Porfírio Silva, vice-presidente do grupo parlamentar do Partido Socialista e responsável pela coordenação e intervenção nas áreas da Educação, Ciência e Ensino Superior, classifica a gestão dos exames nacionais por Fernando Alexandre como um caso de “atropelamento e fuga”. O deputado receia que, para cumprir o prazo de sexta-feira (data para a publicação dos resultados dos exames da 2ª fase e das reapreciações relativas à 1ª fase), sejam novamente divulgadas pautas sem garantias de fiabilidade, repetindo-se o que aconteceu no dia 17 de julho.O alerta surge depois de o movimento de professores Missão Escola Pública ter considerado “praticamente impossível” concluir, até sexta-feira, as reapreciações da primeira fase dos exames nacionais.Em declarações ao DN, Porfírio Silva admitiu temer que a pressão para cumprir o prazo conduza a uma nova divulgação de resultados incompletos ou incorretos. “Espero sempre que as coisas corram bem, para bem dos alunos, das famílias, dos professores e das escolas. Mas receio que se faça qualquer coisa para se poder voltar a dizer que se afixaram as pautas, quando essas pautas não são fidedignas, como não eram no dia 17”, declarou.Segundo o deputado socialista, naquele dia foi feita “toda uma montagem” para permitir ao ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, cumprir a promessa de que as pautas seriam afixadas.Porfírio Silva sustenta que foram publicadas pautas incompletas ou com erros, nas quais faltavam classificações e surgiam valores como menos três ou menos um. O dirigente socialista recorda que, posteriormente, foram corrigidas “dezenas de milhares de notas”. A conclusão, afirmou, é clara: “As pautas não existiam. Isto é ficção política.”“Atropelamento e fuga”O dirigente socialista fala em “atropelamento e fuga” para descrever os prejuízos causados a milhares de estudantes sem que o responsável político tenha assumido as consequências.“Atropelamento porque 166 mil alunos viram a sua vida transtornada pela imprudência e impreparação do ministro da Educação, e fuga porque fala sempre como se estivesse tudo resolvido, quando estamos sempre a verificar que isso é apenas uma negação da realidade”, afirmou.O deputado concluiu: “Faz-se, causa-se o prejuízo a tanta gente, por imprudência política, por irresponsabilidade, e depois a culpa nunca é do ministro.” Uma situação que classifica como “gravíssima”.Para o vice-presidente da bancada socialista, os problemas colocaram em causa a confiança num sistema que funcionou durante décadas.“Depois de 30 anos de um sistema de exames a funcionar como um relógio suíço, em que as pessoas podiam não gostar do resultado, mas tinham toda a confiança no sistema de exames, estamos numa situação que qualificaria como de atropelamento e fuga”, declarou.Porfírio Silva acusa ainda o Governo de ter submetido 166 mil alunos a um tratamento marcado pela irresponsabilidade e critica a transferência de culpas.“O responsável político nunca tem responsabilidade por nada. Responsabiliza os professores, as escolas, os pais e os alunos, que também fizeram os erros”, afirmou.Na sua perspetiva, esta atitude só encontra explicação na “vontade de proteger politicamente um determinado ministro, independentemente daquilo que faça”.O processo revelou ainda “imprudência” e “absoluta insensibilidade à vida das pessoas”, ao sujeitar alunos, famílias, professores e escolas a uma experiência que “não estava consolidada do ponto de vista técnico”.PS exige revisão dos calendáriosApesar das críticas, Porfírio Silva afirmou ao DN que o PS não está, neste momento, focado nas consequências políticas para o ministro. A prioridade é resolver os problemas e impedir que qualquer aluno seja prejudicado.O PS deu a Fernando Alexandre até setembro para prestar esclarecimentos sobre os problemas registados e sobre a digitalização dos exames nacionais. Caso as respostas sejam insuficientes, os socialistas admitem avançar com uma comissão parlamentar de inquérito.Segundo Porfírio Silva, o ministro, em vez de criar “mais um remendo” para o calendário e para os normativos, deveria ter realizado “uma revisão ponderada de todo o calendário, de maneira a não prejudicar ninguém”.Essa revisão deverá abranger as restantes fases dos exames, as candidaturas ao ensino superior e o início do ano letivo. O responsável socialista considera necessário proteger tanto os estudantes que continuam sem uma classificação correta como aqueles que já receberam as notas.Uma das principais preocupações prende-se com os estudantes obrigados a realizar exames na época extraordinária de setembro. Em condições normais, apenas poderão concorrer à segunda fase de acesso ao ensino superior, na qual estão disponíveis as vagas sobrantes da primeira fase.“Não podemos atirar para a segunda fase de acesso, onde só há vagas sobrantes, alunos que não tiveram culpa alguma e que podiam perfeitamente ter entrado na primeira fase”, defendeu.A solução passaria por ajustar as fases de candidatura, garantindo que só decorram quando todos os estudantes tiverem a sua situação regularizada. O deputado socialista rejeita que o número de casos possa servir para relativizar o problema: “A questão não é saber se são 50, 100 ou 200. Mesmo que seja um, não pode ser injustiçado. Isso é inaceitável. Nem que fosse um.” .Exames nacionais. Professores dizem que será “praticamente impossível” concluir reapreciações até sexta-feira.Reapreciação de exames incompletos é “inconstitucional e ilegal”.Ministro diz que nunca virou costas a "desafios complexos". 97% dos exames da segunda fase corrigidos, garante