Elas são 41 por cento nas redações, mas eles é que estão nas chefias

As questões de igualdade de género foram evidentes no painel dos diretores e serão alvo de uma comunicação amanhã.

Graça Franco, diretora da Rádio Renascença desde 2009, e Mafalda Anjos, à frente da Visão desde o ano passado, eram as únicas mulheres de um painel de 20 diretores de órgãos de comunicação social que ontem estiveram no 4.º Congresso dos Jornalistas. "Cheguei mais tarde para me fazer notar. A questão de género não é irrelevante", disse Graça Franco, abrindo assim a sua intervenção, ontem, e trazendo para o debate as diferenças entre homens e mulheres quando se fala em cargos de chefia.

Dos 50 diretores de órgãos de comunicação, apenas oito são mulheres, noticiou nesta semana o Jornal de Negócios. Mas nesse aspeto, a Renascença está acima da média. "A minha direção tem mais duas mulheres, Raquel Abecassis e Eunice Lourenço", nota Graça Franco, referindo-se à diretora adjunta e à chefe de redação. Contas rápidas de cabeça, diz que na Renascença há outras mulheres em cargos de chefia. "Não se percebe que só os homens cheguem a cargos de chefia, numa profissão maioritariamente feminina. Levantam-se problemas de compatibilidade." "A dedicação que se impõe a esta profissão afasta as mulheres", considera, ao DN, após a sua participação no congresso.

Mulheres são 41%

Um estudo de 2016 conduzido pelo investigador Miguel Crespo para o ISCTE diz que as mulheres são mais do que no passado, mas ainda não são maioria. Representam 41% do total de profissionais com carteira.

As conclusões são apresentadas, e aprofundadas, no congresso. Vão para lá das questões de género. Referem que 46% dos jornalistas consideram difícil, muito difícil ou extremamente difícil conciliar vida pessoal e vida profissional. São os cinco em cada dez que não têm uma vida conjugal ou os cinco em dez que não têm filhos, citados por Maria Flor Pedroso quando abriu o primeiro encontro dos jornalistas desde 1998.

Graça Franco vê o caso das mulheres jornalistas como algo que acontece em todo o país, em outras profissões. "Vem da maneira como não se marcam horas para reuniões, se estou no trabalho das seis à meia-noite é que sou dedicado", analisa.

"Pactuamos com esta visão masculinista, produtivista e utilista, que dá cobertura a este estado de coisas", critica a responsável editorial.

"Somos culpados por não levantar estes temas, somos cúmplices desta visão pretensamente feminista", considera Graça Franco. "As mulheres precisam de estar grávidas e temos de lutar pelos nossos direitos", diz a diretora da rádio, mãe de cinco filhos. "Depois exigi a minha reintegração plena", completa.

As diferenças entre género serão também tema de uma comunicação amanhã, último dia do fórum de jornalistas. A autora é Sofia Branco, jornalista da Lusa e presidente do Sindicato dos Jornalistas.

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