Apesar dos semáforos apagados durante quilómetros, árvores colossais arrancadas pela raiz e um rasto de destruição que deixou irreconhecível qualquer área arborizada à volta da Marinha Grande. Nada disto demoveu a maior parte dos eleitores de se dirigirem à urnas neste domingo, 8 de fevereiro, para elegerem o próximo Presidente da República. Este exercício de escolha com duas únicas possibilidades – António José Seguro e André Ventura – é visto pelo presidente da Câmara da Marinha Grande, Paulo Vicente, como "um sinal que a população deu de que está reconhecida pela solidariedade que o país lhe tem dado. Portanto, isto foi a retribuição dos nossos munícipes", vincou em declarações ao DN.Esta perspetiva não reuniu consensos, nem dentro do concelho nem dentro do partido de Paulo Vicente, que foi eleito pelo PS, mas, de acordo com o autarca, "as eleições não foram adiadas porque havia as condições mais que mínimas" para que estas decorressem. "Não eram as condições mínimas", vinca o presidente da câmara, assegurando que só foi necessário "alterar três secções de voto no concelho da Marinha Grande, onde são 30 e tal, perto de 40 secções de voto: uma na freguesia da Marinha Grande e duas na freguesia de Vieira de Leiria.".Apesar do otimismo, Paulo Vicente também reconhece que "evidentemente que há queixas das pessoas, porque estão saturadas com esta situação e vão ficar pior, mas as pessoas estão a responder massivamente" no que diz respeito a participação eleitoral. "Conforme foi na primeira volta, na segunda volta vamos ter um resultado eleitoral de participação bastante satisfatória, apesar das circunstâncias", garante.Em relação à Praia da Vieira, uma das zonas mais devastadas pela intempérie dos últimos dias, incluindo a noite e madrugada da véspera do dia das eleições, Paulo Vicente explica "que teve que se transferir a mesa de votos, porque começou a chover no local". ."Foi para a Colónia de Férias da PSP e estava a funcionar normalmente", justifica, mostrando que o plano, na sua perspetiva, funcionou.Paulo Vicente diz também que, para garantir que as condições estavam reunidas para que o sufrágio decorresse, percorreu "uma a uma as cerca de 40 mesas de voto" do concelho, para aferir por si só que as pessoas poderiam exercer o seu direito.O DN também conversou com o presidente da Junta de Freguesia de Vieira de Leiria, Álvaro Cardoso, também eleito pelo PS, que disse ter registado "muitas reclamações e alguma revolta misturada com reclamações, relativamente a esta situação". A situação que o autarca refere é a deslocação às urnas, tendo como cenário a devastação que agora é a imagem de marca do concelho.Questionado sobre se equacionou a possibilidade de adiar o sufrágio, Álvaro Cardos só afirmou uma coisa: "Seguimos as orientações da Câmara Municipal, que decidiu avançar, porque estavam reunidas as condições para esse efeito, e nós alinhámos."O DN conversou com o autarca no centro de distribuição de materiais, alimentos e outros bens de primeira necessidade, localizado no Mercado Municipal de Vieira de Leiria, onde, num afã exaustivo, participava na operação de apoio à população, que incluía também organizar as várias centenas de voluntários que se dirigiram ao local.Paradoxalmente, Álvaro Cardoso, no momento da conversa, ainda não tinha ido votar, porque ainda não tinha tido tempo.À boca das urnas, nas secções de voto que se encontravam na Junta de Freguesia de Vieira de Leiria, o DN conversou com alguns eleitores, que colocaram o interesse democrático acima de qualquer mal-estar que pudessem estar a sentir.Enquanto admitia que "nada como isto tinha passado" por ali, Anabela, acompanhada pelo filho Rodrigo, explicou como o que sofreu "foi muito pouco, comparando com o estrago que há para aí".De qualquer modo, também tem uma certeza absoluta em relação à tempestade e ao ato eleitoral: "Eu tinha sempre que vir votar. Nem que viesse com água pelos joelhos, mas vinha.".Rodrigo, com 25 anos, tem uma perspetiva semelhante e defende que não poderia "falhar nessa situação. Tínhamos que vir de qualquer das formas."No Mercado Municipal de Vieira de Leiria, com uma telha rara na mão, à procura de umas 20 semelhantes que possam reconstruir o telhado da sua garagem, o DN encontrou António Alexandre, que, antes de se dirigir àquele centro logístico, tinha ido votar."Independentemente de estarmos, ou mais ou menos, satisfeitos, é uma obrigação. Para mim, considero uma obrigação, um dever, fazer isso. Às vezes depois arrependemo-nos, mas enfim, mas tem que ser", desabafa, sem vacilar em relação ao sufrágio e à reconstrução da sua habitação.Com uma missão complementar, no outro lado desta equação, o DN encontrou Luna Lucas, escoteira do Grupo 82 de Mem Martins, que nesta manhã se dirigiu a Vieira de Leiria para cumprir a sua boa ação. Levou alimentos, fraldas e outros bens essenciais para garantir que a população sofria menos com o impacto da intempérie. Antes de todo este esforço, que esteve longe de demonstrar, assegurou que tinha ido votar, lodo de manhã.Também "na Vieira", como a população designa Vieira de Leiria, o DN encontrou Albina e Andreia, avó e neta, que explicam que nada as "impediu [de ir votar], porque o tempo estava bom"."Os nossos carros ficaram danificados, estão na oficina. As casas, já tudo foi arranjado e está tudo bem", dizem, com um ânimo raro, vincando que a perda de vidas teria sido pior. Portanto, cumpriram a cidadania ativa, destacam.Do descontentamento à necessidade de mudarNa Praia da Vieira, onde há telhas e areia pelas estradas, pelos passeios e coladas às molduras das poucas janelas que ainda resistem, o DN conversou com Raquel, a proprietária do Café Raquel, que ainda existe, ainda que seja uma sombra do que era antes da tempestade.Raquel não foi votar, "em protesto", explica, apesar de ter todas as condições para o fazer.Os prejuízos que acumulou vão da sua casa até ao café, passando pelos vidros do carro, estilhaçados. Ainda conta com a boa vontade de um vizinho, que a ajuda a ter energia elétrica, através de um gerador, nas arcas frigoríficas do que resta do seu café. .Quanto à reconstrução, explica, resignada, que terá de esperar quando o tempo melhorar.Já na Marinha Grande, na Escola Básica Guilherme Stephens, Elisabete Silva, depois de deixar a sua secção de voto, admite que "não era para vir, sinceramente, mas isto tem que mudar". "Nem que trovejasse, é para mudar, porque este país, como ele está, tem de mudar. E eu ficando em casa, ficava naquela dúvida: será que o meu voto iria fazer alguma diferença? Então, debaixo de chuva, debaixo de trovoada, eu tive de vir", argumenta, acrescentando que "temos que dar o nosso alerta de que Portugal existe".Na mesma mesa de voto, uma eleitora que não prestou declarações ao DN resolveu protestar com a realização do sufrágio de uma forma diferente: em frente à urna, aceitou o boletim de voto e, perante os membros da mesa e do olhar atento da filha menor de idade, dobrou o papel, sem o alterar, e depositou-o naquela caixa preta.."Quadro meteorológico complexo de risco". Depressão Marta vai deslocar-se para norte.Ventura vai telefonar a Seguro para alcançar um consenso para adiar as eleições por uma semana