pessoa, do Museu da Cidade, do Palácio Galveias, as galerias... Fiz a programação e a Sétima Colina, um pequeno-grande projeto - guardo as mais incríveis recordações. Depois voltei às pedras, ao património cultural tout court, fui para subdiretor-geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais onde o meu pai trabalhou e se reformou como diretor de serviços.

Não chegaram a coincidir?

Não, por uma questão de ética. Era uma instituição fantástica e conheci ali grandes técnicos. Era ainda aquela administração pública que não estava tão doente como hoje. Havia ali uma escola e uma tradição de serviço público, com técnicos muito bons.

A média etária da Direção-Geral do Património é de 51 anos. Somos umas aves raras

O serviço público é um valor?

É. O meu pai era um homem do serviço público. Até 1974 acumulava, tinha o seu ateliê privado e fazia trabalhos com o Alberto Cruz e o Fernando Peres Guimarães. Em 1974, como era lírico e utopista, deixou a privada para se entregar ao serviço público em exclusividade. E eu também estou há 35 anos em serviço público exclusivo. É assim que considero esta missão, apesar de ser uma fundação. Nos últimos 20 anos, caiu um estigma negativo sobre a função pública, com alguma acrimónia. Hoje, a média etária de uma instituição como a Direção-Geral do Património Cultural é de 51 anos...

A média!?

A média etária dos meus colegas. Somos umas aves raras. Os melhores estão a sair e não há a passagem de testemunho. As autarquias têm-se defendido melhor, têm um estatuto diferente e quadros fantásticos. Há quadros excelentes que estão na direção de museus - por exemplo, o de Arqueologia - que vieram das autarquias. No contacto com autarquias conheci, pelo país fora, uma nova geração de quadros - arqueólogos, arquitetos, animadores culturais, historiadores - a fazer um trabalho notável. É uma massa crítica muito importante. Portugal deixou de ser o Chiado, isso é um facto iniludível. É aí que a administração central recorre quando precisa, porque a administração pública não se renovou. Uma coisa que me encantou nesta casa, no CCB, foi a juventude que aqui está a trabalhar. A média etária é de 38 ou 39 anos.

E alguns começaram aqui a vida profissional.

E esses são os mais velhos, mas são mais novos do que eu ou da minha idade. Há uma garra nas equipas novas, seja nas artes, nos palcos, nas produções...

Sentiu que as pessoas estavam desmotivadas e que foi preciso conquistá-las?

Faço sempre o possível por chegar perto das pessoas. Gosto de ser solidário e a minha porta está sempre aberta para quem queira falar comigo. Visitei os sítios, criei empatia. Havia alguma tensão, sentia-se que as pessoas precisavam de desabafar. As coisas correram bem, estamos aqui todos a lutar pelas mesmas coisas e são equipas muito boas. E vê-se que vestem a camisola quando é preciso. Quando há dificuldades, entreajudam-se. O fim de semana dos Dias da Música é uma alucinação, 80 concertos a acontecer e todos se voluntariam e vestimos a T-shirt e todos fazemos o que for preciso. Foi uma das primeiras experiências que tive quando aqui cheguei e deu-me para perceber. Eu sou também de vestir a camisola. Não sacralizo a posição.

Tenho aqui um busto da República para lembrar que os lugares públicos inspiram ética e respeito

Trabalhar aqui, num gabinete aberto sobre os Jerónimos e sobre os jardins, é um privilégio?

É absolutamente deslumbrante, invejável. Passou aqui o Jacques Delors, de quem tantas saudades temos, os europeus; ainda cá esteve o François Mitterrand, que tantas saudades nos deixou como europeus; e passaram todos os meus antecessores. É um privilégio. Nos primeiros tempos nem tive tempo para olhar para a paisagem. Aliás, fechava as cortinas, para não me distrair. Agora é verão, tem de estar mais arejado, mas está cá tudo como esteve sempre, com as peças do Daciano...

Os móveis são desenhados por Daciano da Costa?

Daciano puro e duro. A minha primeira visita aqui foi com ele, era um mestre. Ele gostava muito do meu pai e eu conhecia-o bem. Havia vozes críticas mas eu nunca alinhei com velhos do Restelo. Mostrou-me tudo com o engenheiro António Ribeiro, que ainda é o chefe da equipa de manutenção, e na altura era um jovem, como eu. Hoje é um pilar desta casa. Felizmente esta casa tem quem a cuide bem, como se fosse sua.

Os quadros que tem no gabinete são da coleção do...

... do CCB. A coleção está espalhada pela casa. Vamos fazer que esteja mais, porque a própria casa tem de ser um museu e as obras merecem ser vistas.

E tem uma fotografia do Agostinho da Silva. Conheceu-o?

Conheci-o bem. Havia uma cumplicidade muito grande comigo e o Hermínio Monteiro. Íamos conversar a casa dele, ali ao Largo do Príncipe Real. Tirei aquela fotografia com uma máquina descartável, tive a sorte de apanhar aquela expressão. A fotografia vai sempre comigo para onde eu vou, para os Monumentos Nacionais, para o Terreiro do Paço, para o IPPAR/ /Igespar. É como um talismã. Ele era um sábio.

E tem um busto da República.

O busto da República porque sou um republicano convicto e é preciso que os lugares públicos inspirem alguma ética e algum respeito. Aquele busto era do escritório do meu avô paterno, fiquei com ele e também me acompanha. Este e outros, porque tenho uma coleção.

Coleciona outras coisas ou só bustos da República?

Não tenho espírito de colecionador, mas os bustos, sempre que vejo algum, tento comprar. Tenho um lindíssimo, que estava no meu gabinete quando era secretário de Estado, que é a Brigitte Bardot, a Marianne do Alain Aslan, de 1968.

E esse tem em casa?

Esse é de pedra, está em casa, à entrada. Tenho um carbonário com uma espada, tenho um do Bordalo de loiça, tenho várias variantes de bustos. Achei que aqui ficava bem a República, para a gente não se esquecer de que há outras coisas mais importantes.

Foi secretário de Estado, é diferente ter poder, fazer parte de um governo? A sua atitude era diferente?

Quem me conhece sabe que eu sou quase sempre o mesmo em todas as situações. É evidente que as responsabilidades são acrescidas. O curto período do XVIII governo, de que fiz parte com muita honra e orgulho, foi talvez o de maior intensidade na minha vida. Não parava em casa. E fiz aquilo que achava que era importante: correr o país de norte a sul. Eram milhares de quilómetros por semana, a fazer aquilo que já fazia, com outras responsabilidades patrimoniais. Tinha de ver as coisas a outra escala e com outro entendimento. E foi aí que eu percebi que nesses últimos dez anos o país mudou radicalmente. E que a cultura está desde Mirandela até Vila Real de Santo António...

E Açores e Madeira...

... só não há nas Berlengas, onde há as gaivotas. Mas há uma geração que está a fazer coisas fantásticas. Ainda há pouco tempo fui a Chaves, à inauguração do Museu Nadir Afonso - uma obra fantástica do Siza. O Nadir era amigo muito próximo e íntimo do meu pai e eu aprendi a gostar dele muito cedo, como pessoa - era uma personagem fora do baralho. E vi uma pequena orquestra sinfónica, em Chaves, com miúdos até aos 30, a interpretar magnificamente peças que não são fáceis. É preciso que Lisboa também possa ver que isto acontece fora. Em Mirandela, também vi uma orquestra fantástica, com uma maestrina cubana.

Mudou muita coisa no país.

Quando chegamos aos 60 anos e comparamos com o princípio das nossas carreiras profissionais, devemos encarar isso com otimismo, porque nunca houve tanta oferta, tanta gente a fruir, e é preciso que isso seja bem entendido nas grandes capitais, como Lisboa e o Porto. Se formos ao fim do século XX, em 1999 ou em 2000, 70% do investimento público em cultura era feito pelo Estado e 30% pelas autarquias. A proporção hoje é a inversa. Ou seja, são as autarquias e os municípios que estão a dar força à cultura, a alavancar.

Porque o Estado cortou?

O Estado cortou, mas se somarmos o que se gasta em cultura nas câmaras e no Estado já se ultrapassa o limite de 1%. A ideia de que o Ministério da Cultura tem de ter 1% do Orçamento do Estado é uma questão que se pode colocar, não digo que não, mas é uma falsa questão na prática. Como era possível haver tantos profissionais nas artes como hoje há? Algum apoio eles têm e não vem do chão. Bem sei que há muita gente que toca e canta na rua e depois vai, com um chapelinho, pedir um euro às pessoas e as pessoas dão, generosamente. E é bom que isso aconteça. Mas grupos de teatro, o novo cinema, a música, as artes plásticas, tudo isso tem um suporte grande no poder local, mal ou bem. O poder local fez muita asneira, muitos repuxos, muitas rotundas, mas tem infraestruturas. O 25 de Abril já foi há 42 anos, isso dá duas gerações. É com essa geração que temos de trabalhar e olhar para a frente. Com critérios de qualidade e também de democracia cultural. E, portanto, voltamos à ideia da Cidade Aberta.

Voltamos ao início, então?

Sim, uma Cidade Aberta.

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