"A JS não deve ter iniciativas à revelia da direção da bancada do PS"

A organização de juventude do PS está reunida neste fim de semana em congresso. O líder cessante, João Torres, faz, em entrevista ao DN, um balanço dos seus dois mandatos

Não me lembro da última vez que houve um congresso da JS disputado com dois ou mais candidatos. É sempre um só candidato e esse candidato é sempre de continuidade em relação ao líder. Fica-se com a impressão de que a JS se tornou uma espécie de monarquia. Uma monarquia republicana - mas uma monarquia.

O primeiro candidato que eu apoiei foi o Pedro Nuno Santos, em 2004, e foi um congresso bastante disputado, com quatro candidatos. Dois desistiram no congresso e só prosseguiu o Luís Filipe Pereira, mais da linha da Jamila Madeira [a líder que cessava funções nessa altura]. O Pedro Nuno Santos lançou um slogan que eu acho muito forte: "Uma JS." Eu na altura era muito novo, tinha 18 anos, foi o primeiro congresso em que participei. Esse slogan encerrava em si não um modelo de castração da diversidade de pensamento mas de alguma coesão na estrutura e na organização, depois de processos muito conflituosos, sobretudo em 2000, entre Jamila Madeira e Ana Catarina Mendes [que a primeira venceu], disputa que deixou uma marca muito negativa da JS. O debate é sempre muito bem-vindo. Não há organização política de juventude tão diversa, tolerante e plural como a JS...

O debate que havia não era politicamente substantivo?

Não. O debate era pessoal. Certamente que haveria pequenas diferenças. Reconheço que há essa crítica, às vezes até os meus antecessores dizem isso, que não há debate na JS. Mas tenho de rejeitar agora essa linha de argumentação, de que não há debate. Em 2012, tendo havido uma candidatura única, houve um processo, que não teve mediatização, de discussão interna na JS. Não teve dimensão pública mas a estrutura sentiu.

Mas a não mediatização também resulta do facto de não haver confronto. O confronto puxa mediatização.

Houve confronto, só não chegou ao ponto de existirem duas candidaturas, foi possível chegar a um entendimento - mas já em cima do congresso nacional. A JS continua a ter debate, não tem havido mais do que uma candidatura, mas não considero isso uma fraqueza. Estou convencido de que os debates se geram muito em torno de pessoas e não de ideias. Também há espaço para haver discussão de perfis, características pessoais para o exercício de responsabilidades de liderança. Mas, quando as disputas de poder são formuladas em termos pessoais, isso é negativo.

E na JS qual é a importância que tem o debate sobre "o papel da JS face ao PS"? A JS afirma-se face ao PS sendo do contra, afirma-se sendo complementar, afirma-se sendo obediente, esse tipo de discussão. Lembro-me de que a JS, no tempo de Sérgio Sousa Pinto, com o protagonismo na questão do aborto, contra a opinião do secretário-geral do PS [António Guterres], chegou a parecer que era organização fora do PS.

Tenho uma expressão que sintetiza a meu ver aquilo que é a relação com o PS, pelo menos nos últimos quatro anos. Nós somos solidários mas frontais. E nesta dimensão de frontalidade isso implica que nós, quer nos espaços próprios internos quer publicamente, dizemos aquilo que entendemos que devemos dizer, para estarmos sincronizados com as nossas convicções e agendas políticas. E nós fizemos isso. Por exemplo, no último congresso nacional do PS, em que apresentámos três moções setoriais.

Mas essas moções (sobre legalização da prostituição, limitação das diferenças salariais e legalização da produção e venda de drogas leves) acabaram por não ser discutidas no congresso e ainda nem o foram na Comissão Nacional do partido. E não tiveram nenhuma tradução legislativa.

Mas dinamizaram múltiplas discussões informais no PS. A minha perceção é que essas propostas dinamizam conversas e trocas informais de opiniões no PS que não teriam acontecido se essas propostas não tivessem sido apresentadas. É um contributo em permanência, essa questão será discutida oportunamente. Sempre disse que não estava nervoso com o facto de as moções da JS serem discutidas naquele momento do congresso do PS ou noutro. Esse para mim não era o ponto - até porque eu sei que são mudanças difíceis na sociedade. E devo dizer o seguinte: em relação à proposta sobre os salários [diminuição no Estado da diferença salarial entre o topo e a base, por imposição legislativa, e nas empresas privadas por penalização fiscal] o problema não é em si a questão dos gestores. Não é uma proposta ad hominem. É uma proposta que os verdadeiros partidos socialistas, sociais-democratas e trabalhistas devem ter. Se defendemos mais Estado e uma economia social de mercado, temos de vir a jogo com propostas.

O que pergunto é qual será a tradução concreta dessas ideias. Vamos supor que as moções da JS são discutidas numa reunião futura da Comissão Nacional do PS [o órgão máximo entre congressos] e são aprovadas. E depois? Serão traduzidas em projetos de lei para discutir no Parlamento?

Eu não poderei falar sobre o futuro da JS. Mas sei uma coisa: do meu ponto de vista, a JS não deve tomar iniciativas à revelia do grupo parlamentar do PS e da sua direção. Temos uma extraordinária relação com o secretário-geral do PS, António Costa, e com o presidente do partido e do grupo parlamentar, Carlos César, a quem eu devo bastantes oportunidades de intervenção pública.

Ou seja, não implica necessariamente que até ao fim da legislatura existam projetos de lei traduzindo essas moções da JS.

Não implica, não implica necessariamente isso. Agora, é uma bandeira que a JS claramente afirmou. A questão da regulação do trabalho sexual é porventura aquela em que haverá uma margem para se darem avanços mais imediatos, no meu ponto de vista - mas também não me quero comprometer com calendarizações. É possível desenvolver um trabalho a curto prazo na Assembleia da República, eu é que ainda não tive tempo para isso - e deixo esse legado. Quanto às drogas leves, Portugal é apontado como exemplo, fomos pioneiros na despenalização do consumo, em 2001, mas há um problema com o posicionamento da ONU, estamos subordinados a convenções internacionais. Sobre os salários: numa economia que é de casino, e totalmente virtualizada, é preciso que todos os que acreditem numa economia diferente venham a jogo com propostas. Nem que sejam propostas não muito nítidas ou que tenham o seu quê de contradição, é preciso chocar consciências para que em Portugal ou na Europa nós possamos regular a economia. A crise de identidade nos partidos socialistas europeus também se deve muito também à incapacidade desses partidos em idealizar uma intervenção do Estado que corrija as desigualdades, que têm vindo a crescer.

Ao fim de quatro anos de liderança, deixou uma marca na JS?

Acho que isso só a história o dirá. Sou descontente por natureza e definição. A citação com que mais me identifico é aquela que diz que "ser descontente é ser homem". Não deixo de preservar um espírito de autocrítica. Mas também digo que me sinto realizado como secretário-geral da JS. A JS deu um contributo de qualificação, à sua escala - mas, evidentemente, não somos nós que vamos voltar a credibilizar instituições políticas ou partidárias, mas demos o nosso contributo. Não enveredamos por uma linha de comunicação mais circense. Isso às vezes tem custos mediáticos mas obriga-nos a ser muito mais intransigentes com a valorização política das nossas causas. Mas se queremos comunicar com seriedade, o esforço que temos de mobilizar para o fazer com base em ideias, propostas e posições públicas é tremendamente superior.

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