No congresso do PSD em Sangalhos, Maria do Rosário Palma Ramalho, ministra do Trabalho e Segurança Social, deixou a garantia de que o Governo irá insistir “nesta e noutras reformas por Portugal”, fazendo alusão à lei laboral recusada no Parlamento na semana passada, contando apenas com votos positivos de PSD, CDS-PP e Iniciativa Liberal. Ao Diário de Notícias, Miguel Cabrita, ex-secretário de Estado e figura influente do PS durante os 11 meses de negociação, lamenta a leitura do Executivo. “Dizer isto no sábado, um dia depois do chumbo na Assembleia da República, depois de duas greves gerais pelo meio, de enorme consenso de diferentes quadrantes, até com pessoas do PSD... entendemos que esta afirmação é deslocada nesta altura. Aconselhar-se-ia uma reflexão sobre as razões para a oposição no Parlamento, sobre os manifestos erros de condução do anteprojeto na Concertação Social e as razões fulcrais da própria lei laboral. O Governo tem tido pouca flexibilidade para aprender com os erros e o PS não vê como sinal positivo essa intenção. Ainda com o cadáver a arrefecer, já há juras veladas de que o processo vai regressar. Seria um péssimo sinal não respeitar a Concertação Social”, principia, categórico, Miguel Cabrita.O parlamentar, integrante do Secretariado Nacional no qual colabora com Ana Mendes Godinho em matérias de Trabalho e Segurança Social, descarta, porém, pedir a demissão de Palma Ramalho, o que alguns deputados, como a líder da Juventude Socialista Sofia Pereira, têm manifestado em perfis sociais. “O PS não tem por habito pedir demissões de ministros. O PS não pede demissões de ministros na sequência da aprovação ou não aprovação de algum dossiê”, prevê Cabrita em relação à posição de José Luís Carneiro, embora saliente que, “tanto a ministra como o primeiro-ministro têm de fazer a avaliação se há condições para continuar”, considerando que o chumbo da lei “foi um revés sério.” “A proposta e o processo foram errados, foram desastrosos do princípio ao fim”, acrescentou.Questionado sobre uma possível aproximação do PSD ao PS depois de o Chega alterar a posição final na Lei Laboral, Cabrita não espera mudanças. “Não temos essa convicção, não há indicadores”, diz, exemplificando com a “surpresa” por não ter havido aprovação do nome de Luísa Neto para a provedoria da Justiça [teve 131 votos, logo terá tido também votos sociais-democratas apesar das críticas] , referindo que o “PSD não cumpriu acordos pela enésima vez”. Pontes queimadas na Prestação Social ÚnicaEm debate esta semana estará a Prestação Social Única (PSU), na qual o socialista diz existirem pontes queimadas. “O PSD preferiu colar-se ao Chega, preferiu avançar com um canal de denúncias, quis colocar carros e motas nos critérios de acessibilidade, algo que o PS revogou quando governava. Tínhamos em programa eleitoral a PSU, a identificação de que é preciso simplificar. É consensual no PS isso, viabilizaríamos, mas nunca tivemos qualquer interlocução e não abdicamos de garantir uma cobertura idêntica às pessoas com menos rendimento, o que não está a acontecer”, ressalvou, informando que o PS vai “apresentar propostas à alteração legislativa para restringir a margem do Governo.” A Prestação Social Única será discutida na 10.ª comissão, na quarta-feira, e votada na quinta-feira. Até o anúncio de um fundo soberano, no qual o Estado participará no capital de empresas de setores estratégicos, que pode aproximar-se das intenções socialistas, não é acolhida com grande otimismo. “Não sabemos nada sobre este slogan. O Governo está com dificuldades para executar os fundos do PRR [Plano de Recuperação e Resiliência]. O investimento público está largamente abaixo dos últimos anos. O mesmo líder partidário que assume este fundo para procurar entendimentos é o chefe do Governo que assumiu que gostava de privatizar a TAP a 100% e que não o fez por falta de apoios no Parlamento, é o líder do Governo que avança com reestruturações na Lusa e RTP, com concessões da CP a privados em Cascais e que vende imóveis necessários à habitação. É incoerente”, enumerou. Entre os anúncios feitos por Montenegro no Congresso do PSD, Cabrita só validou a “agilização da contratação pública” e que o PS, apesar de ter de discutir a orientação, “é favorável à desburocratização.”Centeno contribui e aproxima-se de CarneiroMário Centeno, antigo ministro das Finanças e ex-governador do Banco de Portugal, é o nome mais mediático do grupo de personalidades convocadas pelo PS para uma alternativa à proposta económica e laboral do Governo [ver mais aqui]. A aproximação aos projetos pedidos por José Luís Carneiro é inequívoca nos últimos meses, começou com a presença nos Conselhos Estratégicos do partido e o próprio líder do PS, antes do Congresso, comentou, há dois meses, que teria “todo o gosto” em acolhê-lo entre os militantes, negando preocupação com a possível força de Centeno caso decidisse avançar para o cargo de secretário-geral. Miguel Cabrita reconhece a importância de Centeno nestes encontros. “Mário Centeno disponibilizou-se para contribuir, é respeitado tanto na academia como internacionalmente, mas seria muito redutor colocar o enfoque na pessoa A ou B”, explana ao DN o deputado, apontando que há “estagnação ou recuo em áreas fundamentais” e que apesar de o Governo “enfrentar uma situação internacional de que não é responsável não está a fazer o suficiente.” Cabrita, por isso, lamenta que não se interfira “no curto prazo, na habitação, no custo de vida”, avisando que a “baixa generalizada do IRC faz muito pouco pelas empresas.”Vincando que a equipa de “investigadores dialoga com empresários e parceiros sociais”, avança que sairão propostas da rota da do Mar e do Ensino Profissional que têm sido levadas a cabo. “Estamos em auscultação pelo país”, diz, em elogio, à direção do PS. .Carneiro disponível para cooperar com Montenegro em políticas de crescimento económico.Carneiro acusa Governo de desvalorizar o trabalho e apresenta plano económico para “fixar e atrair gerações qualificadas".Federações do PS: três nomes próximos de Carneiro ganham em Coimbra, Bragança e Braga