O PS corrigiu este domingo o sentido de voto e passou a estar contra o relatório da Comissão da Transparência que concluiu que a socialista Eva Cruzeiro desrespeitou “deveres fundamentais dos deputados” ao chamar “racistas e xenófobos” aos parlamentares do Chega.“Tendo verificado a partir de notícias publicadas na imprensa que foi registado como favorável o voto do grupo parlamentar do PS em relação ao relatório relativo à conduta da deputada Eva Cruzeiro (na sequência de queixa do deputado Filipe Melo e do qual era relator o deputado Hugo Carneiro) (…) teve o grupo parlamentar do PS já oportunidade de solicitar a correção do sentido registado: o sentido de voto é contra”, escreve o partido em comunicado.A bancada do PS refere que a matéria foi tratada no final da reunião desta comissão parlamentar, na quinta-feira, “sem apresentação ou discussão do relatório”.“Tendo em conta o adiantado da hora (já em cima do início da sessão plenária) e a demora nos pontos anteriores, foi assumido erradamente (pelo PS e outros grupos parlamentares) que o que estava em causa era a conclusão da apreciação e votação de outro parecer da agenda (que concluía pela ausência de violações às regras de conduta pela deputada), e que esta matéria teria ficado adiada para próxima reunião”, justificam os socialistas.No entanto, como esse não foi o entendimento da mesa, “o sentido de voto sobre o relatório é contra e isso foi já transmitido”, considerando que só esta posição está em linha “com todas as posições do PS sobre esta matéria”.“O tema adquire relevo mediático pela natural estranheza com que é recebida a ideia de que a posição do Partido Socialista poderia ter sido favorável, lamentando naturalmente o grupo parlamentar o erro e as perceções que possa ter inadvertidamente permitido, bem como a ideia de que de alguma forma teria contribuído para censurar a deputada Eva Cruzeiro”, refere ainda o partido.No relatório do inquérito, a que a agência da Lusa teve acesso na sexta-feira, transmitido como aprovado por unanimidade, o parlamento concluiu que a socialista Eva Cruzeiro desrespeitou “deveres fundamentais dos deputados” ao chamar “racistas e xenófobos” aos parlamentares do Chega, um “comportamento inadequado e inaceitável”, embora que não poderia ser sancionado “por falta de habilitação legal”.A abertura do inquérito tinha sido determinada pelo presidente da Assembleia da República na sequência da participação contra a deputada do PS Eva Cruzeiro feita pelo deputado do Chega Filipe Melo, à qual se associou depois o partido.“Chamar ‘racistas’ e ‘xenófobos’ aos deputados de uma determinada bancada parlamentar, tratando-os por ‘vocês’, constitui um comportamento inadequado e inaceitável por parte de uma senhora deputada à Assembleia da República”, pode ler-se no texto do relator, o deputado do PSD Hugo Carneiro.No comunicado deste domingo, o PS contrapõe que a deputada Eva Cruzeiro “caracteriza uma conduta e as posições de uma força política como racistas, como é totalmente legítimo fazer quando correspondem a essa qualificação, sem margem para dúvidas”.“As palavras não perderam o seu significado, e qualificar aqueles que reiteradamente proferem afirmações racistas é não só um direito de um deputado no exercício livre do seu mandato e do uso da palavra, como um dever de defesa dos valores da Constituição e da decência”, refere o PS.A bancada do PS acrescenta que, “segundos depois de ter proferido a referida afirmação, a deputada Eva Cruzeiro foi imediatamente objeto de insultos racistas provenientes da bancada do Chega, exigindo que ‘voltasse para a sua terra’, evidenciando na prática a razão que assiste à deputada visada”.“O Grupo Parlamentar do PS não poderia, pois, em circunstância alguma tolerar qualquer conclusão que relativizasse a gravidade do sucedido, transformando a vítima de agressões verbais racistas em responsável por conduta violadora de padrões aplicáveis à representação parlamentar e reitera a sua solidariedade à deputada Eva Cruzeiro e à coragem, empenho e fibra que revela no exercício do seu mandato, honrando a tradição do PS e da democracia”, salienta o partido.Mesmo com os votos contra do PS, os votos favoráveis de PSD e Chega são suficientes para que o relatório tenha sido aprovado.