Confronto entre a capital startup e velhos problemas

O candidato do PS é Fernando Medina, que pela primeira vez vai a votos como cabeça de lista. Orgulha-se de ter mudado o rosto da cidade e bate-se por uma capital moderna. A oposição diz que só fez "obras de fachada" e que esqueceu os lisboetas e as dificuldades estruturais, sobretudo os transportes e a habitação

Fernando Medina está empolgado quando apresenta às startup o projeto daquele que vai o polo criativo do Beato, na antiga central elétrica do complexo industrial da Manutenção Militar. Está ali na condição de presidente da Câmara, mas é já recandidato a um cargo para o qual não foi eleito enquanto tal. António Costa cedeu-lhe o lugar há dois anos para formar governo e o candidato socialista só agora aparece como o cabeça de cartaz do PS no combate autárquico em Lisboa.

A pergunta impõe-se: com iniciativas como aquela quase às portas das eleições, onde estiveram dezenas de jovens e menos jovens empreendedores, é preciso fazer campanha? "Nestas eleições nada está decidido, quem pensa assim não valoriza a democracia", diz Medina e garante que vai enfrentar as eleições de 1 de outubro com "muita determinação". Tem às costas a herança de uma maioria absoluta de 51%, conquistada pelo atual primeiro-ministro em 2013.

Os principais opositores, Teresa Leal Coelho (PSD), Assunção Cristas (CDS), João Ferreira (CDU) e Ricardo Robles (BE), são unânimes nas críticas à opção do atual presidente da autarquia ter privilegiado no seu mandato uma enxurrada de obras na cidade, grande parte delas acabadas e a brilhar de novo, sobretudo nos principais eixos. A líder do CDS e candidata do partido à presidência da câmara sintetiza: "governação para encher o olho". Ou na versão dos outros candidatos "eleitoralismo" para tentar ganhar as eleições sem espinhas.

Medina já nem responde às críticas. "Há um sentimento que valeu a pena. É interessante ver como as pessoas já se apropriaram das zonas reabilitadas da cidade, que tiveram como objetivo a melhoria do espaço público e a qualidade ambiental".

O candidato socialista garante que as prioridades para os próximos quatro anos são outras, entre as quais dar um empurrão à atividade económica da cidade para dinamizar o emprego, o investimento e a investigação. É aqui que projetos como o do Beato, que irá acolher a Web Summit, se encaixam na visão de Medina para a cidade do futuro. Quer ainda recuperar os transportes, depois de ter a Carris a 100% nas mãos da câmara, com a aquisição de 180 novos autocarros; investir em casas para a classe média, a contrariar os preços inflacionados que o turismo provocou na capital, e bater-se por uma fiscalidade benéfica ao arrendamento de longa duração.

Habitação e mobilidade

Ora é neste triângulo turismo, mobilidade e habitação que moram as maiores críticas da oposição ao executivo camarário. E nem os parceiros de coligação do governo socialista - PCP/Verdes e BE - , lhe dão tréguas.

Teresa Leal Coelho, a candidata do PSD à presidência da Câmara, socorre-se de um vídeo produzido por um youtuber, mordaz para com o boom do turismo em Lisboa, para atacar as opções do adversário socialista. "Os que cá residem e os que cá querem residir têm sido expulsos da cidade. Há uma grande separação das famílias, o que desvirtua a solidariedade intergeracional, numa cidade cada vez mais envelhecida", afirma, embora entenda que o turismo é muito "positivo" para Lisboa. Todos os outros candidatos têm a mesma opinião, o que dizem ser negativo é a "falta de políticas da câmara, gerida há 10 anos por socialistas, para contrariar a consequente especulação imobiliária" gerada pela pressão desse turismo.

A candidata do PSD quer travar as vendas de património da câmara que, na sua opinião, "só têm servido a especulação imobiliária. Também advoga medidas de discriminação positiva para a venda e arrendamento de frações destinadas à classe média e aos jovens.

A melhoria dos transportes e novas condições de estacionamento para os moradores da cidade, dois dos velhos problemas, são outras das suas bandeiras. Admite que as obras de Medina favoreceram "algumas zonas da cidade", mas garante que outras estão completamente esquecidas. "Temos uma Lisboa a várias velocidades!".

Numa velocidade muito mais lenta estão os bairros que diz andar a visitar sem que os jornalistas a acompanhem, para, explica, "não expor as pessoas" que garante conhece "bem pelos nomes".

Mas esta falta de visibilidade da sua presença no terreno é criticada internamente no partido. Tanto mais que Teresa Leal Coelho partiu para o combate em Lisboa com algumas pedras no caminho, entre as quais a relutância das estruturas locais do PSD. Corre sem o apoio do CDS, que na anterior eleição deu a mão a Fernando Seara (agora candidato em Odivelas), que apesar disso não conseguiu impedir a maioria absoluta de António Costa, tendo ficado pelos 22% dos votos.

Assunção Cristas, que lidera o CDS, decidiu aventurar o partido e a ela própria neste desafio. Segue o exemplo de Paulo Portas em 2001, que conseguiu o melhor resultado desde Krus Abecasis. A candidata centrista é o oposto da adversária do PSD. Anda como uma formiguinha em todos os bairros da capital e muito acompanhada pela comunicação social. Foi o que aconteceu na passada quarta-feira numa associação do bairro do Rego, onde se fez acompanhar pela candidata à junta de freguesia das Avenidas Novas, Raquel Abecasis. Assunção está tão confiante da campanha já feita que atira: "Ou ganha o Medina ou ganho eu!"

A habitação e a mobilidade na cidade são também as suas prioridades, mas as questões sociais são importantes no seu programa. Ao envelhecimento da população residente na cidade quer responder com uma rede de cuidadores e à falta de crianças com o aumento da oferta de creches. "Se for eleita, os lisboetas não se arrependerão, por tenho um olhar mais próximo da cidade, mais humano, e não ficarei a pairar na ligeireza das obras para encher o olho".

Pela CDU corre já o mesmo candidato de há quatro anos, João Ferreira, na sua dupla condição de eurodeputado, e tem por missão manter os dois vereadores da coligação. "A cidade está mais desigual", diz e afirma que o PS já tem uma década de má gestão da cidade. Aqui não há clemência fundada numa geringonça. O rol de propostas da CDU é vasto. Destaca-se a criação de um bolsa de habitação a preços acessíveis, a redução do preços dos transportes públicos e manutenção de todos os seis hospitais que estão previstos desaparecer em Lisboa.

É cabeça de lista pelo BE Ricardo Robles, atual deputado municipal. Está a tentar conseguir o lugar de vereador, depois de João Semedo o ter perdido por uma unha negra em 2013, mas está consciente de que é difícil. Chega descontraído, de bicicleta, ao topo do Parque Eduardo VII, onde terá uma iniciativa de campanha, e diz que se destaca dos restantes candidatos com a "garantia de um mandato completo". Os maiores problemas que deteta na cidade são semelhantes aos dos adversários. Mas é em Medina que foca a crítica: "ao contrário de António Costa gosta pouco de críticas e tem falta de capacidade de ouvir alternativas".

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