Azeredo Lopes sob pressão a que os antecessores conseguiram resistir

O ministro está debaixo de fogo dos generais que têm pedido a sua demissão. Também Paulo Portas e Aguiar-Branco foram pressionados a sair. Mas resistiram

Dias depois da demissão do comandante do Exército, alguns generais exigem a queda do ministro da Defesa. Além da carta aberta publicada ontem no DN, em que o general Garcia Leandro aconselha Azeredo Lopes a não repetir a exigência a um chefe militar para que demita um subordinado - pois aí "é provável que saia o ministro em vez do [general] em causa" -, também os generais Ricardo Durão e Raul Luís Cunha se insurgiram contra o governante em termos muito duros.

"O governo, pela mão de quem tutela as Forças Armadas, conseguiu algo que só se tinha visto no estertor do antigo regime: o total repúdio de todos os militares à sua atuação em relação ao comandante do Exército (estou a lembrar-me de como todos reagimos às demissões de Costa Gomes e Spínola por Marcelo Caetano). Esperar-se-ia do seu líder [António Costa] uma intervenção de forma a haver o mesmo desfecho que na Cultura", escreveu Raul Cunha, na sua página no Facebook.

"Felicito a decisão tomada pelo chefe do Estado-Maior, como felicitarei os generais que recusem a nomeação para o substituir, enquanto for mantido em funções o atual ministro", assumiu Ricardo Durão, num texto com data de sábado divulgado na segunda-feira na página do Facebook da Associação de Oficiais das Forças Armadas (AOFA) - e publicado ontem no Expresso.

Na origem do caso está o facto de o subdiretor do Colégio Militar ter assumido que os alunos homossexuais "são excluídos" da escola (por pressão dos outros alunos e sendo a decisão assumida pelos pais). O ministro qualificou essa discriminação por razões de orientação sexual como "absolutamente inaceitável", pediu explicações e exigiu medidas concretas para evitar casos desses.

Perante a ausência de medidas concretas, Azeredo Lopes exigiu a demissão do subdiretor - o que o então chefe do Exército, general Carlos Jerónimo, considerou uma intromissão abusiva na cadeia de comando militar e saiu. O Presidente da República, a quem cabe nomear e exonerar os chefes militares, aceitou o pedido no próprio dia.

Perdi a confiança no ministro da Defesa

A pressão sobre Azeredo Lopes, numa altura em que as redes sociais ganharam um peso mediático que não tinham há década e meia, recorda o caso da demissão - em 2003, era Paulo Portas ministro da Defesa - do então chefe do Exército, general Silva Viegas. "Perdi a confiança no ministro da Defesa", afirmou Silva Viegas, sobre um caso que gerou tantas ou mais pressões para demitir Portas e a quem os seus antecessores à frente do Exército desde 1975 - como os generais Ramalho Eanes, Rocha Vieira, Espírito Santo, Loureiro dos Santos ou Martins Barrento - organizaram um jantar de apoio e desagravo.

A demissão de Silva Viegas, que há muito protestava contra a falta de verbas necessárias para o ramo cumprir as missões atribuídas, surgiu depois de Portas ter faltado às cerimónias oficiais do Dia do Exército - optando por ir à tomada de posse do diretor-geral de Armamento, hoje tenente-general Fernando Serafino, ouvido na segunda-feira por Azeredo Lopes como potencial candidato a chefe do Exército. Fernando Serafino era apenas oficial superior - posto de tenente-coronel - mas Paulo Portas impôs a sua escolha para um cargo sempre ocupado por generais de três estrelas e por quem passavam os processos de aquisição dos sistemas de armas - como os submarinos e as viaturas blindadas Pandur.

Também o antecessor de Azeredo Lopes, José Pedro Aguiar-Branco, passou metade do mandato com muitos militares a exigirem a sua cabeça, por impor a abertura do Colégio Militar às raparigas e extinguir o Instituto de Odivelas.

Tratado pelos detratores como "Aguiar hífen Branco", o então ministro da Defesa resistiu às pressões argumentando com a inconstitucionalidade de um modelo educativo em escolas públicas que discriminava alunos em função do género - o que agora Azeredo Lopes diz suceder relativamente à orientação sexual.

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