O debate quinzenal com o primeiro-ministro começou com um desafio da líder parlamentar do Livre, Isabel Mendes Lopes, que Luís Montenegro não aceitou: “retirar o Pacote Laboral.” A ideia era “falar a sério sobre o futuro do trabalho”, explicou a deputada, mas o chefe do Governo preferiu acusar toda a esquerda de estar a entoar “um hino ao equivoco”, até porque, apontou, aquele desafio era “uma assunção do imobilismo do Livre e da esquerda deste Parlamento”. Montenegro teve ainda de responder às perguntas lançadas pelo hemiciclo sobre custo de vida, apoios aos efeitos dos comboio de tempestades e a recente polémica em torno do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP), cujas explicações remeteu para uma posterior audição parlamentar do ministro da Administração Interna, Luís Neves. Curiosamente, os dois principais partidos de oposição não usaram a carta do pacote laboral neste debate.À direita, a preocupação do líder do Chega no arranque da sua interação com o primeiro-ministro foi o comboio de tempestades, afirmando que “a gestão da crise revelou insuficiências na coordenação e falta de clareza e inoperacionalidade”.Referindo-se ao relatório elaborado pela Presidência da República sobre o tema (que mereceu, recorde-se, a primeira Presidência Aberta de Seguro), André Ventura reforçou que houve “excesso de improviso, articulações feitas sob pressão, défice estrutural, défice estrutural de preparação prévia” no que diz respeito à gestão da crise.“Os senhores preferem culpar os municípios do que assumir a vossa responsabilidade”, atirou André Ventura, lembrando que das 36 mil candidaturas a ajudas de despesas que foram entregues na sequência das intempéries, “só 9000 é que foram pagas”. “É um falhanço em toda a linha do seu Governo”, concluiu.A Saúde também foi tema no debate com o primeiro-ministro, trazido a jogo por José Luís Carneiro. O líder do PS acusou o Governo de um “falhanço clamoroso” no SNS e disse que Montenegro “faltou à verdade” quando prometeu uma reforma rápida da Saúde durante a campanha.Carneiro desfiou os números das consultas nos centros de saúde: “Foram menos 760 mil consultas durante 2025. Significa menos duas mil consultas por dia”, acusando o Governo de “falta de sensibilidade e resposta às pessoas”.Depois, chegou o tema que suscitou mais polémica nos últimos dias: o SIRESP. Primeiro, André Ventura atacou os “800 milhões de euros” que foram gastos até agora no sistema e questionou a renomeação do general Viegas Nunes para a liderança da empresa que gere o sistema de comunicações de emergência. “Como é que numa coisa que funcionou tão mal, nomeamos para o mesmo lugar o homem que lá estava quando tudo funcionou mal?”Pouco depois foi a vez da Iniciativa Liberal se agarrar ao tema. “Nós estamos à beira da época de incêndios e a única referência que o senhor primeiro ministro fez neste debate sobre o SIRESP foi para dizer que o tema é antigo”, lançou por seu turno a líder da IL, Por isso, apelou Mariana Leitão, “gostava de saber se o senhor primeiro-ministro vai ou não partilhar o relatório com as conclusões do grupo de trabalho [para estudar o SIRESP] com a Assembleia da República e com os portugueses”.Montenegro reiterou que o ministro da Administração Interna, Luís Neves, “estará no Parlamento para prestar todos os esclarecimentos sobre o caso, que envolveu a recente demissão do secretário-geral adjunto do MAI, António Pombeiro.A uma semana da greve geral convocada dia 3 de junho pela CGTP, a reforma laboral proposta pelo Governo foi naturalmente tema recorrente. No apoio ao Executivo, o líder parlamentar centrista, Paulo Núncio, perguntou diretamente ao primeiro-ministro, de forma retórica, que consequências teria a rejeição no hemiciclo da proposta de lei do Governo para reformar a lei laboral. Montenegro avisou: sem reforma, o país arrisca ficar “impávido e sereno a assistir a taxas de crescimento económico que estão comprimidas e muito dificilmente ultrapassarão os 2%”. O objetivo, disse, é chegar aos “3,5% e 4%”.O primeiro-ministro garantiu ainda que “não há nenhuma compressão dos direitos dos trabalhadores”, mas sim “adequação das leis laborais à dinâmica económica”, insistindo que a reforma serve para “não sermos ultrapassados” pelos restantes países.Por seu turno, o deputado único do BE, Fabian Figueiredo, não poupou nas críticas ao Pacote Laboral, que apelidou de “zombie legislativo” na Habitação e no custo de vida. E o líder do PCP, Paulo Raimundo, acusou Montenegro de olhar para o país “através dos olhos das famílias Azevedo, Soares dos Santos e Amorim” quando diz que o país “está hoje melhor”, com a governação da AD. E evocou críticas de Passos Coelho para ironizar com o “ritmo” do Governo, acusando Montenegro de, ao contrário das críticas do ex-primeiro-ministro, ter bastante ritmo “a atacar os direitos dos trabalhadores ou a desmantelar o SNS”. O que permitiu ao primeiro-ministro deixar uma resposta, indiretamente, ao seu antigo chefe de partido, descrevendo o espírio da sua governação: “Há quem diga que temos um ritmo demasiado lento ou demasiado rápido, mas somos corredores com endurance. Para chegar à meta não se pode sprintar nos primeiros tempos nem ir demasiado devagar”.."Somos um corredor de endurance". A garantia de Montenegro num debate que teve SIRESP, SNS, custo de vida e pacote laboral.Montenegro defende reforma laboral que trará "ainda mais dinâmica" à economia e "aguarda serenamente" anúncio de greve geral