Candidata-se à presidência do CDS num momento em que o partido participa na governação do país, das regiões autónomas, de quatro das cinco principais autarquias e de mais algumas dezenas de câmaras municipais. Não vê motivos para os centristas estarem satisfeitos com a liderança de Nuno Melo? Avanço com o propósito de que o CDS, além de ter presença, deixe a sua marca. A presença é importante, desde que possamos influenciar e ser protagonistas de um projeto de esperança. Faz falta à política portuguesa um projeto de esperança. Uma ideia mobilizadora, que devolva confiança às pessoas. Durante muitos anos tivemos um país desconfiado, que foi sempre criando armadilhas a quem quer investir, quer viver do seu próprio trabalho, não quer pedir e quer produzir. Esse é o eleitorado do CDS, que não se vê representado. Continuamos a ter um país complicado para quem investe, para quem quer ter família e para os jovens. Perdemos, em cerca de dez anos, 200 mil jovens qualificados. Neste momento, somos um país exportador, o que não é bom quando estamos a exportar os nossos melhores. Essa ideia mobilizadora, que deve ser protagonizada pelo CDS, não tem estado presente. E é por isso que me candidato.Acredita que existe uma maioria silenciosa que pode estar disponível para essa mudança no congresso de Alcobaça? Desde a saudosa AD de Sá Carneiro e Freitas do Amaral que há proximidade e complementaridade entre CDS e PSD. Mas hoje aente-se diluição. E penso que é isso que os militantes, a maioria silenciosa de que fala, também pensam. Existe um descontentamento generalizado em relação à afirmação do CDS, que é útil precisamente por acrescentar ao PSD. Hoje não vejo que as nossas bandeiras, das famílias, da liberdade pessoal, dos produtores e dos contribuintes, estejam presentes. Vou propor ao congresso a recuperação do Partido Popular. Aquele que em 1992 tirou o CDS dos cinco deputados. Na altura, dizia-se, com alguma chacota, que era o partido do táxi. Passámos para 15 deputados em 1995 e fiz parte desse projeto, com orgulho e honra. Foi a ideia de um partido onde se acredita que o país só cresce com todos e não se põe as culpas dos erros de uns nos outros. Hoje ouvimos um discurso que só divide, e é na divisão que o discurso do ódio encontra terreno fértil para crescer. Este discurso, que coloca nos outros a culpa do nosso insucesso, tem de ser invertido, mostrando que há um país que pode crescer e poderá ser muito mais justo se todos se realizarem na sua plenitude. Para isso precisamos de um país de liberdade.Nos últimos tempos o CDS apresentou propostas na Assembleia da República como a proibição de bandeiras ideológicas em edifícios públicos ou restrições à mudança de sexo de menores de idade. Presumo que não é isso que tem em mente como prioridades...As nossas razões de existir não são essas, naturalmente. Existimos porque procuramos que o indivíduo se realize na sociedade em toda a sua dimensão. Deixe-me dar um exemplo da agenda política atual. Discute-se muito a legislação laboral, o banco de horas e o alargamento de razões que permitem a contratação a termo. Faz-se uma alteração à legislação laboral de forma isolada, não integrada no que deveria ser o propósito maior, que é uma agenda para a competitividade: como é que as empresas portuguesas podem pagar melhor e abandonar a ideia de que somos uma economia de baixos salários. Na equação da produção há três fatores: o custo de dinheiro, da energia e do trabalho. Estamos a olhar só para o custo do trabalho e a esquecer os outros, que nos estão a roubar competitividade. O CDS devia estar concentrado em criar condições para que as empresas tenham acesso a financiamento e a energia mais baratos. O CDS tem capacidade de impor essas ideias ao parceiro de coligação?Não tem de as impor. Tem de as levar para dentro da coligação. Somos o partido da família e das pessoas. Discutir questões pequenas - como bandeiras que se põem nos edifícios públicos -, é algo que se deve respeitar, mas não é identitário do partido. O nosso propósito é oferecer às pessoas um país onde possam aproveitar as suas competências, capacidades e méritos. Teme que o CDS se esteja a tornar um instrumento da coligação para tentar conter a atração de eleitorado pelo Chega?Quando fazemos a análise geográfica das zonas onde o Chega tem maior votação, encontramos, de Norte a Sul, concelhos onde o CDS nunca teve representação. Se existe a ideia de que o CDS pode fazer a contenção do eleitorado do Chega, tal ideia é errada, pois temos posicionamentos completamente diferentes. O Chega posiciona-se como partido que é protagonista da contestação e absorve o descontentamento. Nós devemos estar do lado oposto. Devemos ser o partido da esperança e de quem acredita que é possível ir mais além e fazer melhor.Manuel Monteiro e Paulo Portas também foram acusados em tempos de serem populistas.Podem ter sido protagonistas de um discurso de contestação que poderá ser confundido com populismo. Mas tiveram sempre um projeto de país e tinham com eles pessoas que já tinham dado contributos. Não era apenas discurso de protesto. Havia uma contestação ao federalismo europeu, sobretudo com Manuel Monteiro, pois existia o propósito de transformar a Europa nos Estados Unidos da Europa, à semelhança dos Estados Unidos da América. Essa contestação abrandou com Paulo Portas. Aliás, o próprio assumiu que deixou de ser eurocético.Para a sua decisão de se candidatar à presidência do CDS contribuiu saber que a moção da Juventude Popular também faz referências a um “partido politicamente menos reconhecível”, “sem agenda partidária estruturada” e “politicamente diluído”? A Juventude Popular é, claramente, o reduto de esperança do CDS. Tem uma liberdade e um discurso que me faz recordar os bons momentos do partido dos valores e das convicções, que não discute a verdade e não regateia meios para fazer justiça. É a Juventude Popular a que pertenci [e liderou, entre 1994 e 1996], da qual a idade me expulsou, mas onde me revejo e contribuiu para a minha candidatura.Revê-se no atual grupo parlamentar do CDS? Sim. Não há nada de que me recorde, nas propostas apresentadas, que colida com aquilo que entendo dever ser o posicionamento do partido. Mas, do ponto de vista de iniciativa política, o CDS deve oferecer aos seus deputados a possibilidade de irem mais além do que têm ido. É bom sinal ouvir dirigentes centristas afirmar que o CDS é o original e o Chega a cópia? É a primeira vez que ouço isso. Continuo a achar que são completamente diferentes. O CDS é um partido de discurso positivo e um partido de esperança. O Chega é um partido de protesto. Pelo menos até agora tem sido assim. Não sei como será no futuro, mas é claramente um partido que vai agregando o descontentamento social e faz disso o seu eleitorado. Se o CDS tiver a tentação de ser apenas um partido de protesto - e espero que não tenha - estará a trair a sua fundação. Não é esse o nosso propósito. A democracia-cristã nasce num período crítico, nos finais do século XIX, em que há um grande conflito social e é a causa laboral que a alimenta politicamente, como ideia de um Estado Social em que cada um tem a liberdade de produzir sem esquecer a obrigação de repartir. Este é o nosso ADN e a nossa bandeira identitária.Um democrata-cristão pode estar confortável com a inflexão deste Governo na política de imigração?A política de imigração deve ser uma política justa. Nós tínhamos uma não-política de imigração. Tínhamos as portas abertas.Luís Montenegro mencionou mesmo as portas escancaradas.Bastava uma declaração de intenção, dizer que se queria vir trabalhar, para entrar em Portugal. Isso não foi correto. Criou situações de grande pobreza e falsas expectativas em quem veio para Portugal. Não faz sentido nenhum e não é bom para ninguém. Os imigrantes que entram ilegalmente passam por várias provações, colocando muitos deles a vida em risco, chegam cá e não têm nada, pois estão numa situação que não lhes permite ter nada. Estamos neste momento a viver um período paradoxal, pois continuamos a ter falta de mão-de-obra em setores críticos, por exemplo na construção. Temos casas a preços absolutamente inacessíveis e não temos mão-de-obra disponível. Estima-se que faltam entre 60 a 80 mil trabalhadores no setor da construção. E temos imigrantes que não estão habilitados, nem têm qualquer competência, porque não foram enquadrados e entraram ilegalmente. A política de imigração, para um democrata-cristão - e isso tem de ser uma questão muito clara -, tem de ser uma política que acolhe bem quem quer vir por bem. E nós não estamos a acolher bem.Ainda não estamos?Ainda não. Temos pessoas que vêm com competências, por exemplo ucranianos que são médicos, que no seu país são reconhecidos nas ordens, e estamos a criar-lhes imensas dificuldades quando precisamos de médicos. Há múltiplos obstáculos a impedir que tirem proveito das suas competências e que Portugal as aproveite. A política de imigração de que precisamos é uma política proactiva, que escolhe quem entra em Portugal.Caso venha a ser eleito presidente do CDS, qual será a maior mudança na relação com o PSD? Pretendo uma grande afirmação do CDS, mas não temos que mudar a relação com o PSD. Nós temos é que mudar a nossa relação com o país. E o país tem de olhar para o CDS como sendo o partido da esperança que falta. Não é possível constituir família quando um apartamento em Lisboa, com 100 metros quadrados ou dois quartos, custa 50 anos de salário médio. Não podemos ficar à espera de que as coisas se resolvam porque não se vão resolver sozinhas. Temos de perceber o que está a condicionar a oferta para levar a este desequilíbrio enorme com a procura. Temos que ter soluções para que as nossas empresas sejam competitivas pagando salários altos. E, para serem competitivas pagando salários altos, temos de oferecer alternativas mais baratas na energia e no financiamento. Este é um partido que fala de soluções e faz propostas com ambição política. Não é um partido que não marca fronteiras, não levanta bandeiras e que não é útil para o PSD. O que muda na relação com o PSD? É um partido que complementa mais a AD. Numa primeira conversa com Luís Montenegro solicitaria a substituição dos governantes centristas?Isso não faria qualquer sentido. Estou a concorrer à presidência do CDS com o objetivo de o tornar um partido eminentemente popular. Não estou a pensar no Governo. Seguramente que os governantes do CDS serão sempre bons intérpretes das estratégias definidas pelo Congresso e pelos órgãos do partido. Essa é uma questão absolutamente secundária. Neste momento, o importante é levantar bandeiras e as pessoas perceberem que o CDS que foi o partido das causas e dos valores voltou a ter voz. Em todas as instâncias, seja numa câmara municipal, numa Secretaria de Estado ou no Conselho de Ministros. O importante é a voz ser ouvida e não o dono da voz.Posso depreender que considera que Nuno Melo está a ser melhor ministro da Defesa Nacional do que presidente do CDS?Não estou em condições de avaliar, porque isso são análises que competem ao líder do Governo. A minha disponibilidade e a minha vontade é criar um partido que recupere a nossa matriz. Candidato-me a presidente do CDS, não me candidato a ministro. É muito importante que isso fique claro. Estivesse o CDS fora do Governo e a minha motivação seria a mesma. Se ganhar o Congresso, não vou tomar qualquer diligência para substituir quem está no Governo. O nosso propósito, das pessoas que me acompanham, é voltar a construir partido.Quem estará na sua equipa?Ainda não está fechada. A seu tempo será revelada. Sendo crítico do pacote laboral, tal como tem sido discutido, que avaliação faz de Rosário da Palma Ramalho, a ministra que o está a tentar implementar? É um elo fraco deste Governo?Acho que, politicamente, anda em contramão. Neste momento, o problema do país é encontrar quadros. Quando a ministra olha para a legislação laboral, e vê apenas o lado da flexibilização, não está a perceber o que se está a passar. A maior parte das empresas tem problemas de recrutamento e não de dispensa de trabalhadores. Não conheço a senhora ministra pessoalmente, mas acho que é uma pessoa com uma perceção muito limitada do país.Esse é um defeito que deteta noutros membros do Executivo?Penso que a ministra da Saúde também chocou com a realidade. Apresentou-se com soluções fáceis, que não conseguiram vencer problemas difíceis, porque a saúde tem de ser enfrentada como uma alteração estrutural, e não onjuntural ou pontual. São áreas muito sensíveis, e nessas dimensões nada foi feito. O próprio sistema da Segurança Social hoje tem, do ponto de vista financeiro, uma previsão de equilíbrio para os próximos dez anos, mas na sua construção, em que é um sistema com reformas garantidas e depois vamos atrás das contribuições para as pagar, devia ser revisto, repensado e reanalisado. Cotrim de Figueiredo tem chamado a atenção para que será impossível, daqui a 30 ou 40 anos, a população ativa suportar os custos das pensões que terão de ser pagas nessa altura. Essa discussão tem sido adiada, mas adiar a discussão não resolve o problema. Na saúde é a mesma coisa. Estamos muito agarrados ao Serviço Nacional de Saúde, e precisamos de transformar o serviço num sistema, trazendo entidades que têm competência, capacidade instalada e provas dadas de competência nos cuidados que prestam.Nas últimas três eleições legislativas, o CDS não teve representação parlamentar em 2022 e elegeu dois deputados em listas conjuntas com o PSD em 2024 e 2025. O partido mais interventivo que defende é possível sem ir a votos em listas próprias? Com certeza que sim. Até diria ao contrário: só faz sentido ir em coligação um CDS interventivo. Um CDS passivo é que não faz falta à AD. Existe uma diferença substancial em relação a momentos do passado em que o CDS teve ressurgimentos eleitorais, que é o aumento de competição pelos votos. Além do PSD, existe o Chega e a Iniciativa Liberal. Como é que, no meio de uma oferta política tão sobrecarregada, o CDS pode garantir mais meio século de história? Penso que o país precisa do CDS e o seu espaço político continua por ocupar. Quando falo na recuperação do Partido Popular, é precisamente o partido que agrega, o partido que tem uma mensagem patriótica sem ser nacionalista. No sentido de que podemos ser mais. Não é que somos mais do que os outros. É que nos podemos superar. E cada um de nós poderá ir muito mais além. E poderá encontrar novas metas quando alcança as metas a que se propõe. Todos os partidos estão neste momento a competir no espaço do descontentamento. Nós queremos semear e colher no terreno da esperança. É esse discurso que faz falta a Portugal.Qual será a principal crítica que antecipa que o candidato à reeleição lhe irá fazer no Congresso de Alcobaça? Não faço a menor ideia, mas não estou a candidatar-me em função do atual presidente. Candidato-me porque acho que há uma grande diferença entre aquilo que o CDS deve ser e aquilo que é, independentemente do líder. Não pretendo fazer um combate personalizado. Visto que também está muito ligado ao Sporting, que no fim-de-semana do Congresso de Alcobça também terá decisões muito impactantes, pergunto-lhe o que considera mais provável: o Sporting conseguir aceder à Liga dos Campeões ou vir a ser eleito presidente do CDS? Não acho incompatível e acredito nas duas coisas. O Sporting teve uma época muito boa. Podemos dizer que quase morreu na praia, mas ainda acredito que consiga ir à Liga dos Campeões. Tenho gosto também de ter participado, na reestruturação de um Sporting que saiu do ataque à Academia de Alcochete extremamente fragilizado, com dez rescisões de jogadores que, no seu total, tinham um valor económico superior a 200 milhões de euros. E voltou a ser o grande Sporting. Fiz parte dessa administração e, portanto, estou habituado a retirar o melhor das situações mais críticas, a ultrapassá-las e gosto de fazer o caminho quando sei que tem um sentido e um propósito. Acho que as probabilidades são equivalentes. Já que falamos de Europa, consigo na liderança o CDS continuará no Partido Popular Europeu?O Partido Popular Europeu tem tido alterações de posicionamento muito significativas. Neste momento, é o nosso partido europeu e vai continuar assim. Já teve momentos em que me senti pouco representado, mas hoje não vejo razões para mudar..Nuno Correia da Silva anuncia candidatura à liderança do CDS-PP.CDS-PP vai fazer Congresso em Alcobaça a 16 e 17 de maio