Dia de "sentimentos contrários" na terra marcada pelos fogos

O Presidente da República passou o dia de Natal no concelho mais afetado pela tragédia de 17 de junho, onde participou num almoço com familiares das vítimas, "excecionais na hora da provação"

António Frederico Campos saiu de Vila Flor às 05.00 da manhã de ontem, com a família, para assistir à missa de Natal em Pedrógão Grande. Foram quatro horas de viagem que, explicou ao DN, serviram também para dizer ao presidente da autarquia que oferecia um almoço no seu restaurante a "50 pessoas" afetadas pelos fogos.

A oferta é para concretizar em fevereiro ou março, "na altura das amendoeiras em flor" e para que essas pessoas possam ter "um dia em paz", adiantou António Campos - um dos exemplos dados pelo Presidente da República, a par de famílias de Coimbra e Famalicão que também estiveram ontem em Pedrógão Grande, para apelar a que os portugueses se desloquem à região nos próximos meses.

Marcelo Rebelo de Sousa, horas depois da missa e na cerimónia de inauguração da sede da Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande, disse estar ali em representação dos "mais de dez milhões de portugueses" que se solidarizaram com "as pessoas destas terras". "Somos excecionais no dia-a-dia e particularmente excecionais nas horas de provação" como as vividas ali, onde os locais "enfrentaram a tragédia e vão vencer a tragédia", enalteceu o chefe do Estado.

O Presidente, que após a missa dada pelo bispo de Coimbra, participou num almoço privado com 30 familiares das vítimas dos incêndios na escola que desde ontem é sede da associação presidida por Nádia Piazza, plantou também um sobreiro - um momento algo atribulado e divertido, devido aos esforços para retirar a árvore do balde onde estava e, depois, para a tapar com terra e pedras.

A assistir, entre as dezenas de populares presentes na cerimónia de inauguração, Maria Adelaide Silva, residente na aldeia vizinha de Nodeirinho, dizia ao DN que não participara no almoço por ter estado a ajudar um octogenário que vive sozinho. Contudo, fez questão de assistir a seguir à inauguração da sede da AVIPG na antiga escola da Figueira e onde a mãe estudou.

O edifício, referiu Maria Adelaide Silva, ficou "em muito mau estado" após o incêndio e as obras da sua recuperação eram exibidas num vídeo instalado no interior do edifício vizinho da casa dos seus avós "e que também ardeu".

Entre os presentes estava ainda António Lopes Cardoso, um reformado a viver isolado em Moleiros de Vila Facaia, que apenas recebeu cerca de 3500 euros dos mais de 4000 euros que deveria ter recebido para recuperar alguns dos bens e equipamentos perdidos. Marcelo Rebelo de Sousa, que ouviu a história e fez questão de guardar os papéis do agricultor de 74 anos, ia repetindo: "Já percebi, já entendi tudo."

Ao DN, o reformado lamentou não ter recebido ainda a visita "de ninguém da câmara" e disse querer "bom senso" para minorar as suas dificuldades. "Não peço esmola", exclamou ainda António Cardoso.

Num dia que disse ser "de sentimentos contraditórios, de alegria por ser Natal e de saudade pelos que partiram", Marcelo Rebelo de Sousa passou parte do tempo a cumprimentar e a dar palavras de carinho e estímulo a muitos dos presentes que o acompanhavam, além das fotografias e selfies com que muitos quiseram registar o Dia de Natal de 2017.

Também presentes na missa estiveram Valdemar Alves, presidente da Câmara de Pedrógão Grande, e Tomás Correia, presidente da Assembleia Municipal (e da Associação Mutualista Montepio Geral). Se o primeiro lamentava que alguns dos habitantes locais não tenham tido ainda ajuda enquanto outros receberam "três e quatro vezes" apoios dados diretamente por instituições que atuavam no terreno sem coordenação, o segundo alertava para a importância de recuperar a economia local.

Papel central nessa recuperação são as comunicações, referiu Tomás Correia ao DN, porque sem internet dificilmente se consegue atrair e fixar os jovens. "Temos um desafio brutal" pela frente, insistiu o presidente da Assembleia Municipal de Pedrógão Grande, deixando no final o desafio otimista de regressar ao local "daqui a um ano" para ver como as coisas avançaram.

Papel muito importante nessa recuperação irá ter a AVIPG, à qual o bispo de Coimbra, D. Virgílio, transmitiu o pedido que lhe tinha sido dirigido "com insistência" pelos reclusos da penitenciária de Coimbra: entregar "um grande abraço" e dizer que "não esqueciam e acompanhavam" a situação.

Nádia Piazza, por sua vez, agradeceu a "presença constante" de Marcelo Rebelo de Sousa e a sua capacidade de "manter a memória acesa de toda uma nação" face às tragédias dos incêndios de junho e outubro. "A sua persistência e retidão fizeram acontecer o impensável num tempo em que impera o individualismo", enalteceu a presidente da AVIPG, dando como testemunho "a solidariedade entre as gentes através do seu exemplo de entrega e abnegação (...), a motivação das instituições públicas na resposta às reais necessidades sentidas e por si testemunhadas".

Para Marcelo, elogiando as pessoas que "arregaçaram as mangas e recomeçaram as suas vidas" após a tragédia, "houve uma onda que foi mais do que solidariedade, foi de fraternidade" por parte dos portugueses. Quanto à AVIPG, é uma instituição "ligada a um momento doloroso" da comunidade para preservar a memória do que aconteceu e contribuir para uma "vida diferente" da que se vivia em Pedrógão Grande. O próprio bispo de Coimbra já tinha sublinhado essa vertente, ao dizer que "o ideal seria que o futuro desta terra fosse melhor do que o passado".

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