Mais de quatro meses após o último Conselho Nacional do PSD, numa reunião em que fez o anúncio da morte do fundador do partido, Francisco Pinto Balsemão, Luís Montenegro prepara-se para ouvir críticas internas aos resultados das eleições presidenciais, nas quais Marques Mendes teve o pior resultado de sempre de um candidato apoiado pelos sociais-democratas, com apenas 11,3% dos votos, e aos problemas no Ministério da Administração Interna. Mas não se antecipa que as últimas declarações de Passos Coelho (ver frases ao lado), de quem o atual primeiro-ministro foi líder parlamentar, ecoem no Centro de Congressos de Lisboa, onde decorre a reunião, com início marcado para esta quarta-feira, 3 de março, às 21h00.“Passos vai ficar à porta”, disse ao DN Luís Rodrigues, que encabeçou uma das listas ao Conselho Nacional desligadas da liderança do PSD, representada por uma lista que juntou o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, e a agora comissária europeia Maria Luís Albuquerque. Ainda indeciso quanto à vontade de intervir nesta quarta-feira, o conselheiro nacional admite que “toda a gente ouve” as opiniões contrárias, “mas as consequências é que são poucas”.Certo é que, além das sucessivas intervenções públicas de Passos Coelho, que nos últimos dias criticou a escolha do diretor nacional da Polícia Judiciária, Luís Neves, para ministro da Administração Interna, e sugeriu que o Governo procure reforçar a sua legitimidade em novas eleições antecipadas caso a oposição faça uma convergência para rejeitar a revisão da legislação laboral, as eleições para as estruturas locais do partido, realizadas neste sábado, tiveram alguns resultados vistos como “derrotas estrondosas” para Luís Montenegro.Uma delas aconteceu “em casa” do líder social-democrata, pois na concelhia de Espinho o deputado Ricardo Bastos Sousa conseguiu ser reeleito, com mais dois votos do que a também deputada Carolina Marques - que teve a mulher do primeiro-ministro entre os seus apoiantes -, depois de ter sido impedido de se candidatar à presidência da Câmara, alegando então ser vítima de “um ajuste de contas” de Montenegro. Mas também a distrital de Braga, única em que havia duas listas em disputa, deu vitória ao ex-deputado Carlos Eduardo Reis, próximo de Rui Rio e afastado das listas de deputados às legislativas de 2025 devido ao seu envolvimento no processo Tutti Frutti. Derrotado na tentativa de obter mais um mandato foi o atual eurodeputado Paulo Cunha, antigo presidente da Câmara de Vila Nova de Famalicão e que chegou a ser um dos vice-presidentes de Luís Montenegro, apesar de contar com o apoio de Hugo Soares, secretário-geral e líder parlamentar do PSD. Os líderes distritais têm assento no Conselho Nacional, por inerência, mas ao que o DN apurou não é certo que Carlos Eduardo Reis esteja no Centro de Congressos de Lisboa, pois ainda não terá feito uma reunião de transição com o antecessor. Estando o primeiro ponto da reunião do Conselho Nacional consagrado à análise da situação política, os problemas no Governo, e acima de tudo a demissão de Maria Lúcia Amaral, que forçou Luís Montenegro a assumir transitoriamente a pasta da Administração Interna durante o “comboio de tempestades” que provocou danos multimilionários e a morte de 19 pessoas, não serão esquecidos. Tal como o mau resultado de Marques Mendes nas eleições presidenciais.Essa é uma das críticas que será feita pelo antigo deputado André Pardal, que encabeçou outra lista alternativa à de Moedas. “O resultado mostra que foi um erro de palmatória”, defendeu o conselheiro nacional social-democrata, apoiante da candidatura presidencial de Gouveia e Melo, recordando um empenho do primeiro-ministro, tal como de vários membros do Executivo e do secretário-geral do PSD, na campanha do ex-líder e conselheiro de Estado, que deve implicar uma discussão sobre a derrota de Mendes, “da forma como foi e com o resultado que teve”. Mesmo excluindo levar para a discussão as declarações de Passos Coelho, André Pardal coincide com o antigo líder e primeiro-ministro na ideia de que a entrada de Luís Neves para o Governo constitui um precedente grave, devido à transição direta da Polícia Judiciária para o Ministério da Administração Interna. Tão “surpreendente escolha” não será esquecida pelo antigo deputado, tal como as suas duas antecessoras “esdrúxulas” nos executivos de Luís Montenegro, tornando essencial que seja feito “um ponto de situação no Governo, nomeadamente no que falhou até agora e naquilo que há a melhorar”.Mas também há quem não veja os resultados de sábado como sinal de preocupação para Montenegro. Para João Gomes da Silva, que encabecou a segunda lista mais votada, deve-se “destacar de alguma forma a tranquilidade com que decorreu o processo de eleições internas”, nomeadamente a estreia de Bruno Ventura e de Ricardo Mexia na distrital e na concelhia de Lisboa, onde é militante. Quanto à liderança de Luís Montenegro, defende que “deve continuar a concentrar esforços para reforçar a união interna, bem como a nossa identidade partidária”, assegurando o “objetivo muito importante” da estabilidade governativa no Executivo da AD.Regulamento de Ética vai a votos Além da intervenção com que Luís Montenegro deverá apontar prioridades para o novo ciclo político, a dias da tomada de posse de António José Seguro como Presidente da República, o Conselho Nacional terá na sua agenda o orçamento do PSD para 2026, o Regulamento das Seções Temáticas e, sobretudo, a apresentação, discussão e votação do Regulamento de Ética e Designação de Cargos Públicos. Previsto nos estatutos aprovados no último Congresso do PSD, em outubro de 2024, o documento que será submetido à votação dos conselheiros nacionais prevê que os candidatos do partido “devem agir em prossecução do interesse público e dos cidadãos que, ao nível individual ou coletivo, representam, não usufruindo de quaisquer vantagens financeiras ou patrimoniais, diretas ou indiretas, para si ou para terceiros, em virtude do cargo que ocupam”.