Marcada estrategicamente para começar dez minutos antes de soar a estridente campainha que convoca os deputados para o início das sessões plenárias na Assembleia da República, a reação de José Luís Carneiro à Operação Imergente, que envolveu buscas à sede nacional do PS e a figuras do partido, no âmbito de uma investigação que mobilizou 400 elementos da Polícia Judiciária e sete magistrados do Ministério Público, mostrou o secretário-geral a procurar que a notícia que marcou a atualidade nesta quinta-feira prejudicasse o menos possível a recuperação do seu partido.Desde logo, apesar de um dos implicados ser Miguel Coelho, ex-presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior e uma das figuras mais emblemáticas do PS-Lisboa, e da detenção de Duarte Moral (um dos cinco detidos durante o dia), assessor que ainda na véspera estivera consigo na Assembleia da República, Carneiro garantiu que o PS não está a ser visado na operação que o Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa esclareceu visar adjudicações de contratos por autarquias, num valor global próximo de dois milhões de euros, tal como a emissão de faturas para recebimento indevido, por dois dos suspeitos, de quantias de um partido político. Estarão em causa eventuais crimes de prevaricação, e ainda suspeitas de participação económica em negócio, peculato, abuso de poder, burla qualificada, falsificação de documento e fraude fiscal qualificada.“Tudo farei para que a legalidade seja defendida e promovida em todos os níveis de responsabilidade do PS, seja a nível local, seja a nível nacional”, garantiu o secretário-geral, acrescentando que, “a terem sido cometidos crimes, todos os responsáveis devem naturalmente ser responsabilizados pelos mesmos”.A intervenção de José Luís Carneiro terá servido como uma espécie de muro de contenção a possíveis reações epidérmicas às notícias sobre a Operação Imergente, que colocavam a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior como epicentro de uma sucessão de contratos por ajuste direto, realizados entre 2016 e 2022, e que terão lesado o erário público. Antigo coordenador autárquico socialista, o deputado André Rijo, apesar de garantir não pretender fazer uma relação de causa-efeito, comentou, no programa radiofónico “Entre Políticos”, transmitido pela Antena 1na manhã desta quinta-feira, que “no momento em que o PS aparece novamente a reconquistar alguma confiança, demonstrada em sucessivas sondagens, aparece este tipo de notícias”.Certo é que a investigação da Polícia Judiciária avançou para a fase de buscas e detenções para interrogatório num momento positivo para a liderança de José Luís Carneiro, que no último Barómetro DN/Aximage viu o PS aumentar a vantagem para as principais forças à sua direita. Numa altura em que se cumpre um ano das últimas eleições legislativas, nas quais os socialistas não só voltaram a ver a AD ganhar como perderam a liderança da oposição para o Chega, o estudo de opinião deste mês de maio mostrou o PS com 33,4% de intenções de voto, muito à frente do Chega (23,5%) e da AD (23,2%). Um resultado que teve o condão de animar Carneiro, sobretudo numa conjuntura em que o antecessor, Pedro Nuno Santos, retomou o mandato de deputado, enquanto o ex-ministro Duarte Cordeiro recupera forças e notoriedade no comentário televisivo.Consequência quase imediata da investigação foi a suspensão do mandato de deputado municipal de Miguel Coelho, histórico socialista que era o presidente do grupo do partido na Assembleia Municipal de Lisboa, sendo substituído por Hugo Gaspar. Num comunicado divulgado ao início da tarde, o antigo presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior justificou a sua decisão “para que esta situação não condicione o trabalho do grupo municipal do PS, o normal funcionamento da Assembleia Municipal, nem fragilize a muito necessária fiscalização ao executivo municipal”. E garantiu estar disponível para colaborar com as autoridades, defendendo-se “com a consciência tranquila” quanto à sua conduta e “com a honradez que sempre procurei colocar no meu percurso cívico e político”..Ventura faz ligação ao PSOE.Com a Câmara de Lisboa a ser cautelosa nas reações a uma operação que deu cumprimento a 60 mandados de busca domiciliária e 32 mandados de busca não domiciliária nas zonas de Lisboa, Mafra, Oeiras e Coimbra - a Câmara da Amadora também comunicou que houve buscas nas suas instalações, mas sem envolver a autarquia -, os piores ataques ao PS vieram de André Ventura, com o líder do Chega a fazer ligação entre José Luís Carneiro e os escândalos de corrupção que incidem sobre o PSOE espanhol.“Vemos o que está a acontecer em Espanha, com buscas na sede do PSOE e uma trama de corrupção que envolve a malha do partido. Parece haver aqui um padrão”, disse Ventura, considerando ser “muito importante que o PS não se escondesse e que não fosse protegido”, nomeadamente pela comunicação social, “para que não fosse permitido ignorar e seguir em frente, como se nada fosse”. Também não faltaram críticas ao que Ventura descreveu como uma “infantilização” do secretário-geral do PS, pois “nem fica nada bem dizer que a responsabilidade é do trabalhador”, embora Carneiro se tenha escudado no desconhecimento de dados concretos sobre a investigação para não comentar a detenção de quem tem sido responsável pela sua comunicação.Para o líder do Chega, a Operação Imergente é “uma questão que toca o núcleo duro do PS”, ressalvando que tal não significa que Miguel Coelho ou Duarte Moral sejam culpados. Ainda que, em sua opinião, seja necessário “chegarmos rapidamente a conclusões sobre isto e não ficarmos 10 ou 15 anos para saber o tipo de responsabilidade”..Antigo jornalista e assessor de Costa e Carneiro. Quem é Duarte Moral, implicado na operação "Imergente"?