Ao início da manhã de quarta-feira, a Câmara Municipal de Lisboa informou a inclusão de Ana Simões Silva no Executivo da capital. O presidente Carlos Moedas (PSD) vai passar a governar com maioria absoluta ao delegar competências na médica dentista e vereadora independente desde que saiu do gabinete do Chega, pelo qual fora eleita, declarando “incompatibilidades intransponíveis”. Até aqui, a coligação PSD/CDS-PP/IL tinha contado com os votos favoráveis dos vereadores do Chega para a duplicação de rácios do Alojamento Local, na alteração ao regimento e reforço dos poderes do Presidente e no Orçamento para 2026. Desta forma, passa a ter superioridade com os nove votos (contra oito da oposição), o que nunca acontecera no primeiro mandato de Moedas. Esta sexta-feira irá haver reunião extraordinária para fixar a decisão, que terá, tudo indica, aprovação do coletivo. Isto apesar de Mariana Leitão, ex-presidente da IL, ter deixado claro que as coligações com o PSD não poderiam ter constituintes vindos do Chega. Neste caso, Ana Simões Silva foi agora dada como independente, ver-se-á as possíveis repercussões na coligação. Para a inclusão no Executivo são criados dois pelouros: a Saúde e o Desperdício Alimentar, o primeiro onde Simões Silva tem formação, o segundo onde tem realizado atividade junto da sociedade civil. Com a decisão, Moedas não desaloja qualquer dos titulares das pastas.O DN contactou todos os vereadores da oposição, que relatam desalento, mas também que a situação era previsível. “É uma opção política que não deixa margem para dúvidas. O facto de a vereadora passar a independente não significa que, de um dia para o outro, deixe de partilhar as ideias pelas quais foi eleita. O Chega entra, assim, no governo da cidade pela mão do Presidente da Câmara”, advogou Alexandra Leitão, a vereadora principal do PS, associando a decisão às “aproximações de Moedas a agendas populistas e securitárias.” A socialista entende que faltam ainda explicações quanto a “nomeações para empresas municipais” e fala em “votos a favor como troca”, concretizando: “A estabilidade não pode justificar a normalização da extrema-direita nem a troca de ideias por lugares.”João Ferreira considerou “expectável” a nomeação, recuando ao que fora a votação do Chega na Câmara. “Desde a primeira hora que o Chega se predispôs a suportar todas as decisões da gestão PSD/CDS/IL, em cujos aspectos essenciais Moedas se revê. Essa opção teve tradução concreta na aprovação da delegação de competências da Câmara no presidente, na aprovação dos orçamentos e grandes opções do plano”, vinca o comunista.Carolina Serrão considera a maioria absoluta “desastrosa” para a cidade. “Carlos Moedas tem maioria na Câmara Municipal e será totalmente responsável pelo que fizer. Agora tem carta branca para fazer o que quiser. Não pode afirmar o que andou a dizer no primeiro mandato de que a oposição condicionava a sua gestão. Isso é um problema para as escolas, para os transportes, para todos os lisboetas”, referiu a vereadora do Bloco de Esquerda, que vê na nomeação “a prova de que havia um acordo entre Chega e Moedas.O Livre, por Carlos Teixeira, aponta que "quanto mais se reforça a maioria na Câmara, mais os lisboetas terão de exigir de Carlos Moedas. O tempo em que justificava a inação com a ausência de uma maioria estável acabou." O vereador usou o conhecido problema entre IL e Chega para questionar "se a IL se sente ou não confortável" com a inclusão de Ana Simões Silva.Bruno Mascarenhas faz acusações, admite que perdeu espaço negocial e negociações anteriores por cargos municipaisBruno Mascarenhas ficou como vereador único do Chega e depois das críticas, que leu pelo DN, dirigidas por Ana Simões Silva, de “não ter meios” para exercer a sua função, apontou à dentista uma “traição”. “O objetivo da vereadora era ter um ordenado. As pessoas vendem-se não por projetos nem por objetivos políticos. Percebeu que só teria senhas de presença e nada mais e foi oferecer-se a Carlos Moedas”, acusou, prosseguindo com o tom: “Tinha competências na área social, mas era uma desconhecida. Era através da minha liderança que iria aprender. Traiu-me, aos eleitores e ao partido.”Bruno Mascarenhas entende que os pelouros agora criados são “funções sem grande escrutínio”, realçando que não atribui “culpas a Moedas.” Questionado pelo DN se estaria arrependido de ter aprovado propostas da coligação, o vereador admitiu que deixou de ser um fator de “desempate nas decisões do dia a dia”, e lembrou que “concordou com alterações para que as reuniões não se eternizassem”. Acredita que na Assembleia Municipal pode ainda ter “influência no orçamento e no Plano Diretor Municipal.”O DN perguntou ainda pelos cargos atribuídos ao Chega em empresas municipais. Mascarenhas lembra que Mafalda Guerra, da sua lista à vereação, “é a única nomeação” e que foi “uma de duas escolhas de Moedas para a administração dos Serviços Sociais”, espera que existam “mais políticas introduzidas nas gestões de empresas municipais”, deixando a entender que gostaria que mais elementos do Chega tivessem essa oportunidade. Admitiu que os contactos com Moedas foram feitos “no início do mandato.”."A estabilidade não pode justificar a normalização da extrema-direita nem a troca de ideias por lugares. Não é por passar a independente que deixou as ideias pelas quais foi eleita.”Alexandra Leitão, vereadora do PS em Lisboa.."Tinha competências na área social, mas era uma desconhecida. Era através da minha liderança que iria aprender. Foi à procura do ordenado. Traiu-me, ao partido e aos eleitores.”Bruno Mascarenhas, vereador do Chega em Lisboa.."Desde a primeira hora que o Chega se predispôs a suportar todas as decisões da gestão PSD/CDS/IL, em cujos aspectos essenciais Moedas se revê."João Ferreira, vereador do PCP em Lisboa.."Carlos Moedas será totalmente responsável pelo que fizer. Não pode afirmar o que andou a dizer no primeiro mandato de que a oposição condicionava a sua gestão.”Carolina Serrão, vereadora do Bloco de Esquerda em Lisboa.."Quanto mais se reforça a maioria na CML, mais os lisboetas terão de exigir de Carlos Moedas. O tempo em que o Presidente Moedas justificava a inação com a ausência de uma maioria estável acabou."Carlos Teixeira, vereador do Livre em Lisboa..Lisboa. Chega vai viabilizar orçamento municipal a Carlos Moedas.Alojamento Local. Chega viabiliza proposta de Carlos Moedas e rácios em Lisboa passam a estar nos 5% e 10%.Oposição de Moedas questiona transparência em nomeação para empresa municipal em Lisboa