Uma vitória de António José Seguro na segunda volta das eleições presidenciais, disputadas neste domingo, vai trazer uma mudança de fundo no Palácio de Belém, após duas décadas em que antigos líderes do PSD assumiram a chefia de Estado, mas não destoará do que acontece na União Europeia. Apesar da vaga de governos à direita, desde a democracia-cristã até aos mais conservadores e radicais, pelo menos nove dos atuais presidentes são socialistas e progressistas.Tendo em conta que seis dos 27 Estados-membros da União Europeia são monarquias constitucionais, e que vários presidentes são centristas ou dificilmente enquadráveis no espetro ideológico, o balanço entre socialistas e democratas-cristãos acaba por se desequilibrar com a saída de cena de Marcelo Rebelo de Sousa, um Chefe de Estado que liderou uma força que integra o Partido Popular Europeu e que tem os mandatos marcados por uma utilização dos seus poderes que contribuiu para travar a legalização da eutanásia.Caso se confirme aquilo que indicam todas as sondagens até agora conhecidas, e for eleito Presidente da República na segunda volta, António José Seguro será mais um Chefe de Estado de centro-esquerda. Juntar-se-á a figuras que não foram eleitas por sufrágio universal, como o alemão Frank-Weller Steinmeier, e o italiano Sergio Mattarella, que começou na ala esquerda da antiga Democracia-Cristã e foi um dos fundadores do Partido Democrático, ao lado de ex-comunistas.Mas entre os 21 presidentes de Estados-membros da União Europeia há quem esteja mais à esquerda, nomeadamente a irlandesa Catherine Connolly, que se apresenta como pacifista, mas não raramente enfrenta acusações de pertencer à extrema-esquerda, devido às críticas à NATO e ao “estado genocida” de Israel.Quanto aos restantes prováveis futuros homólogos socialistas de Seguro, além da maltesa Myriam Spiteri Debono, eleita pelo mesmo parlamento que já presidiu, destaca-se o contingente da Europa de Leste. Iliana Iotava, antiga vice-presidente da Bulgária, está a completar o mandato de Rumen Radev, um independente com currículo militar, mas os eleitos por sufrágio universal incluem Peter Pellegrini (Eslováquia), Natasa Pirc Musar (Eslovénia), Zoran Milanovic (Croácia) e Alexander van der Bellen (Áustria). Alguns estarão consigo no Grupo de Arraiolos, criado pelo seu antecessor, Jorge Sampaio, como um fórum para Chefes de Estado da União Europeia que não têm funções executivas.Os presidentes da União Europeia que são, em simultâneo, chefes de Estado e de Governo estão noutro lado do espetro político. O principal exemplo é o centrista francês Emmanuel Macron, mas o mesmo sucede ao democrata-cristão cipriota Niklos Christodoulides.Patriotas vão tentandoPara André Ventura, mesmo que as hipóteses de vitória sejam manifestamente reduzidas, tendo em conta a mobilização de figuras destacadas do centro-direita no apelo ao voto útil em António José Seguro, a participação na segunda volta destas presidenciais eleva o seu estatuto, e o do Chega, no seio dos Patriotas pela Europa, uma das famílias políticas mais à direita no Parlamento Europeu. Apesar de os Patriotas pela Europa terem um Chefe de Estado da União Europeia nas suas fileiras, o Presidente da Hungria, Tamás Sulyok, foi eleito de forma indireta, pelos deputados do Fidesz, partido do primeiro-ministro Viktor Orbán. E o Chefe de Estado mais à direita entre os 27 países comunitários eleito por sufrágio universal é o polaco Karol Nawrocki, do Partido Lei e Justiça, que agora está na oposição ao governo de centro-direita do pró-europeu Donald Tusk, mantendo-se como um pilar dos Conservadores e Reformadores Europeus, família política de direita nacionalista liderada pelos Irmãos de Itália, da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni.Conseguir eleger um presidente em eleições diretas é um dos objetivos dos Patriotas pela Europa e Ventura está a seguir as pisadas de Marine Le Pen, que já se candidatou três vezes - e aguarda por um recurso contra a sentença que a torna inelegível para as eleições de 2027 -, obtendo 41,4% dos votos na segunda volta de 2022, contra Emmanuel Macron, depois d enão ir além de 33,9% cinco anos antes.Já no ano passado, o romeno George Simion, do partido de direita radical AUR, também chegou à segunda volta, acabando derrotado pelo independente liberal Nicusor Dan. Mesmo assim, o nacionalista atingiu 46,4%, Uma fasquia que deverá estar muito além do que André Ventura pode ambicionar no domingo, mas que visa replicar o efeito que as sucessivas candidaturas de Marine Le Pen tem tido no alargamento da sua base eleitoral. .Reta final de Seguro será contra a desmobilização eleitoral e também terá ambiente na agenda.“Contra tudo e contra todos”, Ventura ruma a Lisboa (ou a Sintra) e com dois adversários na mira