Eduardo Ferro Rodrigues quebra um longo silêncio público para defender que o PS não deve abrir negociações prévias com o Governo sobre a reforma laboral rejeitada pelos sindicatos em Concertação Social, cabendo ao partido reservar a sua posição para o debate no Parlamento. O antigo presidente da Assembleia da República, ex-secretário-geral socialista e antigo ministro do Trabalho de António Guterres considera que, perante a proposta do Governo, os socialistas devem, primeiro, “aguardar a chegada ao Parlamento” do diploma, “sem negociações prévias”.Para Ferro Rodrigues, a estratégia socialista deverá passar por levar o confronto político e técnico para o âmbito parlamentar. E, na Assembleia da República, sustenta, “o PS tem de apresentar as alternativas” e, depois, “ao nível da comissão respetiva, avaliar a recetividade do PSD”. Só perante essa avaliação, acrescenta, haverá condições para retirar consequências políticas. Caso a recetividade dos sociais-democratas seja “nula ou reduzida”, então aí “[o partido] deve o mais cedo possível anunciar o voto contra”, afirma ao DN, em declarações trocadas por escrito, admitindo que “este último cenário” seja o mais “provável.”Sublinhando que já não tem funções executivas no partido há vários anos, o antigo líder socialista manifesta “confiança” no secretário-geral “José Luís Carneiro” e “em Miguel Cabrita”, deputado e coordenador dos socialistas na Comissão de Trabalho, Segurança Social e Inclusão. Ainda assim, deixa um aviso claro sobre os limites da negociação parlamentar, excluindo o Chega da equação: “O PS deve continuar a não aceitar acordos a três.” Para Ferro Rodrigues, qualquer entendimento que envolva a extrema-direita está fora do campo político socialista: “Nenhuma cumplicidade com a extrema-direita é exigida pelos princípios, história e programa do PS.”Ainda sobre a reforma laboral, Ferro Rodrigues defende que os socialistas cheguem ao debate parlamentar com propostas concretas. Essas alternativas, explica, podem ser “consubstanciadas em propostas de eliminação, propostas de substituição ou propostas novas”. Ou seja, o partido deve intervir no processo legislativo, mas sem se vincular antecipadamente a um acordo político com o Governo.O antigo presidente da Assembleia da República distingue, porém, entre matérias de regime e áreas de diferenciação política. Admite que “o PS deve estar disponível para negociar reformas estruturais com o PSD”, dando como exemplos “sistema político, regionalização, justiça”. Mas traça uma fronteira clara nas áreas em que considera necessária a “afirmação de diferenças programáticas”: nas áreas laboral, fiscal e da administração pública, o PS “apenas o deverá fazer na Assembleia da República e nas respetivas comissões”."Aproximação do PSD à extrema-direita é e será de exclusiva responsabilidade desse partido"Ferro Rodrigues entende ainda que não cabe ao PS tomar a iniciativa de eventuais conversações com o PSD. “A iniciativa política para eventuais conversações deve partir do PSD”, afirma. E, nesse ponto, faz uma avaliação positiva da liderança socialista: “Neste aspeto, tem agido bem.”A crítica mais dura é dirigida ao PSD e à sua relação com o Chega. Ferro Rodrigues considera que “a aproximação do PSD à extrema-direita é e será de exclusiva responsabilidade desse partido”. E acusa os sociais-democratas de terem permitido essa aproximação não apenas em matérias de governação, mas também em questões de regime.Segundo o antigo líder parlamentar e ex-presidente da Assembleia, tal aproximação tem ocorrido “perante a complacência da parte do PSD que tinha sido claramente defensora do combate às calúnias, ao racismo e defensora dos direitos das mulheres e das minorias”.Ferro Rodrigues afirma que esses direitos estão hoje “sob ataque dos saudosistas da ditadura e de toda a constelação da extrema-direita nacionalista, anti-liberal e anti-democrática”. E deixa dois exemplos de matérias que, no seu entender, podem exigir uma resposta firme dos socialistas: “A eleição pelo Parlamento dos novos juízes do Tribunal Constitucional e o eventual e escandaloso alinhamento do PSD com uma revisão constitucional à medida do Chega poderão suscitar respostas inequívocas do PS e, esperemos, do novo Presidente da República”, avisa. .Líder do PS diz que Governo "perdeu a credibilidade" na negociação da reforma laboral