"A liberdade não se conquista numa noite nem numa data"

A nova líder da JSD, Margarida Balseiro Lopes, soube que iria discursar no 25 de Abril logo depois de ser eleita

Margarida Balseiro Lopes soube que iria discursar no 25 de Abril logo depois de ser eleita. O discurso - que ensaiou com Conceição Monteiro, a secretária de Sá Carneiro - foi inclusivo e uma pedrada no charco. Soube que o iria fazer logo depois de ser eleita presidente da JSD, a 15 deste mês. E era uma das coisas que queria fazer na vida.

Quando é que soube que iria ser a escolhida pelo PSD para discursar na cerimónia de 25 de Abril?

Soube logo dois dias depois da minha eleição (como líder da JSD). Fui falar com o presidente do grupo parlamentar [Fernando Negrão] e ele perguntou-me se queria fazer.

Era uma coisa que desejava fazer?

Era. E muito poucas pessoas sabiam disso. O meu pai e poucos amigos mais próximos, a quem terei dito en passant "um dia gostava de discursar no 25 de Abril". Não era numa lógica de ambição planeada, mas sim de um dia poder ir ali dizer o que sinto, o que é para mim e para a minha geração o 25 de abril.

E o discurso foi da sua inteira responsabilidade, construiu-o sozinha ou em parceria?

Fui eu que o escrevi, sim. Falei (naturalmente) com o presidente do grupo parlamentar, e fui falar também com três ou quatro amigos mais próximos. Na verdade eu já tinha na minha cabeça tudo aquilo que queria dizer, mesmo ainda não sabendo que aquela oportunidade me seria dada. Foi muito natural. Eu sabia que tinha de ter uma parte dedicada a agradecer o que foi feito - não só o que foi feito no dia ou naqueles dias, mas também o que se fez a seguir, até hoje. Reconhecer as conquistas. Porque é muito tentador cair no discurso de atacar as falhas, sem destacar aquilo que de bom foi feito, e depois olhar para a frente e perceber o que ainda temos por fazer. Para mim sempre foi muito importante a ideia de que a liberdade não se conquista numa noite nem numa data. E temos exemplos claríssimos como é o caso da Hungria - que é da minha família política - mas isso não me inibe absolutamente nada de dizer que há processos que podem acontecer e que temos de estar permanentemente alerta. É uma conquista diária.

Tem consciência de que aquele discurso foi aplaudido por muita gente - da direita à esquerda - mas recebido com algum desconforto em certos setores do PSD?

Eu acho que a esmagadora maioria das pessoas do meu partido o recebeu bem. Mas claro que haverá alguma franja que poderá não se identificar tanto. Mas nós não podemos agradar a todos...

Na assistência houve quem dissesse que parecia de esquerda...

Eu já ouvi de tudo. E sim, já ouvi isso mais vezes, mas considero que é preconceito. Também ouvi comentários pelo facto de falar de cultura. E depois? A cultura é de esquerda? E eu disse exatamente o oposto: a cultura não é de direita nem é de esquerda. Tem de ser livre e não deve ser programada politicamente. O facto de eu defender a educação universal e gratuita e defender o SNS é ser de esquerda? Deus me livre. Há valores que têm que ver com a concretização disto, e se os formos discutir qualquer pessoa percebe que eu não sou de esquerda.

Que tem a ver com o papel do Estado, por exemplo?

Sim, ou com a natureza do prestador de serviço. Mas não era esse o momento de falar disso. Houve uma parte no discurso em que pouca gente pegou, mas foi das coisas que mais gostei de dizer: que o Portugal que estamos a construir ao longo destes anos é um país em que não importa quem nós somos, quem são os nossos pais, de onde viemos. Não importa quem amamos. Mais à frente disse que não importa a fé, a ascendência, ou a orientação sexual. Para mim, as pessoas têm direito a ser tudo.

Depois desse momento tem sentido algum reconhecimento na rua?

Eu não tinha noção do impacto que as minhas palavras iriam ter. Estava muito confortável com o discurso que fiz, e mais do que isso estava feliz com aquilo que ia dizer, com a oportunidade de o fazer. Só percebi no dia seguinte, quando começaram a ligar para o grupo parlamentar para falar comigo.

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