O debate sobre o Estado da Nação teve os esperados apelos à demissão de Fernando Alexandre e de Luís Neves, mais generalizados no caso do ministro da Educação, e um Luís Montenegro que se deslocou à Assembleia da República animado pela crença de que a melhor defesa de um Governo abalado por crises seria atacar os principais partidos da oposição. Acusou-os de convergirem na “criação de narrativas”, à moda daquelas que entraram no léxico político graças ao antigo primeiro-ministro socialista José Sócrates, procurando uma colagem do Chega ao PS, ao que André Ventura respondeu com desafios a que apresente uma moção de confiança que permita apurar se mantém condições para governar. O líder do Chega fez o primeiro apelo quase en passant, ao tomar a palavra, logo após a intervenção inicial do primeiro-ministro, estando então mais concentrado em perguntar se Luís Montenegro mantinha confiança no ministro da Administração Interna, Luís Neves, a quem Ventura voltou a acusar de lhe ter feito ameaças verbais no último debate quinzenal. Perto do encerramento do Estado da Nação, que durou mais de quatro horas, o líder do maior partido da oposição voltou a intervir, insistindo que “quem não deve não teme”, pelo que o líder do PSD - que esgotara o tempo de intervenção logo na fase inicial do debate - deveria “ter a coragem” de repetir o que fez em 2025, forçando as eleições legislativas antecipadas em que a AD voltou a ser a força mais votada. Só que novamente sem maioria absoluta no Parlamento.Na intervenção inicial, mais do que defender resultados da sua governação, Montenegro distribuiu críticas ao PS, apontando “oportunismo” a quem “não tem direito ao esquecimento” das consequências de uma governação que disse ter ficado marcada pela imigração descontrolada e pelo aumento da carga fiscal. Mas depressa virou a mira para o Chega, acusado de fazer “alianças descaradas na Assembleia da República com os protagonistas desse passado, desejando, no essencial, que nada mude e tudo fique na mesma”. No que, em resposta ao líder parlamentar social-democrata, Hugo Soares, disse ser uma convergência de votos que mostra a Assembleia da República “a tentar governar no lugar do seu Executivo”. Algo que levaria, depois da primeira ronda de intervenções, o líder parlamentar do Chega, Pedro Pinto, a dizer que “os únicos braços onde nos encontramos são os do povo português”, enumerando casos em que o partido mais à direita do hemiciclo se juntou à AD para aprovar legislação.Na ressaca do chumbo do Pacote Laboral, Montenegro disse que “muitos falam de reformas, mas poucos têm coragem de reformar”. E acusou o líder do Chega de ser alguém a quem “só interessam os casos do momento”, demonstrando ter “uma conceção peculiar e caricata” do que deve ser um debate sobre o Estado da Nação, visto que preferiu criticar as deslocações do primeiro-ministro aos Estados Unidos, para assistir a jogos da Seleção no Mundial de futebol - algo que foi tema recorrente nas intervenções dos deputados da oposição - a falar sobre fiscalidade, mobilidade e justiça. Num debate em que a participação de José Luís Carneiro nos executivos de António Costa - e principalmente o seu estatuto de ministro da Administração Interna aquando da decisão de extinguir o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras - foi referida muitas vezes, o secretário-geral do PS elogiou a herança socialista ao garantir que o Governo da AD tem preparado “um grande número” para o mês de setembro, com a apresentação de 26 mil novas habitações que disse terem sido lançadas quando António Costa era primeiro-ministro.Sem ter “tirado nenhum coelho da manga” na intervenção inicial no debate, ao contrário do que alguns comentadores antecipavam, Montenegro sorriu ao pôr em causa “as fontes” do secretário-geral do PS, mas acabou por salientar que nos financiamentos desse pacote que encontrou ao tornar-se primeiro-ministro faltavam mil milhões de euros que foi preciso mobilizar.As críticas ao “imobilismo” dos oito anos de governação do PS foram retomadas aquando do encerramento do debate, com o ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, a dizer que “enquanto uns falam de reformas, nós estamos realmente a fazê-las”. Elogiando “um crescimento económico que, sem ser ainda o desejável, está bem acima da média europeia”, com “finanças públicas equilibradas” e “um ambiente de quase pleno emprego”, o governante apontou críticas à “ideia do caos ou do desastre”.Pouco antes, o líder parlamentar socialista, Eurico Brilhante Dias, acusara o Governo de “jogar às escondidas com os portugueses” em questões tão díspares quanto a resposta às tempestades, o apagão da rede elétrica, os incêndios ou a execução do PRR.As críticas à “terraplanagem do Ministério da Educação”, feitas por Brilhante Dias, acabaram por ser um dos pontos comuns num debate em que Fernando Alexandre foi o membro do Governo sobre o qual recaíram todas as atenções. E que mais vezes teve a sua continuidade em funções questionada, apesar de ter sido defendido por deputados dos partidos da coligação, que aplaudiram de pé a intervenção de João Almeida, com o centrista a descrever o professor universitário recrutado para o segundo Governo de Luís Montenegro como “alguém sério e competente, que não foge às responsabilidades e lidera o caminho para a solução”..Montenegro pressionado entre desafio de moção de confiança do Chega e acusação de "jogar às escondidas" do PS.Montenegro reserva prognósticos sobre Pacote Laboral para o final da votação.Luís Montenegro: "As oposições vibram com a politiquice e destratam a mudança"