"A barraca do PS no Porto ultrapassa qualquer problemazinho no PSD"

Terminada a escolha autárquica nos 308 municípios, Carlos Carreiras, que coordenou todo o processo, aponta faltas de lealdade em Lisboa . Acusa os críticos de Passos de se moverem por vontade de protagonismo e aproveitamento pessoal, numa atitude que é até "um ato não patriótico". E diz que há "muitas coligações obscuras por todo o país, especialmente entre o PS e o PCP", para as eleições de outubro.

O seu trabalho como coordenador autárquico está terminado?

Está. Dentro dos prazos que estavam estabelecidos, da estratégia que foi definida, no cumprimento dos estatutos.

Uma das últimas decisões foi Oeiras. O PSD esteve à espera de Isaltino?

Não. Oeiras é sempre um processo mais complexo, a estrutura local precisou de mais tempo. Mas é um assunto encerrado.

Admite que as coisas não correram bem em Lisboa?

Em Lisboa, é claro aquilo que sempre dissemos: havendo a possibilidade de poder candidatar à câmara alguém que tem um currículo muito forte, que é reconhecido como um dos grandes presidentes que Lisboa teve, o Dr. Santana Lopes, essa expectativa levou-nos a que tudo pudesse ser condicionado à manifestação de vontade do próprio...

O PSD ficou um pouco refém dessa manifestação de vontade de Santana...

Sim, mas pelas razões que referi. Mas o processo de Lisboa cumpriu na mesma os prazos. Quando a vontade do Dr. Santana Lopes foi conhecida, reiniciámos o processo. Depois misturam-se as próprias idiossincrasias pessoais, nem sempre manifestadas de forma leal ...

Houve faltas de lealdade ?

De algumas pessoas não tenho qualquer dúvida.

Está a falar de quem? Do líder da concelhia que se demitiu?

Não quero personalizar. Eles sabem bem as lealdades que fizeram e a forma como conduziram o processo. Até porque, neste momento, um dirigente local concelhio ainda mantém esse mesmo estilo. Há muitos interesses, alguns legítimos, outros nem tanto, que também entram neste processo, que tentam criar alguma conflitualidade, em que, para concorrerem a favor dos seus interesses, legítimos ou não, envolvem outras questões. Como se tentou também criar uma vaga que não existe misturando questões de liderança do partido.

Está a falar do ex-líder concelhio...

Não necessariamente, o ex-líder apresentou a sua demissão, mas é uma coisa que se mantém a outros níveis da estrutura, a nível de vice-presidentes. Mas não vou contribuir para a falta de notoriedade que o próprio tem [uma referência a Rodrigo Gonçalves, atual presidente interino da concelhia]. E que apenas tem ou por maus motivos ou por situações que decorrem destas tentativas de fazer confusão que não em benefício do partido nem da candidatura.

É normal que a candidata autárquica não fale com a estrutura concelhia?

Está a falar. Essa mesma estrutura concelhia escolheu um redator do programa e foi com agrado que vi que a própria candidata o convidou - e ele aceitou - ser candidato a presidente da Assembleia Municipal. O coordenador do programa foi uma decisão da própria estrutura concelhia.

Teresa Leal Coelho não fez até agora campanha. Não está a partir tarde?

Os portugueses estão um bocadinho fartos de eleições, de tantas eleições, e ainda mais fartos de tantos períodos de campanha eleitoral. No caso da Dra. Teresa Leal Coelho ela conhece bem Lisboa...

E os lisboetas conhecem-na?

Conhecem. Neste momento, está na fase de aproximar as suas ideias com as da estrutura, através do coordenador do programa. É o momento de aprofundar as estratégias, o programa, de formação da equipa.

Teresa Leal Coelho não tem um défice de notoriedade em Lisboa?

Para isso é que existem as campanhas, para dar a conhecer o candidato e as suas ideias. Há uma crítica que me provocou alguns sorrisos que foi a acusação de que a Dra. Teresa Leal Coelho é candidata porque é amiga do Dr. Passos. Às vezes também me acusam de ser próximo de Passos Coelho. Ora, isso é uma enorme honra. Pior seria, como é o caso dos candidatos socialistas em Lisboa e Cascais, ser amigo de outro ex-primeiro ministro socialista, José Sócrates. Nisso eu não teria honra nenhuma.

Já disse que a candidata a Lisboa não foi a escolha "Z"". Mas chegou a fazer declarações em que disse que o PSD estava a falar com quatro pessoas e que o candidato do partido não seria, "provavelmente", uma mulher.

As candidaturas que foram anunciadas não existiram. Houve a questão do Dr. Santana Lopes, e de todos os nomes que apareceram na comunicação social houve um que, de facto, esteve muito próximo de poder vir a ser ou aceitar integrar a candidatura. Mas a Dra. Teresa Leal Coelho foi sempre uma das possibilidades. Não sendo, em determinados períodos, a mais provável.

Esta candidatura não se livra de reparos. Agora foi Nuno Morais Sarmento a dizer que Assunção Cristas é a única candidata que "tenta uma relação individual com o eleitor" e que os partidos, PSD incluído, escolheram os seus candidatos de forma "majestática".

Isso significa que o Dr. Nuno Morais Sarmento, de quem sou amigo, está completamente desinformado, ou pretende outros objetivos que não são aqueles que estão à vista. Ou é desinformação ou é um manifesto distanciamento em relação à realidade ou, no limite, é a utilização destes processos para atingir outros objetivos que não têm nada a ver com autárquicas.

Têm mais a ver com a liderança ?

Eventualmente. Não vou fazer processos de intenção.

Mas tem havido uma multiplicação de declarações, de dentro do PSD, menos favoráveis ou pouco auspiciosas para o resultado do PSD...

Tudo no mesmo enquadramento que já referi. Mas a minha responsabilidade não é a de acicatar mais essa falsa conflitualidade, porque em termos gerais e maioritários, ela não existe.

O PSD estabeleceu como meta vencer mais câmaras que o PS. Leva 44 de desvantagem. A esta altura, acha que é um objetivo exequível?

Na verdade, se forem recuperadas ao PS são 22. Esse objetivo foi traçado há mais de um ano e mantemo-lo. Se me pergunta se agora estou mais ou menos convencido de que é um objetivo concretizável, estou hoje muito mais convencido disso. Aliás, reparei que a minha homóloga no PS já veio deixar grandes salvaguardas, ou seja, estão a baixar a fasquia dos seus próprios objetivos. E também é curioso porque, de facto, nas próximas autárquicas é exatamente o mesmo votar PS, PCP ou BE. A maioria de apoio ao governo a nível nacional funciona a nível local. Como não quiseram assumir nas últimas legislativas essa coligação, nas autárquicas também não a querem assumir e, portanto, desvalorizam as suas candidaturas nos concelhos onde o outro parceiro de coligação está mais forte. Há muitas coligações obscuras por todo o país, especialmente entre o PS e o PCP.

Há uma espécie de geringonçazinha não assumida nas câmaras, é isso?

Nunca gostei de usar essa expressão. Se tivesse que o qualificar [ao governo] seria mais uma caranguejola porque aquilo é mais para andar para trás.

O PS acabou de se retirar da candidatura de Rui Moreira...

O Porto é um dos casos onde o PS tem falta de comparência. E não é só neste, há vários concelhos.

Mas o PSD apoia um independente no Porto...

Mas é diferente. É um independente, mas dentro de uma candidatura do PSD. Nós não nos envergonhamos, não temos candidaturas envergonhadas, não assumindo que são do partido. E o PS quando assume, pelos vistos, dá esta barraca. Diria até que uma barraca destas ultrapassa de longe qualquer problemazinho que o PSD tenha tido na condução deste processo autárquico.

Se o PSD não conseguir atingir os objetivos nas autárquicas, a quem é que caberá assumir as responsabilidades?

O responsável máximo, a nível nacional, sou eu. Irei ter todo o gosto em dedicar a vitória ao líder do partido.

O responsável último é o líder.

Há um dado curioso que mostra a nossa coerência e a incoerência do PS. Há quatro anos o PSD estava no governo. A desenvolver um programa que era do PS, porque foi o PS que negociou com a troika o que é que o governo tinha que fazer para podermos continuar a ser financiados, já que tinha levado o país à bancarrota. Nessa altura dissemos que as autárquicas eram 308 eleições, não havia nenhuma análise a nível nacional. O PS, na altura, querendo aproveitar-se das circunstâncias dizia "não, não, as autárquicas têm uma leitura nacional". Passados quatro anos, está o PS no governo e o PSD na oposição e o PS diz "não, não, as 308 eleições não têm nenhuma avaliação nacional". O PS mudou completamente a sua posição, enquanto nós continuamos a dizer o mesmo.

O dia seguinte às autárquicas vai abrir uma disputa de liderança no PSD?

As eleições internas vão colocar-se, necessariamente, depois das autárquicas, teremos um congresso eletivo. E aí será bom que se apresentem todos aqueles que entendam que têm um caminho alternativo a propor. Qual é a minha convicção? É que o partido, de uma forma esmagadora, se revê na liderança de Pedro Passos Coelho.

Alguns dos atuais críticos de Passos são nomes que lhe foram próximos.

Mas isso é um dos motivos que me leva a ter uma enorme admiração pelo Dr. Passos Coelho, que é um homem de uma grande verticalidade e de uma grande honestidade. E isso, infelizmente, na sociedade portuguesa, não é muitas vezes bem aceite. E como o próprio PSD emana da sociedade portuguesa também temos gente no PSD que também não aceita bem essa verticalidade, nomeadamente quando choca contra interesses que não são interesses coletivos, nem do país, nem do PSD, às tantas são meros interesses pessoais.

É isso que explica as movimentações que se têm visto no PSD?

Não quero cometer nenhuma injustiça, e tudo o que são generalizações têm esse risco. Mas, de alguns casos que conheço, é manifestamente isso.

É recandidato à Câmara de Cascais. Quais são os seus principais objetivos para este segundo mandato?

Temos atingido objetivos extraordinários e esse trabalho dá-nos um grande orgulho. Mas também sabemos os problemas que ainda não temos resolvidos e as oportunidades que ainda não temos exploradas. Mas considero que continuamos a ser nós quem está em melhores condições de continuar a desenvolver e a resolver os problemas que se colocam a Cascais.

Vai ter uma ex-ministra socialista como adversária...

Dizer só isso é quase desvalorizar a candidata. É uma ex-ministra socialista da área da Cultura, ex-diretora geral da região autónoma dos Açores, ex-deputada por um círculo eleitoral do norte, agora é deputada por outro círculo do norte e residente em Lisboa. Em termos de política nacional o PS aposta forte em Cascais. Tenho todo o gosto, mas confesso que não é a minha especialidade discutir política nacional. Como também acho que haverá uma grande dificuldade, por parte da candidata do PS, em discutir política de Cascais, já que não tem conhecimento rigorosamente nenhum, nem experiência, nem vivência do concelho. Mas admito que daqui até às eleições possa aprofundar esse conhecimento, apresentar algumas ideias para o concelho, diferentes daquilo que tenha ouvido até agora, que é propor aquilo que está a ser desenvolvido ou já está realizado em Cascais. Aí não acrescenta muita coisa, mas acredito que a seu tempo vá estar preparada para fazer campanha.

Está anunciada a transferência da Universidade Nova para o concelho. Há aqui uma aposta na captação da população estudantil?

Estamos a iniciar uma nova fase, que é estratégica, e que tem a ver com a captação de universidades, de conhecimento. Isso tem um efeito estratégico de médio/longo-prazo extremamente importante. Nós hoje vivemos um inverno demográfico: temos uma população cada vez mais envelhecida, com as necessidades todas que advém dessa condição. Embora tenhamos uma grande capacidade ao nível das políticas de apoio às famílias, o presidente de câmara não tem capacidade para por os seus munícipes a fazer filhos. Temos um problema de equilíbrio da pirâmide etária. Para isso estamos a atrair as universidades, que vão promover, por um lado a reposição do equilíbrio, acrescido da captação de conhecimento e de competências - as empresas querem vir para onde está o conhecimento e o talento. Anunciaremos em breve investimentos muito importantes no concelho. E estamos a falar num número de postos de trabalho muito apreciável.

O que é "muito apreciável"?

É podermos atingir cerca de 2000 postos de trabalho no curto prazo, em dois, três anos.

Já disse que, das funções que já desempenhou, esta é a que mais o realiza. Não ambiciona outras?

Funções a nível institucional, executivas, só autárquicas e em Cascais. E posso dizer que, mesmo do ponto de vista partidário, não terei disponibilidade para cargos executivos no próximo congresso.

Isso não significa um menor apoio a Passos Coelho?

Não. Estarei na primeira fila a apoiá-lo. Terá sempre em mim um defensor.

E no dia em que Passos quiser sair? Também acha que Luís Montenegro é um dos rostos do futuro no PSD?

Haverá várias soluções, depende das que se apresentarem. Cada um terá que explicar ao que vem e aí poderei ter um apoio maior a um ou a outro que se venha a apresentar. Há uma coisa que vou continuar a ser: leal ao partido. Independen-temente do líder, não farei a nenhum líder partidário o que vejo alguns companheiros meus, que já tiveram grandes responsabilidades no partido, estarem a fazer à liderança atual.

Está a falar de quem?

Qualquer pessoa consegue identificar. Alguns são meus amigos, mas critico-os, primeiro porque acho uma profunda injustiça. E uma enorme irresponsabilidade, até mesmo um ato não patriótico, algum desenvolvimento que fazem, apenas e só para algum protagonismo e aproveitamento pessoal.

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