Passos diz que Estado "já não tem autoridade" para salvar o SNS. E critica estratégia de Montenegro
Pedro Passos Coelho regressou ao espaço mediático este domingo (12 de outubro) com um aviso dramático sobre a falência da capacidade do Estado em reestruturar os seus serviços mais básicos. Numa extensa entrevista conduzida por Maria João Avillez, na SIC Notícias, o antigo primeiro-ministro traçou um retrato sombrio do país, afirmando mesmo que "o Estado já não tem autoridade para reabilitar o Serviço Nacional de Saúde como ele precisava de ser reabilitado".
O diagnóstico do antigo líder social-democrata é severo: o Estado "já não tem autoridade, se quiser, gestionária", disse. Isto porque, prosseguiu, o fosso entre as instituições e quem lá trabalha é tão grande que "são os próprios profissionais que já não acreditam nisso".
A mesma falência, defende, estende-se a setores cruciais como a Educação e a Habitação.
Declarando-se um cidadão "desiludido", Passos Coelho não poupou críticas à falta de ímpeto reformista do atual Executivo liderado por Luís Montenegro.
Lamentando que o país tenha mergulhado "na gestão corrente e no dia-a-dia" nos últimos anos, constatou com nítida amargura que, após a mudança de governo, "a ambição transformadora tem sido lenta a passar do programa para as ações do governo e para a realidade do país".
Para Passos, existe mesmo uma fratura interna no atual pensamento dos sociais-democratas: uma vez que a estratégia de "empurrar com a barriga" adotada por António Costa nos seus primeiros governos foi "premiada" com uma maioria absoluta, "é muito difícil convencer as pessoas hoje no PSD a não seguirem este caminho.
Ou seja, segundo Passos Coelho, o ex-primeiro-ministro governou sem resolver os problemas sérios do país e, ainda assim, conseguiu ser recompensado com uma maioria absoluta, "com a ajuda do Presidente da República e depois de um Orçamento de Estado que não foi viabilizado no parlamento". O receio de Passos é que o PSD caia na tentação de tentar imitar esta fórmula puramente tática em detrimento das reformas estruturais que, afirma, Portugal necessita de forma crítica.
O acordo à direita que "devia ser explorada"
Para concretizar essas reformas que vê como absolutamente necessárias, o antigo governante defende que Luís Montenegro cometeu um grave erro ao não procurar uma coligação ou entendimento estrutural à sua direita desde o primeiro dia.
Lembrando que "mais de 60% dos deputados no parlamento se situam à direita do Partido Socialista", Passos Coelho é claro: "Essa maioria deveria estar a ser explorada desde o início, com o Chega e com a Iniciativa Liberal".
"Não estou a dizer que seria uma possibilidade fácil (...) Mas era importante tentá-lo", frisou.
O ex-líder do PSD relembrou a sua própria experiência com o CDS, durante o governo no período da Troika, argumentando que "os governos para poderem transformar alguma coisa de importante precisam de apoio (...) no parlamento" e que o atual Executivo "devia ter tentado criar condições, ou com coligações, ou com acordos parlamentares, para ter um programa que pudesse durante quatro anos ser executado".
Rejeição do Bloco Central e da "armadilha política"
A alternativa atual de negociar diplomas pontualmente à esquerda e à direita é liminarmente rejeitada pelo antigo primeiro-ministro, que a classifica como "uma armadilha política imensa".
Na sua ótica, isto passa a imagem de que "ao PSD tanto lhe faz negociar medidas à esquerda com o Partido Socialista, como à direita pontualmente com o Chega ou com a Iniciativa Liberal".
O posicionamento do PSD como um "partido charneira" é, assim, algo que Passos rejeita.
Quanto aos apelos que têm surgido, de vários setores -- incluindo políticos e económicos -- para um possível entendimento de regime com os socialistas, a resposta de Passos é perentória. Um novo Bloco Central é ideia que "não tem pernas políticas para andar", até mesmo "perigosa".
"No atual contexto em que existem três forças políticas com alguma dimensão equiparável (...) evidentemente que um governo do Bloco Central (...) é quase como se estivesse a fazer um apelo a quem se entenda" de forma avulsa e sem estratégia.
A preparar o terreno para um regresso?
Apesar de ter sido várias vezes (e de muitas formas) questionado se está a preparar o seu regresso à política ativa -- e admitir que é abordado na rua por cidadãos que lhe pedem para intervir mais --, Passos Coelho jogou à defesa quanto ao seu futuro imediato, ainda que deixe a porta aberta caso o cenário político mude. "Nesta altura não sou candidato a nada, nem estou a preparar nenhuma candidatura. Se o estivesse a fazer, dizia-o", assegurou.
Só que, ao mesmo tempo, assumiu sem complexos o seu "dever" de intervir no espaço público, lembrando as responsabilidades que contraiu no passado e a sua "ligação até emocional" ao PSD. Num tom que soa a aviso para a atual direção, alertou que os portugueses que votaram na mudança à direita esperam transformações e que, se não houver capacidade de entendimento parlamentar, a frustração será inevitável.
Uma atitude que demonstra como Passos Coelho se quer manter a reserva moral e política do seu próprio partido, marcando o seu território reformista caso a tática da atual governação falhe.
Uma Europa asfixiada pelo Estado
A encerrar a entrevista, Passos alargou a sua visão crítica ao panorama europeu. Apoiando-se no recente relatório de Mario Draghi, o ex-primeiro-ministro elogiou o diagnóstico sobre a perda de competitividade e peso demográfico da Europa, mas criticou duramente a receita proposta.
Para Passos Coelho, a solução tradicional europeia é errada, porque "acham que isto se resolve com muito mais dinheiro público e com muito mais investimento público, criando novos fundos e criando nova dívida europeia". E sublinha que "o Estado a gastar dinheiro são impostos que estão a cobrar às pessoas", rejeitando a asfixia fiscal.
"Eu temo muito que a Europa, que está estrangulada pelo peso do Estado na sua economia e que perdeu competitividade porque regulou demais (...) esteja a tentar resolver o problema com as mesmas receitas que nos trouxeram até aqui", afirma.
O corolário desta inércia, avisa, é a subida dos extremos políticos: "Se nós queremos combater os populismos e os radicalismos, temos de resolver os problemas das pessoas e dar respostas àquilo que as aflige: a segurança, a imigração descontrolada, a estagnação dos rendimentos, a degradação dos serviços públicos.".
Um desafio que, nas entrelinhas, Passos Coelho considera que nem a Europa nem o atual Governo português estão, (pelo menos para já), a conseguir vencer.
