"A solução para o malparado da banca é original e não terá custos para os contribuintes"

Em entrevista ao DN, o primeiro-ministro deixa uma garantia firme de que o Estado não irá financiar a solução para os créditos malparados da banca

Os números dizem-nos tudo, se os torturarmos devidamente conseguem dizer-nos quase tudo o que nós quisermos, há um dado que parece...

Sim, mas eu acho que devemos ser contra a tortura, até dos números...

Há aqui um dado que parece preocupante, Portugal foi o país que menos cresceu em linha no segundo trimestre deste ano, isso não perturba um pouco o seu otimismo?

Pela primeira vez desde o início do século estamos a convergir com a União Europeia. O que aconteceu nestes últimos nove meses não acontecia desde o início do século e o grande desafio que nós temos é que estes três trimestres não sejam uma excepção, mas sim os primeiros nove meses de uma década de convergência. Esse é o grande objetivo estratégico a que nós nos propusemos no quadro do Portugal 2020/2030 e cujo debate público iniciámos já com o Conselho de Concertação Territorial, com o Conselho Económico e Social e com o conjunto da sociedade portuguesa, e queremos também envolver um acordo político alargado porque isto é uma estratégia que transcende em muito esta legislatura e, portanto, deve corresponder à mobilização global da sociedade. É um grande objetivo - uma década de convergência - com uma estratégia que visa a maior competitividade externa e a maior coesão interna, apostando na qualificação e na inovação e na valorização dos nossos recursos.

Outro fator que pode ser visto como preocupante é o recurso ao crédito por parte das famílias portuguesas. Isso não revela, sobretudo o crédito para bens de consumo, uma tendência preocupante de regresso a uma lógica que deu problemas no passado?

Nós acreditamos que a reposição do rendimento das famílias é essencial para que estas possam ter um melhor nível de vida, que é essencial que a banca não cometa o erro de repetir a alocação essencial dos seus recursos ao crédito ao consumo e ao crédito à compra de casa própria, esses recursos devem ser cada vez mais direcionados para o financiamento das empresas, para o investimento empresarial, para o investimento produtivo criador de emprego e de riqueza. Acho que essa é uma noção que espero que todos tenhamos embora também perceba que as famílias, depois de tantos e tantos anos a adiar decisões em matéria de investimento, tenham agora de repor as coisas, há um limite, podemos adiar a troca do carro, mas há um dia em que o mecânico diz: Olhe, já não compensa arranjar.

A solução que parece ter sido encontrada para o crédito malparado, que demorou algum tempo a ser encontrada, ao que se sabe implicará uma intervenção do chamado banco de fomento. O senhor primeiro-ministro pode garantir que nunca, em circunstância alguma, esta solução que foi encontrada para o crédito malparado da banca terá custos para os contribuintes?

Isso foi um pressuposto desde o início. Qualquer solução nunca poderia ter custos para os contribuintes. A solução final que tem vindo a ser encontrada tem sido muito facilitada pela evolução da própria situação económica, alguns ativos de risco que eram vistos como de grande risco na área do imobiliário há dois anos, hoje, pelo contrário, são vistos como ativos de grande valor. Acho que a solução que está a ser estabilizada é inteligente e original; é centrada em primeiro lugar na criação de condições para empresas que são economicamente viáveis poderem ter soluções com os seus credores bancários que lhes permitam repor a atividade e gerar o rendimento necessário à satisfação dos créditos que têm. Tem a vantagem de ser uma solução onde o Estado intervém pouco e que resulta mais da ação cooperativa entre os diferentes bancos e centrada naquelas empresas que têm créditos em múltiplos bancos e onde uma atuação descoordenada por parte dos credores não só prejudicaria os seus próprios interesses como os dos próprios devedores.

Portanto, a solução final que estará brevemente em condições de ser apresentada é um passo em frente tendo em conta que os bancos que têm um maior nível de exposição aos NPL [non-performing loans] são bancos que conseguiram reforçar ao longo deste ano os capitais próprios para poderem acomodar melhor nos seus balanços a gestão destes ativos. É o caso da Caixa, é o caso do BCP e será brevemente o caso do Novo Banco.

Qual é o papel então do chamado banco de fomento?

Eu não queria dar muitos pormenores sobre uma solução cujo desenho final está em vias de ser concluído e que será em breve apresentada pelos seus próprios autores.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

Adelino Amaro da Costa e a moderação

Nunca me vi como especial cultor da moderação em política, talvez porque tivesse crescido para ela em tempos de moderação, uma espécie de dado adquirido que não distingue ninguém. Cheguei mesmo a ser acusado do contrário, pela forma enfática como fui dando conta das minhas ideias, tantas vezes mais liberais do que a norma, ou ainda pelo meu especial gosto em contextualizar a minha ação política e governativa numa luta pela liberdade.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.

Premium

Crónica de Televisão

Cabeças voadoras

Já que perguntam: vários folclores locais do Sudeste Asiático incluem uma figura mitológica que é uma espécie de mistura entre bruxa, vampira e monstro, associada à magia negra e ao canibalismo. Segundo a valiosíssima Encyclopedia of Giants and Humanoids in Myth and Legend, de Theresa Bane, a criatura, conhecida como leák na Indonésia ou penanggalan na Malásia, pode assumir muitas formas - tigre, árvore, motocicleta, rato gigante, pássaro do tamanho de um cavalo -, mas a mais comum é a de uma cabeça separada do corpo, arrastando as tripas na sua esteira, voando pelo ar à procura de presas para se alimentar e rejuvenescer: crianças, adultos vulneráveis, mulheres em trabalho de parto. O sincretismo acidental entre velhos panteísmos, culto dos antepassados e resquícios de religião colonial costuma produzir os melhores folclores (passa-se o mesmo no Haiti). A figura da leák, num processo análogo ao que costuma coordenar os filmes de terror, combina sentimentalismo e pavor, convertendo a ideia de que os vivos precisam dos mortos na ideia de que os mortos precisam dos vivos.