2,7 milhões de cuidados perdidos por causa das taxas moderadoras

São consultas, exames e urgências. Valores desceram em relação a 2015. Há mais pessoas que acham que estão a pagar um preço justo pela saúde

São cada vez mais utentes que acham que estão a pagar um valor justo pelos cuidados de saúde que recebem, mas também pelo preço dos medicamentos. Apesar desta tendência ainda há muitas pessoas que não conseguem aceder aos cuidados de saúde e medicação por causa dos seus custos. No ano passado, segundo o estudo Índice de Saúde Sustentável 2016, houve um potencial de 2,7 milhões de cuidados de saúde não prestados e perto de 12% de pessoas que não compraram medicamentos por causa do seu valor. Ainda assim números inferiores aos registados no ano anterior.

De acordo com o estudo da Nova Information Management School, apresentado hoje na conferência Abbvie/TSF/DN, que tem por base um índice de zero a 100, a adequação do preço está nos 59 pontos, um aumento em relação aos anos anteriores. "Significa que a perceção dos utilizadores relativamente ao preço do sistema, quer no que diz respeito às taxas moderadoras, ao preço dos medicamentos e comparticipação do Estado, está a evoluir positivamente e de forma significativa. Quase 40% dos utilizadores consideram o valor das taxas moderadoras como adequados ou muito adequados e praticamente 50% dos utilizadores consideram que o preço dos medicamentos e a comparticipação do Estado é adequado ou muito adequado", explica Pedro Simões Coelho, autor do estudo.

A par desta realidade, uma outra: "Quase 12% das pessoas dizem que alguma vez deixaram de comprar um medicamento no último ano devido ao preço. Mas há dois anos eram 16%. Estamos sustentadamente a ver uma redução da percentagem de pessoas que não compra medicamentos devido ao preço", refere. No último ano 86% das pessoas tomou pelo menos um medicamento prescrito pelo médico e destes, 65% faziam-no por causa de uma doença crónica.

Quanto a cuidados de saúde, "estimamos que cerca de 2% das consultas em centros de saúde não se realizaram devido a questões relacionadas com as taxas moderadoras, que 3% das consultas externas em hospitais não se realizaram pelas mesmas razões, que 4% dos exames de diagnóstico não se realizaram e, talvez o número mais impressionante, cerca de 11% de episódios de urgência não se realizaram por questões relacionadas com a taxa moderadora." As estimativas apontam para 734 mil consultas perdidas nos centros de saúde, 433 mil consultas nos hospitais, 759 mil exames de diagnósticos e 765 mil urgências.

Também aqui uma descida. "Nos episódios de urgência o valor caiu 4,5 pontos percentuais face a 2015. Um valor ainda mais impressionante é o das consultas perdidas em cuidados primários que caiu 6,5 pontos percentuais. Trata-se de um sistema cujo preço ainda constitui uma barreira à utilização por parte de alguns cidadãos, mas notamos uma evolução no último ano positiva que está em linha com o que observámos na subida do índice de preço na ótica dos utilizadores".

Nos cuidados de saúde primários as taxas moderadoras desceram 50 cêntimos, o que terá contribuído para o resultado. Embora estes dados não estejam estudados, Pedro Simões Coelho refere que o alargamento das isenções e o aumento do rendimento disponível também poderão ter tido impacto. Em relação aos medicamentos, este último ponto terá pesado tal como a redução do preço dos medicamentos nos últimos anos.

SNS poupou 534 milhões

Este ano o estudo traz um novo indicador: o contributo do SNS para o estado de saúde da população. "43% classifica o seu estado de saúde como menos do que bom. É uma percentagem um pouco inferior à do ano anterior, mas não deixa de ser impressionante. Essa percentagem traduz-se num índice médio de 73 pontos. Faltam 27 pontos para chegar ao estado de perfeição, em média", explica Pedro Simões Coelho. E o contributo do SNS foi... "Estimamos que seja de aproximadamente de 15 pontos. Significa que se não tivéssemos o contributo do SNS, o estado de saúde da população não teria sido de 73 pontos mas de 58. Conseguimos mensurar, nesta forma de índice, um contributo muito significativo, diria mesmo muito impressionante, do SNS para a melhoria do estado de saúde da população."

O estudo quis medir esse impacto em valor económico no absentismo. Em média as pessoas terão faltado cinco dias ao trabalho por motivos relacionados com a sua saúde ou de familiares. Só em salários foram 1,7 mil milhões de euros perdidos. "Chegámos à conclusão que o contributo do SNS terá resultado numa redução de 1,6 dias por cidadão. Significa que sem o efeito do SNS, o número médio de dias faltado seria de 6,6. Isso também tem uma tradução económica muito interessante: estamos a falar de uma poupança para a sociedade de 534 milhões de euros, que corresponde basicamente, de grosso modo, a cerca de 6% da despesa do SNS que é retornada à sociedade no próprio ano em que os cuidados de saúde são prestados", salienta.

O estudo da Universidade Nova de Lisboa foi feito em fevereiro deste ano e teve por base 500 entrevistas realizadas a pessoas com 18 ou mais anos selecionadas aleatoriamente a partir de uma base de número de telefone gerados aleatoriamente. Os resultados foram extrapolados para o universo segundo uma pós-estratificação que tem por base as variáveis género e classe etária.

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