Esta terça-feira, 14 de julho, 60 militantes do Bloco de Esquerda deixaram o partido lamentando, através de um comunicado, “o fim de um projeto que se destinava a unir amplos setores da sociedade por uma alternativa contra a hegemonia neoliberal” e que tinha “como horizonte a radical transformação da sociedade”. “Deixamos de ser bloquistas porque o nosso Bloco acabou”, concluem os signatários do documento, entre os quais o antigo deputado da UDP Mário Tomé e o antigo deputado bloquista Pedro Soares. Na lista de 60 assinaturas encontram-se ainda nomes como os de Carlos Marques, que chegou a ser candidato, pela UDP, à Presidência da República em 1991.A direção do BE, numa nota a que o DN teve acesso, lamentou a saída dos militantes, mas acusou-os de insistirem numa “decisão programada e repetidamente anunciada na comunicação social”. Em fevereiro do ano passado, 70 militantes do núcelo bloquista de Portalegre desfiliaram-se do partido, acusando a direção – na altura, Mariana Mortágua era a coordenadora nacional – de “constante violação” da democracia interna.Desta vez, com José Manuel Pureza como coordenador, a direção do BE, na reação à saída destes militantes, lembra que deixaram “de participar nas ações do partido, não tendo apresentado propostas nem candidatos na Convenção Nacional de novembro de 2025”. Para além disto, a direção do BE sustenta que “as divergências deste grupo manifestam-se desde há muito, nomeadamente na crítica da posição solidária do Bloco com o povo ucraniano, vítima da invasão de Putin”.Ao DN, Pedro Soares garante que foram os membros da atual direção – que, lembra, são quase os mesmos que estavam na direção anterior, com a exceção da coordenação – “que programaram estas saídas todas”, ao não ouvirem as outras moções. O documento assinado pelos 60 bloquistas dissidentes acusa o partido de se ter afastado “do pulsar e do sentimento popular”, tendo ficado “insensível à crítica interna e sem projeto político autónomo credível”.O antigo deputado do BE diz que a direção “sabe perfeitamente o peso” que estes agora dissidentes tinham dentro do partido, “mas não foi capaz de um telefonema, convidar para um café, uma troca de impressões”.“É um núcleo de direção fechado, burocrático, institucionalizado”, acusa, para além de apontar o dedo à “estratégia geringoncista”, de “aproximação ao PS”.Sobre a Ucrânia, Pedro Soares explica que a observação da direção do BE “é tentar atirar areia para os olhos”, “porque virar o sentimento de solidariedade com o povo ucraniano” contra estes militantes “é oportunismo político”, vinca.O antigo deputado do BE garante que a sua “solidariedade com o povo ucraniano é total”, “mas não é em defesa da guerra, é em defesa da paz”, “ao contrário de uma estratégia de prolongamento da guerra” que diz ter sido perseguida pelo partido.“Criticámos que o Bloco não fosse capaz de criticar o outro lado, nomeadamente o cerco que a NATO estava a fazer e que serviu de argumento para aquela inqualificável e condenável invasão da Ucrânia pela Rússia”, sustenta.Sobre a reunião da Mesa Nacional, que decorreu no passado fim de semana – onde a direção pediu a três membros da moção maioritária, encabeçada por Pureza, para redigirem um documento que estabeleça os princípios programáticos do partido –, Pedro Soares critica o facto de, “mais uma vez”, a decisão estar centrada num “petit comité equilibrado entre as tendências que dirigem o Bloco já há uma série de anos” e que tem levado o partido a “este ponto”. Na missiva dos dissidentes surge a crítica a um partido que já teve 19 deputados, três eurodeputados e 12 vereadores agora estar reduzido a um deputado na Assembleia da República, uma eurodeputada e uma vereadora, eleita em coligação com o PS.Questionado sobre o seu futuro político, Pedro Soaresdiz que por agora vai fazer o “luto”, mas apela a que haja uma “esquerda com um nível de radicalidade, de afirmação, de objetividade, capaz de procurar e criar uma alternativa e apontar para um novo horizonte”. Apesar destas palavras, a constituição de um novo partido não está nos planos do antigo deputado do BE. Ainda assim, conclui: “O futuro a Deus pertence.”O DN conversou com Mário Tomé, que afirma que o seu futuro político, agora longe do BE, é “intervir nas causas que têm a ver com os interesses populares, contra a guerra, contra as alterações climáticas, numa perspectiva ecossocialista”..Bloco reage à saída de 60 militantes: divergências "manifestam-se há muito".José Manuel Pureza: "É preciso outro caminho e esse outro caminho começa com a greve geral de 11 de dezembro".Fundadores do BE apelam a "enraizamento social e “persistência de formiga" em momento difícil para o partido.Convenção do BE: Louçã não imputa erros a Mortágua e diz que Pureza derruba muros