A visita de Nuno Melo à Turquia desvenda um olhar para uma estratégia de Defesa centrada na tecnologia, na indústria e no retorno económico, mas também serve para sinalizar uma abordagem pragmática às parcerias internacionais, incluindo fora da União Europeia (UE).Questionado pelo DN sobre se a abordagem a um país como a Turquia, fora da UE, seria mais funcional e menos ideológico, o ministro rejeitou leituras dogmáticas e defendeu uma cooperação ancorada na NATO e na interoperabilidade militar.“Nós não podemos estar na NATO e achar que os aliados da NATO são outra coisa qualquer. A Turquia é um país membro da NATO muito importante. Não vejo nenhuma razão para uma perspetiva dogmática. Se a NATO tiver que entrar em combate, todos os aliados são importantes. A interoperabilidade dos equipamentos é necessária e a qualidade destes equipamentos também.”O governante deu como exemplo a decisão de adquirir na Turquia os dois novos navios reabastecedores da Marinha — o NRP Luís de Camões e o NRP D.Dinis— segundo critérios de qualidade, fiabilidade e necessidade operacional, em cuja cerimónia de assentamento de quilha do primeiro, na qual vai ser cunhada no casco uma moeda com a efígie de Camões, vai participar nesta quinta-feira. “O navio reabastecedor Luís de Camões que está a ser construído aqui na Turquia é de altíssima qualidade e é isso que nós queremos.”Para Nuno Melo, a cooperação com Ancara não deve ser vista apenas como uma compra, mas como parte de um modelo mais amplo de indústria de Defesa, em que Portugal pretende ser simultaneamente cliente, produtor e exportador.“Portugal não é apenas consumidor ou cliente. Portugal também fabrica e quer exportar. Não estamos apenas a comprar equipamento. Na verdade nós estamos a comprar e estamos a vender. Queremos promover a participação de empresas portuguesas ou na produção ou na manutenção dos equipamentos.”.O salto turcoDurante a visita à Baykar, uma das principais empresas turcas de sistemas não tripulados, o ministro destacou o nível tecnológico do setor e apontou-o como referência para o futuro português.“Estamos naquela que é talvez a maior empresa na produção de drones de grande dimensão, que utilizam inteligência artificial autónoma de diferentes modelos multipropósito no mundo. O que aqui se vê é tecnologia de ponta, do melhor que se faz no mundo.”.Nuno Melo na Turquia com os novos navios da Marinha na agenda.A Baykar é a empresa responsável pelo Kızılelma, um caça a jato não tripulado, furtivo e dotado de inteligência artificial, concebido para combate ar-ar, ataque ao solo e operações navais, incluindo missões a partir de plataformas marítimas. O programa é visto como um dos exemplos mais avançados da transição para sistemas de combate autónomos, sinalizando uma mudança estrutural na guerra aérea.Nuno Melo afirmou que Portugal pretende seguir esse caminho aprendendo com exemplos externos."Em Portugal vamos seguir também esse caminho à nossa escala. Só vendo, trocando experiências, é que melhor conseguimos identificar os nossos objetivos em relação ao futuro.”O ministro destacou ainda o impacto económico e demográfico deste tipo de investimento.“Este tipo de investimentos ajuda a captar emprego qualificado, bem pago, jovem, e ajuda-nos a desenhar estrategicamente o futuro.”Uma das ideias-chave repetidas ao longo da intervenção foi a mudança de paradigma na política de Defesa: menos compras isoladas, mais cadeias industriais, manutenção e produção nacional. "Não estamos a comprar equipamentos. Estamos a comprar ciclos de vida. Vamos adquirir satélites, mas vamos também vamos produzir satélites. Vamos adquirir veículos blindados, mas também produzir veículos blindados. Vamos adquirir fragatas, mas vamos lançar o Arsenal do Alfeite.”Sobre o futuro da indústria nacional, foi ainda mais explícito:“Há pouco tempo iniciámos a intenção de produzirmos aviões militares de A a Z. Isto era impensável há algum tempo atrás.”E ligou esta visão à coesão territorial e ao emprego qualificado:“Produzir aeronaves significa um cluster aeronáutico. Quantas empresas vão gravitar à volta disso, criando riqueza e postos de trabalho?”Para Nuno Melo, a relação com a Turquia não é apenas de aquisição, mas também de oportunidade comercial para Portugal.“A Turquia pode também adquirir aquilo que se produz em Portugal. Somos produtores, também queremos vender. Se participamos na produção do KC-390, vamos querer também vendê-los. E a Turquia, porque não, é também uma possibilidade. Portugal não é só um espaço de investimento. Portugal é um espaço de produção.”.Uma moeda de Camões, novos navios e o KC-390: a viagem estratégica de Nuno Melo .A mensagem política subjacente à visita parece clara: Portugal procura diversificar parceiros, acelerar capacidades e reduzir dependências, privilegiando uma lógica funcional e industrial, ancorada na NATO.A Turquia tem vindo a reforçar o seu peso na indústria aeroespacial e de Defesa, com parcerias e contratos com países como o Reino Unido, os Estados Unidos e outros aliados da NATO, além de uma presença crescente em mercados do Médio Oriente, Ásia e África. Empresas como a Baykar e a Turkish Aerospace Industries tornaram-se exportadoras relevantes de drones, aeronaves e sistemas militares, consolidando a Turquia como um fornecedor cada vez mais presente no mercado internacional de Defesa.A Baykar, visitada pela comitiva portuguesa, ganhou projeção internacional com os drones Bayraktar TB2, utilizados pela Ucrânia na guerra contra a Rússia, tornando-se um dos símbolos da nova geração de combate não tripulado.