“Estou muito contente com o que fiz e se fosse hoje repetiria”. José Pacheco Pereira defende sem reservas a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeitou as críticas de quem entende que o historiador perdeu ao aceitar o frente-a-frente transmitido pela CNN Portugal na noite de 13 de abril, depois de Ventura ter insistido na tese de que houve mais “presos políticos” após o 25 de Abril do que em vésperas da revolução, afirmação que Pacheco Pereira classificou publicamente como uma “comparação absurda”.“Sim, tem mesmo de se meter a mão na massa”, afirmou, sublinhando que não aceita a ideia de que o combate político ao populismo se faça à distância. “Não alinho nessa posição. Se as pessoas têm pruridos em sujar as mãos, fazem mal. Em casos destes, é preciso sujar as mãos”, acrescentou.O historiador respondeu assim à metáfora, repetida nos últimos dias em artigos de opinião e comentários nas redes sociais, de que “nunca se deve lutar com um porco”, fórmula usada por vários observadores para criticar o tom do confronto com o líder do Chega, com comentadores a argumentarem que o frente-a-frente acabou por arrastar Pacheco Pereira para o terreno preferido de Ventura.Mas o antigo dirigente do PSD recusa a conclusão. “A ideia de que não devemos rebaixar-nos tem a ver com medo. Há muito medo”, diz o historiador. E vai mais longe: “A história diz-nos que, nos anos 30 e, mais recentemente, em França, com a Frente Nacional, esse caminho, inicialmente seguido, foi depois revertido por uma razão: não se pode deixar que digam certas coisas sem reação.”Para Pacheco Pereira, o erro está precisamente em deixar o espaço público livre para esse tipo de discurso. “Há uma esquerda que assume uma espécie de snobismo intelectual - eles são maus, discutem à bruta e, portanto, não se fala com eles. Sabe qual é o efeito que isso tem? Encontro esse efeito na rua, nas pessoas que me abordam depois daquele debate”, relatou. “É um número muito significativo de pessoas que vem ter comigo, que saem da mesa do restaurante para me cumprimentar. Não são apenas pessoas da elite. São pessoas que não se sentem representadas.”Segundo o historiador, a reação popular ao debate mostrou que existe um sentimento de vazio no campo democrático perante a ascensão do discurso populista. “Vêm ter comigo com uma certa dose de emoção e essa emoção tem a ver com o facto de não se sentirem representadas nesses outros debates”, afirmou, defendendo que o confronto direto é uma forma de responder a esse mal-estar.Pacheco Pereira considera ainda que o frente-a-frente teve uma utilidade concreta: "expor afirmações de Ventura sobre o 25 de Abril que nunca tinha dito. E só isso foi uma enorme vantagem”, concluiu Pacheco Pereira, sustentando que o debate permitiu tornar visível, de forma mais nítida, a leitura que o líder do Chega faz da democracia saída da Revolução dos Cravos. Ainda que lamente: “O mais grave é que as frases mais significativas que o Ventura disse, inclusivamente que o 25 de Abril era miserável, ninguém as reproduziu”. .Ventura aceita debate com Pacheco Pereira baseado em "factos e documentos".O pecado original de Pacheco Pereira