O Livre foi o único partido à esquerda que saiu reforçado das leiglslativas de 2025. O que é que tem corrido bem, apesar da configuração parlamentar apontar quase tudo para a direita?Parece-me que o Livre tem trazido temas para cima da mesa que mais ninguém tem trazido e tem mostrado que é possível ter uma visão para o país diferente daquela que tem vigorado. Portugal pode ser um país que não está destinado a ter salários baixos, que não tem a sua economia completamente dependente do turismo e da restauração, que sendo setores muito importantes também são setores voláteis e em que muitas vezes também os salários são baixos. É possível transformar a economia portuguesa numa economia de alto valor acrescentado, trazendo mais inovação, mais investigação científica e incorporando isso também no nosso tecido empresarial. Isto também é possível fazer melhorando a vida das pessoas. E acho que é um bocadinho essa visão que o Livre traz, que conjuga, por um lado, o aumento da qualidade de vida, mas também uma perspectiva de futuro para o país, uma defesa intransigente dos direitos humanos, não só em Portugal, mas também a nível internacional, que tem sido de alguma forma marca distintiva do Livre. Sinto é que as pessoas reconhecem em nós essa coerência e capacidade de apresentar propostas. Isso explica também os resultados que tivemos em 2022, primeiramente, depois em 2024 e depois reforçados em 2025. E continuamos a sentir essa confiança, principalmente entre os mais jovens. Numa contratendência com o que se tem verificado com a esquerda.A esquerda tem jogado sempre muito à defesa em relação a uma série de assuntos, que são muito importantes, porque, na verdade, temos uma série de direitos que têm vindo a ser atacados, mas não basta só defender, é preciso conseguir apresentar propostas alternativas e mostrar que há um outro caminho, uma outra visão. Não podemos estar sempre a jogar à defesa.Esse jogar à defesa [da esquerda], aconteceu também numa altura que foi muito complicada, a da troika, sendo que depois foi preciso reverter tudo o que aconteceu durante o governo Passos Coelho. Agora é preciso mais. É preciso haver esta visão de futuro e as pessoas perceberem que há outros caminhos possíveis. Acho que é esse poder de mudar o futuro, e não encarar certas coisas como a austeridade ou o aumento da desigualdade como inevitáveis, que é preciso trazer para cima da mesa. E aqui a esquerda tem de ser muito mais reivindicativa dessa construção do futuro e de um futuro de liberdade para todos..Casos como os de João Manso significam que o Livre tem tido dores de crescimento?Sim, claramente o Livre tem dores de crescimento porque crescemos muito rápido, mas temos conseguido manter os nossos processos, que também é algo que nos diferencia. É a forma como o próprio Livre funciona e todas as questões de democracia interna. E a verdade é que o crescimento tem sido não só em número de membros e apoiantes, mas também em número de núcleos. Temos muito mais núcleos territoriais, estamos em muito mais zonas do país e também em toda a nossa diáspora e continuamos a manter os processos de participação, de construção conjunta de programas. E isso, por um lado, é muito importante para conseguir manter aquilo que é o funcionamento do Livre. Estou no Livre desde o início, mas foi essa a construção conjunta que era possível.Desde 2015?Não, estou no Livre desde o início, mesmo, desde antes do Livre existir. Depois fui para o Grupo de Contacto em 2015. Naturalmente, quando temos mais pessoas há mais desafios. A saída do João Manso, por exemplo, do Grupo de Contacto, é uma das questões que fazem parte da vida dos partidos e da maneira como estes funcionam. Mas parece-me que temos, de facto, este desafio agora à frente, que é a consolidação do partido, mas sempre garantindo que conseguimos manter os processos participativos e democráticos, ao mesmo tempo que conseguimos ter cada vez mais relação com a sociedade civil, também para conseguirmos ir fazendo mais a diferença a todos os níveis. As últimas eleições autárquicas foram muito importantes porque conseguimos eleger mais de 60 candidatos - em assembleias de freguesia, assembleias municipais e também na Câmara de Lisboa - que todos os dias trazem esta visão do Livre. Uma visão que não é só para o país, mas também ao nível da freguesia, ao nível da cidade, ao nível do território, para aquilo que é preciso fazer.. Numa nota biográfica da página do Livre revela que sente inquietação. Está hoje menos inquieta sabendo que está a desempenhar um papel no Parlamento?Acho que o nível de inquietação se mantém, porque, por exemplo, as fronteiras continuam a ser muros, e na verdade têm sido muros cada vez mais reforçados, e há uma inquietação que ainda é agravada por algum espanto, pela maneira como, por exemplo, esta questão da imigração tem sido pegada por partidos do nosso arco democrático, como o PSD. Por outro lado, estou a trabalhar para resolver todas estas questões que me inquietam. Isso também me apazigua, mas ainda me dá mais motivação para trabalhar por aquilo que eu acho que Portugal deve ser, e que vai exatamente no sentido contrário do que está a ser feito por este Governo.Insistindo na sua inquietação, se o Pacote Laboral passar no Parlamento, se houver acordo entre PSD e Chega, fica descansada pelo facto do inquilino de Belém ser António José Seguro? Parece-me que o Presidente da República foi muito claro durante a campanha eleitoral face ao que poderia ser o pacote laboral e aquilo que ele faria. Nesse sentido, estou descansada, mas, na verdade, o pacote laboral pode sempre voltar ao Parlamento e ser aprovado, mesmo com a discordância do Presidente da República. O que me inquieta neste caso é, primeiro, o anteprojeto que o Governo apresentou, e que vai exatamente no sentido contrário, aliás, do que eu escrevia em 2022. Se nós temos a tecnologia, se nós hoje demoramos uma hora a fazer o que antes demorávamos semanas, porque é que não incorporamos tudo isso num novo modelo de trabalho que seja melhor para as empresas e para os trabalhadores? É verdade que Portugal tem um problema de produtividade, mas também é dos países que trabalham mais horas e nós todos vemos isso. Todos levamos uma vida que é bastante acelerada, temos pouco tempo para fazer as coisas que, na verdade, são as mais importantes, como estar com as crianças, estar com os nossos amigos, ter tempo até para pensar e para fazer coisas de que gostamos. Nós temos, de facto, de repensar o modelo de trabalho e por isso é que o Livre tem trazido questões como a semana de quatro dias. Aliás, sobre a semana de quatro dias os relatórios mostram que não é só uma questão de garantir mais tempo aos trabalhadores, é também uma ferramenta de produtividade. As empresas que adotaram a semana de quatro dias, que fizeram o projeto-piloto, aumentaram a sua produtividade. Só que isso nem sequer é considerado no anteprojeto de trabalho do Governo, que é uma visão muito antiquada do que é o trabalho, de como é que as pessoas funcionam a nível da sua motivação. E o que é que me preocupa aqui? É que o pacote laboral chegará ao Parlamento já depois de ter sido aprovado no Conselho de Ministros, que é algo que aconteceu no dia a seguir ao Governo ter tido uma reunião com o Chega. E, portanto, a minha pergunta é qual foi a moeda de troca que o Governo deu ao Chega para conseguir uma aprovação deste pacote laboral, porque o Chega tem sido completamente volátil, como é sempre, em relação ao tema.Como a idade da reforma entrar no jogo.Isso foi o último coelho tirado da cartola, mas no início dizia-se que sim, é preciso flexibilizar. Depois, quando percebeu que havia muita polémica com a questão da amamentação, então já veio mostrar-se contra as alterações em relação à amamentação. Depois percebeu com a greve geral, que foi muito grande, em dezembro, que, afinal, o problema dos despedimentos era um problema, que o trabalho por turnos também era um problema e, portanto, também já veio levantar essas questões e vai mudando a sua posição ao longo do tempo, também de acordo com a opinião pública. Agora tirou da cartola a questão da idade da reforma e, no fundo, era para ter uma desculpa para chumbar o pacote laboral caso o Governo não cedesse em coisas que eles quereriam. Mas agora houve esta reunião [antes do conselho de Ministros onde foi aprovada a proposta de lei para a reforma laboral] e, portanto, o meu receio é que a moeda de troca seja algo muito mais importante, como, por exemplo, a posição em relação à revisão constitucional que o Chega apresentou. O PSD, em teoria, diz que não vai a jogo e que não é a altura para uma revisão constitucional, mas, na forma como o Parlamento tem funcionado e na forma como o PSD se tem aliado sempre ao Chega nos principais assuntos, tenho muito receio do que é que seja a discussão do pacote laboral e, principalmente, quais são as contrapartidas que o Governo dará ao Chega para aprovar o seu pacote laboral.. Sobre a possibilidade de haver uma revisão constitucional – que seria a oitava –, a direita tem argumentado que isto só acontece porque os eleitores deram um sinal e permitiram esta configuração parlamentar. Concorda?Acho que é um argumento falacioso e até mentiroso e desleal para com os eleitores, porque na campanha eleitoral, quando alertámos para o risco da direita ter dois terços que possibilitariam uma revisão constitucional, o que foi dito foi: não levantem fantasmas. Luís Montenegro afastou essa possibilidade e, depois de não ser discutida a revisão constitucional em campanha eleitoral, não foi claro para os eleitores que havia essa vontade. Quando o Rui Tavares levantava essa questão, essa possibilidade era ridicularizada dizendo que não valia a pena estar aqui a levantar fantasmas. Mas os fantasmas estão a aparecer. Aliás, isso foi um dos motes da campanha de Jorge Pinto para a eleição presidencial. Não tendo havido um compromisso claro e uma informação clara de que se pretendia uma revisão constitucional nas legislativas de 2025, não é leal agora fazer-se uma revisão constitucional argumentando que os eleitores eram os tais dois terços da direita. E, aí, o Jorge Pinto tinha uma solução muito simples, que era dissolver o Parlamento para então, no fundo, haver eleições em que seja claro que os partidos querem uma revisão constitucional. Assim, as pessoas votariam de forma informada..Qual é que gostaria que fosse o próximo passe ferroviário, ou seja, a ideia que o Governo ‘rouba’ ao Livre?Continuar os projetos-piloto da semana de quatro dias. O projeto-piloto no setor privado correu espetacularmente bem, os resultados são mesmo extraordinários, não só a nível do bem-estar, da saúde mental dos trabalhadores, da melhor conciliação do trabalho e da família, mas também da produtividade das empresas. Várias empresas continuaram com a semana de quatro dias depois do projeto-piloto. Depois a segunda fase era fazer o projeto-piloto na Administração Pública e gostávamos que o governo não tivesse, no fundo, cancelado esse projeto. Gostávamos que o governo roubasse esta ideia e que continuasse aquilo que já estava combinado. E que fosse até mais além e promovesse mais experiências da semana de quatro dias em vários setores, porque eu acho que é uma discussão de futuro, principalmente numa altura em que o trabalho está a mudar tanto, em que temos tantas alterações a nível tecnológico, temos Inteligência Artificial, temos automação. A semana de quatro dias é algo que pode fazer uma grande diferença na produtividade do país. E as discussões já foram todas feitas. Quando se discutia de passar de uma semana de seis dias para uma semana de cinco dias, os argumentos que atualmente se usam contra a semana de quatro dias eram os mesmos. Também gostávamos que o Governo pegasse em ideias como, por exemplo, garantir uma Segurança Social mais robusta. Isso implica perceber como é que a automação vai alterar o trabalho, perceber como é que podem ser taxados os robôs ou quando há perda de empregos por causa da Inteligência Artificial, perceber como é que isso pode ser taxado para reforçar a Segurança Social que depois vai garantir a proteção social e as reformas de todos nós..Congresso do Livre será em Sintra a 10, 11 e 12 de julho.Fabian Figueiredo: "Eleitores pediram humildade ao Bloco, mas humildade não significa silêncio"