Manuel Carvalho da Silva fala a partir de uma longa experiência sindical, feita de negociação, conflito, organização e estrada. Eleito pela primeira vez para um cargo sindical em 1975, esteve um quarto de século na liderança da CGTP e percorreu o país de lés a lés, sempre com o contrato coletivo de trabalho e outras leis no bolso. “Se disserem que fui um sindicalista honesto fico muito contente”, afirmava em 2020.Nesta entrevista, o antigo secretário-geral da CGTP traça uma ponte entre as conquistas abertas pela revolução e "os bloqueios do presente". Fala de salários que continuam baixos, de uma contratação coletiva enfraquecida, da habitação tornada inacessível para muitos jovens, da desvalorização das profissões qualificadas e das novas desigualdades que podem nascer da digitalização, da robotização e da inteligência artificial.Sem iludir as dificuldades, reconhece o desgaste do movimento sindical perante a pressão contínua do Governo. Mas recusa a ideia de que a rua perdeu força. Para Carvalho da Silva, manifestações, greves e palavras de ordem continuam a ser instrumentos decisivos.Este 1.º de Maio tem uma importância especial?Este 1.º de Maio tem dimensões, situadas no tempo que estamos a viver, que nos transportam para uma reflexão talvez mais profunda do que qualquer outro 1.º de Maio das últimas décadas. A propósito deste 1.º de Maio, tem-se falado, creio com objetividade, daquela imagem que Sophia de Mello Breyner nos deixou do 25 de Abril: “o dia inicial, inteiro e limpo”. O 25 de Abril foi um dia incomparável. Estava ali a pureza, e a pureza era a liberdade, com aquilo que a liberdade significava de estruturante, de dimensões partilhadas, comuns à sociedade portuguesa. Essa liberdade continha potencialmente a possibilidade de as pessoas se poderem exprimir e também, implícito, ou associado a ela, o fim da guerra. Mas o 25 de Abril foi, depois, uma construção. E a data que marca muito aquilo que foi o 25 de Abril, que o transforma definitivamente, é o 1.º de Maio de 1974. O 25 de Abril passa de um golpe militar progressista extraordinário para uma revolução em marcha. Sem dúvida: a partir de 1 de Maio de 1974 passamos a ter uma revolução em marcha. O 1.º de Maio veio trazer contornos e conteúdos muito concretos para o desenvolvimento dessa revolução.Porque é que associa essa "reflexão profunda" ao 1.º de Maio de 1974?Ouvi vários jornalistas e ex-jornalistas relembrarem aquilo que esteve presente no dia 25 de Abril de 1974. Alguns realçaram muito essa inteireza do primeiro dia, colocando o foco na liberdade, e deixando a ideia de que, daí para a frente, já não era pureza. É verdade que a liberdade era um anseio partilhado por uma esmagadora maioria dos portugueses. Mas o 25 de Abril foi depois uma construção.Que papel atribuiu então ao primeiro primeiro de maio?O 1.º de Maio consolidou a transformação desse golpe militar numa revolução. Havia uma luta social e política na sociedade portuguesa com dimensões absolutamente racionais, que é tomada no dia 1.º de Maio pela população e que, a partir daí, faz o seu caminho até 2 de Abril de 1976, quando é aprovada e entra em vigor a Constituição da República. No mundo do trabalho, tudo aquilo que fica plasmado na Constituição como direitos dos trabalhadores e direitos no trabalho não é mais do que aquilo que, entre 25 de Abril de 1974 e 1976, se foi produzindo através dos diversos governos provisórios, em contexto de revolução, com avanços, recuos e contradições de todo o tipo. Tudo o que a Constituição acolheu já tinha sido produzido pelos governos. A Constituição consagrou essa produção extraordinária, que resultou de um adquirido da luta antifascista e de uma dinâmica política e social no terreno. Constituição da República que foi votada por mais de 93% dos deputados. Não nos esqueçamos disso.Entretanto, passaram 50 anos. Vamos a hoje.Vamos a hoje. E hoje, estamos num processo em que há forças que querem fazer acertos de contas com o 25 de Abril, que invocam a necessidade de haver “três Salazares”, que dizem que antes é que era bom e outras mentiras absolutamente escabrosas sobre o contexto da guerra colonial e sobre a vida em sociedade em Portugal. Ignoram em absoluto a miséria, a escuridão, a tacanhez que marcava a sociedade portuguesa. Querem apagar a memória das populações. Portanto, há urgência. Estamos com a necessidade de lembrar, no 25 de Abril de 2026 e agora no 1.º de Maio de 2026, o que significou o 25 de Abril de 1974, esse dia inicial, inteiro e limpo, e o que significou o 1.º de Maio: a consagração de um golpe militar progressista transformado numa revolução. Essa dinâmica projetou o país para um desenvolvimento de que nos podemos orgulhar, apesar de todas as dificuldades que hoje temos e que é preciso identificar e denunciar.Quando fala em urgência, está também a pensar na reforma laboral do Governo?Claro. Lembremo-nos das reivindicações que estavam sobre a mesa no 1.º de Maio de 1974, no fundo, tudo aquilo que a Constituição viria a inscrever em 2 de Abril de 1976. Por exemplo, a existência de um salário mínimo nacional. Não havia salário mínimo nacional; aliàs, tínhamos uma miséria de salários. Hoje, temos salário mínimo nacional, mas a contratação coletiva, a dinâmica e as políticas salariais seguidas em Portugal têm transformado, cada vez mais, os salários médios em salários mínimos. Transformámo-nos num país de salários baixos e estamos a fixar a juventude, em termos médios, a níveis salariais que de tão baixos empobrecem os horizontes das pessoas. Estamos também, como há 52 anos, perante uma situação de ausência de acesso à habitação. A Constituição prevê o direito à habitação como um direito fundamental das pessoas, mas esse direito não está a ser cumprido. A situação que se vive na habitação é absolutamente insustentável para as gerações mais jovens. É um escândalo. Neste 1.º de Maio é preciso pôr em evidência os salários, a habitação, os custos de mobilidade das pessoas, cada vez mais elevados, e muitas outras questões — reformas insuficientes para proteger aqueles que têm pensões mais baixas, gerações marcadas pela emigração a que foram obrigadas, criando disfunções dentro das famílias, idosos mais desprotegidos. Avançámos muito, ao longo dos últimos 50 anos, na proteção contra a pobreza, mas chegámos a um tempo em que aumentou muito o número de idosos e a resposta às novas condições em que eles se encontram exige uma alteração de políticas. A estrutura que temos de lares e centros de acolhimento precisa de ser alterada. Já não serve. Precisamos também de uma escola que incorpore o saber-fazer que foi abandonado. Precisamos de levar para a escola, ao nível secundário e superior, o estudo das profissões e das qualificações. Desarmou-se a juventude em nome da ideia de que profissões como serralheiro, eletricista, estucador, carpinteiro ou programador já não eram profissões de futuro. Inventou-se o conceito de “colaborador” para tudo e mais alguma coisa, com o objetivo de desvalorizar profissões. Hoje precisamos de profissões qualificadas e não as temos. Não temos os profissionais qualificados, nem temos a juventude e a própria sociedade preparadas para valorizar profissões que podem valer dinheiro, que podem valer melhores retribuições. E necessitamos muito delas.O salário mínimo tem vindo a crescer. Em 2026, em que medida a negociação coletiva interfere na melhoria dos salários?O salário mínimo ainda vai tendo alguma dignidade, embora continue muito baixo, mas a destruição da negociação coletiva tornou impossível fazer uma melhoria generalizada dos salários. Só é possível melhorar salários, em termos gerais, através da contratação coletiva. Além disso, existem hoje convergências muito complexas pela utilização do digital, da robotização e da inteligência artificial, de que é preciso tratar para não aumentar a exploração. Dou um exemplo — último relatório da Organização Internacional do Trabalho sobre a utilização da inteligência artificial conclui, à escala global, incluindo Portugal, que a utilização dos algoritmos está a aprofundar fatores de diferenciação e, portanto, de desigualdade entre homens e mulheres, ao contrário daquele que devia ser o caminho.."O salário mínimo ainda vai tendo alguma dignidade, embora continue muito baixo, mas a destruição da negociação coletiva tornou impossível fazer uma melhoria generalizada dos salários". A proposta do Governo para o Código do Trabalho não pode ajudar a resolver esses problemas?Não responde a nada disso. Absolutamente nada. Apenas no título, para enganar as pessoas. O que está a ser proposto é mais precariedade e menor retribuição de salários. Quando se mexe no banco de horas para não se pagarem horas extra, como querem o Governo e os seus aliados, isso reduz a retribuição do trabalho. Quando se tenta convencer as pessoas de que o importante é receberem mais no fim do mês ainda que à custa da diminuição dos descontos para a Segurança Social, ou através de prémios, está-se perante uma fraude. Quando uma pessoa recebe salário, desconta para a Segurança Social. Quando recebe prémios, não desconta. Os prémios não preparam o futuro. Repito até à exaustão, porque tem de ser repetido: em nenhum canto do mundo se conseguiu melhorar a retribuição do trabalho aumentando a precariedade e pagando menos por cada hora trabalhada. Em nenhum canto do mundo.É uma figura histórica do sindicalismo português, com décadas na liderança da CGTP. Em que patamar das lutas sindicais coloca esta reforma laboral que na opinião do governo pretende “modernizar e agilizar” as relações de trabalho?Diria que, nas ofensivas feitas desde o 25 de Abril contra os direitos do trabalho e contra a modernização das relações de trabalho - repito, contra a modernização dos sistemas de relações coletivas de trabalho -, esta proposta se insere nas quatro maiores ofensivas desde o 25 de Abril até hoje. Essas grandes ofensivas situam-se em 1988 ou 1989, em 2003, em 2011/2012 e agora. No que se refere à conceção do que é um sistema de relações coletivas de trabalho, este Código é provavelmente, do ponto de vista conceptual, a maior ofensiva contra uma conceção moderna de relações coletivas de trabalho. Há aqui uma ideia absolutamente neoliberal, falo do neoliberalismo económico mais puro e duro, de que não deve haver verdadeiros sistemas de relações coletivas de trabalho.O que entende por uma conceção moderna de relações coletivas de trabalho? Só há um sistema de relações coletivas de trabalho verdadeiro e moderno, dentro das conceções inscritas pelas Nações Unidas e pela Organização Internacional do Trabalho, quando existem e são respeitados, nas suas funções e na sua autonomia, os atores, os contextos, as regras e os valores. Os atores são três: os representantes dos trabalhadores, os representantes das entidades patronais e os representantes do Estado, em regra os governos e outras instituições com essa função. O que está a ser proposto é a possibilidade de relações unilaterais e, portanto, o desarmar de um dos atores. Os representantes dos trabalhadores passam a ser apenas aqueles que o sistema seleciona para essa função, eliminando a liberdade de serem os trabalhadores a definir e impor quem são os seus representantes e como atuam. Isso já foi visível em todo o processo do ponto de vista macro e é visível no emaranhado do articulado apresentado: um conjunto de mecanismos que torna as relações de trabalho dentro das empresas dependentes da unilateralidade patronal..No que se refere à conceção do que é um sistema de relações coletivas de trabalho, este Código [anteprojeto apresentado pelo Governo] é provavelmente, do ponto de vista conceptual, a maior ofensiva contra uma conceção moderna de relações coletivas de trabalho.. Alguns representantes patronais dizem que nas suas empresas existem regulamentos internos que podem substituir a contratação coletiva.Há representantes patronais que dizem isso por ignorância absoluta. As empresas podem e devem ter regulamentos. Sou defensor de que as empresas tenham regulamentos, bons regulamentos, com disposições e práticas éticas. Mas os regulamentos não substituem as relações coletivas. Um regulamento é algo em que o poder patronal tem uma força maior do que o trabalhador. Num sistema de relações coletivas de trabalho, as partes estão em pé de igualdade, têm poder igual. Portanto, a existência de regulamentos internos nas empresas não substitui a existência de contratos coletivos de trabalho. É preciso sermos claros - do ponto de vista conceptual, esta proposta é a mais destrutiva que foi apresentada até hoje em todas as revisões da legislação laboral. Se não for travada, terá a prazo efeitos nefastos maiores.As manifestações e as palavras de ordem ainda funcionam no mundo de hoje?Funcionam. E este processo é espantoso, porque se teoriza tanto que as manifestações estão esgotadas, que as pessoas já não participam, e depois chegamos ao 25 de Abril e vemos manifestações fabulosas, pelo número de participantes, pela forma como as pessoas estão na rua, pelo entusiasmo vibrante e pela enorme alegria de estar e de partilhar. Percorri o desfile. Gosto de descer e depois subir a avenida em sentido contrário para ver as formas como as pessoas se manifestam, para ver a composição da manifestação, para olhar a juventude e outros aspetos que, ao longo do tempo, me habituei a observar para conseguir identificar os estratos de onde vêm as pessoas. Foi uma participação absolutamente excecional, também na sua composição etária e na composição daquilo a que podemos chamar a estratificação da sociedade. Havia muita, muita juventude. Isto desmonta todas essas teorias. Traz esperança e confiança. Naturalmente, as formas serão diferentes. Mas há outros dados. Quando se veem inquéritos que mostram que quase 80% dos portugueses estão contra o conteúdo da proposta de legislação que o Governo apresentou, com o apoio de alguns setores patronais, isso é significativo. E digo “alguns setores patronais” porque é injusto dizer “os patrões portugueses”. Conheço imensos empresários que dizem que não tem sentido andar com este massacre da legislação sobre os trabalhadores. Conheço imensos, e dizem-no com sinceridade. Mas há aquela velha máxima: a cavalo dado não se olha o dente. Ainda assim, quase 80% dos portugueses continuam a dizer que isto não tem sentido e que o pacote laboral deve ser chumbado. Isso dá esperança e mostra que essas teorias são falaciosas.Que dificuldades vê para o movimento sindical neste momento?Esta pressão contínua, esta determinação do Governo, que tem uma maioria parlamentar disposta a fazer as maldades todas e mais alguma, esta insistência e esta não desistência criam desgaste. O movimento sindical está sujeito a um desgaste muito grande. Vamos ver como vai gerir os efeitos, porque somos todos humanos. O futuro é uma interrogação. Vai ter de ser construído. quero acreditar que tal como foi possível construir esta predisposição e esta unidade de resistência, há de ser possível continuá-la.."O movimento sindical está sujeito a um desgaste muito grande. Vamos ver como vai gerir os efeitos, porque somos todos humanos. O futuro é uma interrogação."