Pouco mais de um ano depois de terem assumido os mandatos, seis dos 44 deputados que se estrearam na Assembleia da República depois das eleições legislativas de 2025 descrevem ao DN um Parlamento que os surpreendeu, por vários motivos, desde logo porque consegue “valorizar” os deputados, mesmo que seja palco, por vezes, de “comportamentos inenarráveis”. Entre as dez forças políticas que têm assento parlamentar, PSD, Chega, PS, IL, Livre e JPP foram as únicas que trouxeram às suas bancadas caras novas, com ideias e desafios diferentes numa legislatura mais virada à direita.Eleita pelo PSD, Bárbara do Amaral Correia recorda ao DN que a entrada na política foi “uma mudança enorme”, vinda de uma carreira jurídica em ascensão, até porque a deputada estava no setor privado, a trabalhar na sociedade de advogados Cuatrecasas, com a esperança de um dia chegar a sócia. A antiga líder da Juventude Social-Democrata no Algarve, admite que tinha uma visão diferente do trabalho legislativo, apesar da experiência jurídica que trazia no currículo. A integração nas comissões foi gradual, porque, admite, não ficou em nenhuma das que escolheu – a de Orçamento, Finanças e Administração Pública e a de Infraestruturas, Mobilidade e Habitação –, mas foi construindo o seu caminho e, hoje, já tem um pé dentro da primeira destas duas..O maior impacto veio do ambiente no plenário. A deputada admite ter ficado “chocada com o ruído e com a troca de insultos”. Relata momentos em que teve de interromper intervenções por isso mesmo, mas deixa uma receita para quem está nessa posição: “É preciso não ceder às tentativas de nos retirar o foco.”Sobre o trabalho legislativo, identifica como maior desafio a negociação com um Governo minoritário, principalmente com “a não passagem da reforma laboral” pelo crivo da maioria dos deputados. “Foi aquilo que mais me transtornou”, assume Bárbara do Amaral Correia,criticando a oposição por, no seu entender, tentar “governar através do Parlamento”.Entre as conquistas, destaca três, começando pelo Hospital Central do Algarve, a região pela qual foi eleita, algo que era reivindicado há 20 anos, sublinha. Depois, diz estar orgulhosa pela descida do IRC, porque, defende, “vai tornar-nos mais competitivos”. Por fim, destaca como vitória o regime fiscal para jovens, porque “é extremamente competitivo e motivo de orgulho”.Chega mal interpretadoRicardo Lopes Reis, que já conhecia o Parlamento por ter sido assessor do Chega, é uma das 15 caras novas na bancada liderada por Pedro Pinto. Afirma ao DN que a transição para deputado trouxe “um peso de responsabilidade muito maior”. No entanto, quando entrou já trazia uma polémica a pesar-lhe por ter escrito, numa publicação no X (que apagou depois), na sequência da morte de Odair Moniz: “Menos um criminoso, logo menos um eleitor do Bloco de Esquerda.”.Ao DN explica que houve “má interpretação” das suas palavras, e deixa apenas uma promessa: “Estou aqui para trabalhar, trabalhar, trabalhar.”O deputado identifica como maiores vitórias a revisão da Lei da Nacionalidade e da Lei de Estrangeiros, porque, defende, “necessitávamos deste acréscimo de controlo”. Ainda assim, lamenta que o processo no primeiro destes diplomas não tenha ido tão longe quanto o partido desejava, porque caiu a perda de nacionalidade para quem comete crimes. “Mas a política é a arte do possível”, admite.Sobre derrotas, recusa classificá-las como partidárias, porque considera que “a questão do Código Penal [da Lei da Nacionalidade] é uma derrota para o país, não para o Chega”. Sobre o pacote laboral, não hesita: “Foi uma grande derrota do Governo. Tivemos uma postura de responsabilidade.”Aprendizagem à esquerdaSofia Pereira, do PS, é a líder da Juventude Socialista. Depois das eleições, referiu uma crise de esquerda. Agora, vinca que esta “não está solucionada”, mas há coisas que podem ser feitas, até porque “a esquerda progressista tem de continuar a encontrar os seus caminhos para resolver a vida das pessoas”. Recusa usar sondagens – que têm colocado o PS à frente nas intenções de voto – como barómetro e diz estar mais centrada em perceber aquilo que o partido vai sentindo “junto das pessoas”. A deputada insiste na necessidade de o partido comunicar melhor, porque “as pessoas consomem muita informação pelas redes sociais”, ainda que seja “preciso estar lá de forma responsável”, e defende uma maior proximidade, porque os eleitores querem sentir que os políticos são “o vizinho do lado”..Sobre o trabalho legislativo, identifica resistências profundas na habitação e nos salários. Critica a direita por querer “revogar a lei de bases do clima” e acusa o Governo de ter uma “teimosia ideológica” que trava avanços. Na Educação, com os atrasos na correção dos exames nacionais, alerta para um ambiente de confronto com o Executivo de Luís Montenegro: “Sinto que lutamos contra uma parede, fazem da Educação um laboratório da reforma do Estado.”Por fim, Sofia Pereira queixa-se de um ambiente parlamentar nocivo, com “deputados com comportamentos inenarráveis”, ficando o debate “reduzido à gritaria e ao insulto.”Contra a burocracia e táticas partidáriasEntrou como líder interino da IL, depois de Rui Rocha ter deixado o cargo. Por isso, Miguel Rangel acumulou essa função transitória com a de secretário-geral do partido e coordenador autárquico nacional. Ao DN, confessa que a sua maior surpresa no Parlamento foi ter encontrado demasiada burocracia. “É normal que os processos legislativos sejam mais pesados, mais mastigados”, observa, mas não achava “que fosse tanto”..Ainda assim, o pior “bloqueio” que identifica para que o trabalho legislativo aconteça “é a tática partidária”, que, considera, “neste momento age de forma contrária aos principais interesses do país”. Miguel Rangel diz que todos os partidos deveriam “trabalhar para encontrar soluções”, o que, afirma, não está acontecer, acusando as forças políticas de estarem agarradas “a questões menores de combate partidário”, afastando “mais a classe política dos portugueses”.Entre conquistas, destaca a forma como a bancada liberal tem influenciado “debates essenciais sobre competitividade e liberdade económica”.Da Ciência para o hemicicloPatrícia Gonçalves, eleita pelo Livre, traz no currículo toda uma carreira académica como investigadora e professora. Ao DN, descreve a entrada no Parlamento como “interessante”, por “fazer uma coisa completamente diferente”. Porém, ao longo deste ano, a deputada que queria “propor legislação baseada em evidência científica” reconhece que o tamanho da bancada condiciona resultados – são seis deputados em 230 –, e identifica obstáculos estruturais, com a negociação parlamentar a fazer-se sempre “entre PSD, PS e Chega”..Ainda assim, ou por isso mesmo, a deputada destaca como uma vitória desta sessão legislativa a derrota da reforma laboral.Patrícia Gonçalves lamenta a falta de visão de longo prazo dos partidos e queixa-se por haver “sempre a urgência do mediatismo”, quando, considera,deviam “pensar melhor todos juntos”.Sozinho mas valorizadoO JPP foi o único partido a estrear-se no Parlamento em 2025, e Filipe Sousa fez o mesmo exercício. Confessa ao DN que “tinha uma noção diferente” do Parlamento, “mais pela negativa”, mas acabou por se sentir “valorizado”. Acredita que isso se deve à forma espontânea como comunica, para além de não ser “uma pessoa de conflitos”.Filipe Sousa traz uma experiência autárquica em toda a linha, na Madeira, e é isso que o faz prosperar no hemiciclo, explica: “Sinto que trouxe uma voz diferente para a República, que é a voz das ilhas, não só do ponto de vista geográfico, mas as diferentes ilhas que assolam o país”..Critica o Governo por trazer um “discurso ensaiado” e transmitir “para a opinião pública” a ideia de que o país “é um mar de rosas, quando, efetivamente, o custo de vida está mais alto e os jovens estão num desânimo”.“Para perceber isso temos que falar, temos que ouvir, e ter o tal dom de tentar perceber onde é que há as falhas”, afirma, garantindo que continuará a fazer polícia “sem gritarias” e “sem ofender”..Mário Amorim Lopes: "Governo joga para o empate e Chega acha que está a lutar boxe. Só a IL joga para ganhar".Rui Tavares ao DN: "Luís Montenegro tem usado ministros como para-raios" .Congresso do PS. Carneiro está aberto a alterações na lei laboral, mas "tudo ao contrário do Governo".Reforma laboral, combate à corrupção e natalidade nas jornadas parlamentares do CDS-PP