André Ventura não foi o candidato à Presidência da República que neste domingo obteve mais votos na União de Freguesias de Sacavém e Prior Velho, tal como não o foi no concelho de Loures, mas nem por isso deixou de juntar uma pequena multidão, próxima da centena de pessoas, na arruada que, na tarde desta terça-feira, marcou o arranque da sua campanha para a segunda volta. E aproveitou para apelar ao “povo comum, que todos os dias tem de lidar com o país em que vivemos”, no qual pretende encontrar os votos que lhe permitam derrotar António José Seguro, a 8 de fevereiro.“A minha Comissão de Honra é o povo português”, disse André Ventura, momentos após chegar à Avenida de Sacavém, onde a sua candidatura montara uma tenda com o seu rosto e o slogan “Salvar Portugal”, municiando aqueles que o aguardavam com sacos de pano enfeitados com a sua imagem, pins e demais material de campanha. As palavras ditas aos jornalistas foram a reação esperada à vaga de declarações de voto em Seguro feitas nas horas anteriores por dirigentes e eleitos sociais-democratas, centristas e liberais, mesmo depois de Luís Montenegro ter distanciado o PSD da segunda volta, de os candidatos derrotados Cotrim de Figueiredo e Marques Mendes se recusarem a dar indicação de voto, e de as lideranças da Iniciativa Liberal e do CDS ainda não se terem pronunciado oficialmente sobre o tema.Enquanto os seus apoiantes agitavam bandeiras e repetiam palavras de ordem, incluindo a já testada “8 de fevereiro, André Ventura em primeiro”, o candidato que ficou em segundo lugar neste domingo dedicou-se a atacar os “notáveis que ninguém conhece”. Referindo-se aos ex-deputados centristas Cecília Meireles e Diogo Feio, que convergi- ram na intenção de votar no antigo secretário-geral do PS, André Ventura foi particularmente cáustico. “Parou o país. Até pensei: ‘Será que posso continuar, nestas circunstâncias?’”.Noutro registo, o líder do Chega comentou que foi “com alguma estupefação” que viu políticos que “andaram toda a vida a dizer que queriam combater o PS” optarem por “correr para os seus braços” aquando daquilo que descreveu como “o primeiro momento [em] que o sistema foi posto em causa”. Apresentando-se desde a noite de domingo, ainda antes de os resultados oficiais garantirem a passagem à segunda volta, como o “candidato do espaço não-socialista”, Ventura deixou claro que pretende aproveitar o “momento clarificador”.“Houve certamente pessoas que vão votar em mim que votaram em Luís Montenegro nas legislativas. Há certamente pessoas que vão votar em mim que votaram em João Cotrim de Figueiredo na primeira volta. Há muita gente do PSD e CDS que vai votar em mim e que agora votou noutros candidatos. É para esses que me estou a dirigir”, disse, antes de iniciar o seu percurso em Sacavém. Com a comitiva a aumentar à medida que percorria as ruas, e muitos pedidos de selfies feitos por jovens, alguns dos quais só terão idade para eleger o chefe de Estado daqui a cinco anos, ouviu muitas buzinadelas de apoiantes e mesmo um incidente com um homem que terá gritado insultos, publicitado nas redes sociais do candidato como o sinal de que “esta gente tenta aparecer sempre nas nossas campanhas para ameaçar e intimidar”, foi rapidamente contido por agentes da PSP.Também contido, nesse caso por Patrícia Almeida e Bruno Nunes, deputados do Chega ligados ao concelho de Loures, ainda antes de a viatura do candidato presidencial chegar ao ponto de encontro, foi um momento de tensão protagonizado por uma militante social-democrata “desde há 50 anos”, que se insurgiu contra a propaganda eleitoral de Ventura. “Conheço esse palhaço desde o tempo em que ele estava no PSD”, disse a mulher, que acusou o ex-correligionário de ser “narcisista, manipulador e aldrabão”, ouvindo de um apoiante de Ventura, seu contemporâneo e também com um passado de 47 anos de militância no partido fundado por Francisco Sá Carneiro, que “tem de respeitar a nossa opinião”.Desafios a SeguroPara António José Seguro, Ventura deixou o repto de aceitar a realização de três debates televisivos, um dos quais dedicado aos problemas do Serviço Nacional de Saúde, depois de o candidato apoiado pelo PS ter iniciado a pré-campanha para a segunda volta, horas antes, com a visita ao Centro de Saúde de Odivelas. .“Quando ele quiser, onde ele quiser, nos moldes que quiser, quero lançar-lhe o desafio para que tenhamos três debates em todos os canais ao longo destas três semanas”, disse o líder do Chega, defendendo que a campanha para a segunda volta não se poderá limitar a “generalidades” e “baboseiras da luta contra a extrema-direita e contra o extremismo”. E que o seu adversário precisa de explicar ao eleitorado o que defende para Portugal quanto à saúde, à economia, à segurança e à imigração.Alegando ter informações de que Seguro “está a preparar-se para evitar debates nesta segunda volta, ou só quer fazer um debate”, André Ventura acusou o socialista de “ter medo do confronto a sério”, preferindo debates com Jorge Pinto, António Filipe e Catarina Martins, por sinal três candidatos de esquerda que já anunciaram apoio ao antigo secretário-geral do PS. E, sobre o que antecipa na campanha para a segunda volta das eleições presidenciais, o líder do Chega vincou que “isto não é para medrosos, nem é para medricas”, dizendo que está pronto a “lutar pelo país a sério”.Mesmo tendo ficado atrás do rival na primeira volta, com menos 428.256 votos do que Seguro, Ventura repetiu a ideia de que se poderá repetir o que sucedeu em 1986. Na única segunda volta de eleições presidenciais a ser disputada até hoje, o socialista Mário Soares ultrapassou o centrista Freitas do Amaral, mais votado na primeira volta. “Em todos os momentos da História, aqueles que pensaram que as coisas estavam ganhas tiveram más surpresas”, profetizou.Para tal conta com o efeito do receio do regresso do socialismo, que nas suas palavras “destrói, mata e corrompe”. Instado a explicar o efeito letal do regresso de um socialista ao Palácio de Belém, deu o exemplo de “leis que não foram promulgadas” no que diz respeito à imigração e à luta contra a corrupção, “permitindo que muitos escapassem”. E, em sentido inverso, disse que “leis promulgadas por Mário Soares e Jorge Sampaio”, ainda em vigor, permitem “julgamentos de 20 anos que nunca mais chegam ao fim”.Voltando a colar o adversário na segunda volta a José Sócrates, Ventura previu que “nos próximos dias” o antigo primeiro-ministro irá declarar apoio ao seu sucessor na liderança do PS, tal como Manuel Pinho e até Ricardo Salgado, “se ainda conseguir”.Contra este tipo de “notáveis”, o líder do Chega deixou a promessa de “uma campanha popular”, na qual fará por convencer os eleitores de que é “aquele que melhor corresponde às ansiedades de mudança”, Por isso, salientou, apela “a todos e, sobretudo, aos que não querem o socialismo de volta”. .Ventura exige três debates com Seguro, pois “isto não é para medrosos”.Ana Simões Silva abandona o Chega: “Nada tenho contra o partido ou André Ventura, mas já não aguentava mais”